sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

QUANDO MAMÃE NOS DEIXOU...



   Com a visão que se tem da minha sacada ou da janela envidraçada se pode ver o que sobrou de u’a mata que já teve de tudo. Desde a flora e os seus mil tons de verde a um sonoro canto de aves enunciando os primeiros raios do dia. Ao largo da gente erguem-se casas de estilo barroco e moderno o que faz da minha pequena choupana um ninho de passarinho bordado na serra. Da varanda, que mais se parece com a proa de um vapor, posso ver a dama da noite desabrochando a sua cria. Todas as flores de uma só vez. 
A magia se faz ao escurecer do dia e a metamorfose durante a madrugada, bem ali, a um palmo do meu nariz. Assim tem sido todos os verões. Durante o tempo em que por aqui tenho estado jamais o cacto deixou de mandar convite para o parto de suas filhas. Todas as vezes a gestante se arrasta por entre obstáculos e até das flechas invejosas das estrelas ela tenta escapar. Tudo isso para dar continuidade ao ciclo semeando novas gerações e perfumando às redondezas. seu perfume, como o sinto no silêncio do meu quarto, é maravilhoso. Em todos os verões o fato se repete, mas dessa vez precisava ser diferente. A planta que enfeitava a noite, os dias e as madrugadas, viu com tristeza perecer uma de suas filhas, talvez a mais importante entre todas. Se tivesse tido melhor sorte não somente seria a mais bela como não teria nascido num verão tenebroso, mas sim na primavera quando as rosas e as tulipas, as orquídeas e os lírios, ditam a cor da roupa e o perfume a ser usado. Agora, com a sua morte, nem os mais claros e irradiantes raios de sol fazem algum sentido. O meu alpendre tem vista embaçada e o jardineiro deixou de regar as plantas desde aquele dia, pois não vingariam com o orvalho da madrugada como tem sido a partir do surgimento da vida. Porém, se o fizer, o fará com o pranto que o jardim chora por sua ausência, ou pela incógnita que me atormenta desvendar.