sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CHEFE SECRETO.

    
    O fantástico provou, no domingo passado, o quanto podemos melhorar a espécie cooperando com os mais necessitados, principalmente com aqueles que não transferem para o governo ou à sua própria sorte às dificuldades com que levam a vida. Pelo contrário. Levantam cedo e vão à luta. Essa gente especial trabalha, sem reclamar, como se fosse sócio da empresa. No programa passado um dos diretores de uma grande empresa se fez passar por um funcionário recém-contratado. A um empregado mais antigo foi designada a tarefa de ensinar ao novato o serviço a ser cumprido. Em momento algum esse funcionário caçoou da falta de habilidade do recém chegado ou amaldiçoou a própria sorte com a incumbência que atrasaria o seu serviço. Só que o funcionário não pensava dessa maneira. Deu a ele, além da atenção que achava que merecia e os conselhos necessários quanto ao cuidado com os olhos e com a pele no manejo dos produtos químicos, como o aconselhou a se dedicar ao que se propôs fazer. Parecia até que o “professor” lidava com algum ente querido tal o carinho e cuidado com que o tratava. Nos intervalos os dois trocavam ideias e foi em uma dessas conversas que o novato ficou sabendo que seu mestre tinha um filho especial e que três dias, em cada semana, sacrificava as horas de almoço para levá-lo à terapia no Hospital onde nenhum centavo seu era cobrado – na última semana o menino ficou em casa por não ter como seu pai pagar as passagens. Era, como ele mesmo dizia, uma ginástica enorme dividir o tempo entre o trabalho e o tratamento. – Ele merece meu sacrifício, até porque, não pediu para ser assim. Eu já tive a minha oportunidade quando fui aceito nesta casa, por isso eu trabalho com amor e dedicação. Espero continuar por aqui por muitos e muitos anos e se surgir uma oportunidade para melhor de cargo, é claro que farei tudo para merecer esse lugar. Com isso eu ficaria mais tranquilo com relação ao tratamento do meu filho – concluiu enxugando os olhos. 
O novato saiu trabalhando em outras das suas filiais e de conversa em conversa foi aprendendo com os empregados o que é perseverar, sofrer e amar o que faz. Dias mais tarde cada um dos escolhidos com quem trabalhou foi chamado à sala da diretoria. À medida que seus nomes eram citados, cada um, apreensivo, sentava diante do diretor. 
– Você se lembra de mim, perguntava o chefe emocionado a cada um que se sentava à sua frente.
– Não senhor. Pelo menos eu não me lembro. 
– Eu sou o novato que você, pacientemente, ensinou o serviço que eu demorei a aprender e até me contou um pouco da sua vida. 
Em suma; o pai, cujo filho doente carecia de fisioterapia, teve o tratamento pago pela firma no melhor centro de reabilitação do estado, assim como as passagens, a alimentação e a hospedagem. Também teria abonado os dias em que o levasse ao hospital. Isso sem falar na promoção recebida e os 40% de aumento nos seus vencimentos. Com os outros escolhidos o diretor fez o mesmo. Apontou a fidelidade do funcionário e o seu interesse pelo que fazia e por isso recebiam algo que, em conversa, teriam dito que precisavam, como cursar uma faculdade ou terminar as obras da sua casa. 
Nesse dia eu me senti um lixo. Graças a Deus nem todo mundo é igual a mim.