segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

PODIA SER A FILHA DA GENTE.

     A chuva era fina e constante. O  suficiente para deixar a garota encolhida de medo e de frio no ponto de ônibus aquela hora da noite.  Durante o dia o Alto da Boa Vista tem sido um lugar perigoso, mas imagina com chuva numa segunda-feira... Nem os carros têm coragem de parar, se alguém pedisse. É quinta marcha ladeira abaixo e quem quiser que se arranje como puder. Eu, no entanto,  com esse meu jeito de bom samaritano atochei o pé no freio assim que o farol pareceu ter cegado alguém naquele abrigo. No momento eu nem me preocupei com o que pudesse me acontecer tentando ajudar aquela pessoa, uma vez que no alto de onde deveria vir o busão uma árvore caída interrompia a passagem e só os veículos menores tinham permissão de descer.  Parei o carro, abri dois dedos do vidro da janela e falei para quem estava ali; olha, houve um acidente no alto e nem tão cedo ônibus ou van passará por aqui.  Se você quiser entra aí que eu te dou uma carona - disse olhando para quem, talvez sem saber.  A garota vencendo o frio e o medo largou o plástico com o qual se protegia e adentrou como um foguete pela porta de trás.  Quer dizer que te dou carona e você nem do meu lado quer me dar o prazer de ficar, perguntei sorrindo para quem, cheia de vergonha, fez que ia descer para ficar do meu lado.
– Não precisa, minha pequena.  Claro que não precisa. Eu só queria tirar deste seu rosto bonito essa expressão de medo que você carrega.  Minutos depois ela, demonstrando cansaço,  balbuciou se eu podia deixá-la na portaria do prédio da Rua Uruguai, na Tijuca, onde morava sua tia.
 – Posso até deixar, minha jovem, mas vai que ela não esteja lá.  Que tenha saído. O que é que você vai fazer novamente sozinha?  Diga-me onde você mora que eu te ajudo a chegar ao destino...  Mas ela não respondeu.
Com o carro aquecido e cansada como demonstrou que estava a passageira fechou os seus lindos olhinhos e, dormiu. Parei no endereço em que disse morar sua tia, mas ninguém apareceu para atender o interfone.  Então decidi tocar para minha casa em Vila Isabel, perto dali.  Guardei o carro na garagem de onde se via a sala, o quarto e uma parte da minha cozinha.  Para não entrar em desespero quando acordasse, fiz questão deixar os vidros e as portas do carro abertas, assim como as da casa, menos, é claro, a do quarto onde eu pretendia dormir.  Às cinco da manhã senti que alguém se mexia na cama ao meu lado.  No escuro do quarto e com a cidade violenta do jeito que tem andado,  nem da garota me lembrei no momento.  Fiquei quietinho para despistar o malfeitor que me deu um beijo, de leve, na face e um muito obrigado na hora que foi embora.