sábado, 4 de março de 2017

SABORES DO CARNAVAL.

 Os foliões iam deixando a Sapucaí onde a portela retumbava os últimos acordes do samba de enredo enquanto a avenida bocejava de sono. Sozinha, segurando  suas próprias sandálias, uma moça, fugitiva de um amor mal resolvido no sertão do agreste, também entendia que naquele exato momento não só o carnaval chegava ao fim, mas a sua esperança de encontrar alguém com quem desabafasse, falasse de sua vida e, quem sabe, até se apaixonasse.   Os tamborins ainda repicavam em seus ouvidos quando alguém, não se sabe de que planeta teria vindo, surgiu em seu caminho. Sambava na ponta dos pés em torno dela como se fora Carlinhos de Jesus, o senhor de todos os carnavais.  Depois de vários giros e muita graça,  "Carlinhos", o rei dos salões, se dobrou sobre um joelho, olhou nos olhos da moça com um enorme sorriso e na mão que ora tinha beijado deixou a flor que trazia presa no chapéu. E ela, sem saber como se comportar diante do distinto cavalheiro, vergou-se de maneira que "Carlinhos" pudesse prender nos seus cabelos a flor que lhe dera. Mal tinha ele arrumado a flor entre o grampo e os curtos fios de cabelo  e o jovem, que não tinha a malandragem que demonstrava, mas tinha o jeito dos grandes dançarinos, tocou-a nos lábios de maneira que a garota esmoreceu.  Viajou na espiral da mais linda fantasia.  Poderia ter achado que havia sido dopada, caso não fosse com o rei dos salões que tudo aconteceu. O surdo batia cadenciando os últimos compassos da escola enquanto o coração brejeiro da graciosa morena que se permitiu enfeitiçar com o trato recebido,  agora sambava no pulsar dos seus orgasmos que, no vazio da apoteose, ali, ao lado do seu conquistador, a cada espasmo se entregou. 
Enfim, como diz o velho Palhaço Poeta, eram os últimos suspiros de um carnaval que agonizava para não morrer.