terça-feira, 7 de março de 2017

CARA DE PALHAÇO.

     Minhas lembranças estão cheias de confete. Na minha cabeça ecoa o bumbo da minha escola enquanto o meu coração cadencia o som da bateria no recuo. Essas coisas me levam a pensar que seria melhor, ao invés de nos darem a quarta-feira de cinzas para descansar, que nos oferecessem o resto da semana porque ninguém se refaz de uma festa daquela magnitude em vinte e poucas horas.  A Bahia saiu na frente acrescentando mais tempo ao carnaval enquanto a gente tenta afogar as mágoas, beijar as bocas que se pretende e paquerar as desinibidas num curto espaço de três dias. Lá, na Bahia, os conterrâneos conseguiram esse milagre, mas querem mais, enquanto em outros estados o povo se ajeita da maneira que pode, num Domingo e numa segunda-feira, e ainda aceita que chamem a terça-feira de gorda, no desmilinguir da festa.
É claro que o país precisa de mão de obra diversificada e de quem a execute com certa maestria ou jamais sairemos desse lamaçal em que nos meteram.  Quanto ao carnaval durar uma semana ou quinze dias não deve ser tão doloroso assim e quem sabe não custe tanto aqueles que vem brincando com o país desde a sua descoberta.  Certos europeus nos escravizaram, roubaram nossas pedras preciosas e as nossas mulatas, mas não nos furtaram o samba sincopado.  Os políticos nos roubaram a esperança, mas não nos levaram o samba de roda e o de enredo. Os estrangeiros nos saqueiam as florestas e delas furtam a biodiversidade, pintam e bordam com a gente, mas ninguém nos faz tanto mal como os que pintam na nossa cara a cara que o palhaço tem e diante de tamanho escalabros concluímos que  de palhaço a gente só tem a risada pelas coisas que fazem com quem não pode se defender.  Portanto, um mês ou dois de carnaval porque ninguém aqui é palhaço. De verdade.