sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

TAL FILHO, MAS NEM TAL PAI.

    Tem vez que gentileza não gera gentileza, até pelo contrário. Assim foi com meu filho (18 anos) que ao sair de uma festa num bairro vizinho sentiu que alguém esmurrava a porta traseira do carro buscando, sabe-se lá o quê. Talvez fosse alguém conhecido pedindo uma carona ou estivesse a fim de zoar, como fazem alguns. Meu filho ficou uma fera, até porque, se o pai dele soubesse que o carro tinha corrido algum risco de ser arranhado, com certeza não haveria uma próxima vez. O veículo não tinha rodado para que as portas se trancassem automaticamente, por isso alguém, porta adentro invadiu o veículo com ordem de, “siga que depois eu explico”. Era voz de menina fugindo da cinta do pai - pensava ele. Voz de medo, de pavor, não se sabe de quê.
– Meu Jesus do céu! Será que estou sendo assaltado por uma criança? – Pensou o condutor. Mesmo com a forte segurança da casa, qualquer coisa poderia acontecer por aquelas redondezas. Avançado os primeiros cem metros a pessoa voltou a falar, desta vez com menos agressividade, certamente pela calma aparente do meu filho, mas de qualquer forma era bem melhor que os agudos no pé do ouvido – confessou o motorista. 
– Você me desculpe, mas passei a noite com um cliente que ao invés de me pagar pelo serviço combinado, ele tomou o meu dinheiro e ainda me forçou cheirar cocaína. Foi muita sorte achar a chave que ele tinha escondido. Por isso eu corri e entrei no primeiro carro que apareceu, nesse caso, o seu. Eu estava fora de mim, só queria salvar a minha vida. Agora que estamos longe do perigo você pode me deixar em qualquer esquina ou se não for pedir de mais, me leva pra sua casa. Assim que eu melhorar eu juro que vou-me embora – completou chorando. A garota era linda e com aqueles olhos cheios d’água, então, ficava muito mais bonita ainda. Parecia uma santa, não fosse a saia extremamente curta e os pequenos seios que a blusa mal cobria. 
– Tá legal. Depois do que você me contou eu não tenho coragem de deixá-la por aí a mercê da sorte. Vou te levar comigo, mas nada de barulho para não acordar meu pai. O coroa é careta e jamais me permitiria levar uma menor pra nossa casa. 
– Pode deixar que eu tomo cuidado. Amanhã durante o dia eu vou embora – disse ela.
– Amanhã durante o dia? Tu ta maluca, cara! Tu não podes passar o resto da noite na minha casa ou meu pai corta a minha mesada. Você fica lá um pouco e quando se sentir em condições me fala que eu te levo. Depois eu enfrento o velho. 
– Tá legal. Eu só quero um banho e comer alguma coisa. Depois eu me viro – disse com um risco de riso nos lábios. 
Às 7h o alarme do celular me acordou. Levantei, tomei uma ducha bem fria e um gole de café bem quente, e como faço todos os domingos, me aprontei para ir à missa, só faltava pegar a chave do carro no lugar de costume, mas como lá não estava, fui até o quarto do meu filho para saber onde a tinha deixado. Pasmo o encontrei abraçado a uma mocinha que mais parecia minha neta, filha dele, se filha tivesse. 
– Jesus de Nazaré! É a mesma menina que estava na minha cama enquanto o idiota aqui pensava que fosse um ladrão. Será que eu sou um imbecil de carteirinha por não saber viver a vida ou o meu filho é que não vale nada por estar dormindo com uma criança? Na dúvida resolvi esquecer o assunto, como se um caso dessa magnitude fosse assim tão simples de se tirar da cabeça, principalmente quando uma garota, um pai e um filho, em diferentes noites da mesma semana, participaram de alguma coisa sem que cada um desconfiasse dos outros.