terça-feira, 31 de janeiro de 2017

CAÍDA DO CÉU.

       Depois do que aconteceu comigo e com meu filho, não posso mais ver uma pequena na rua que logo me vem à mente o que aconteceu com a gente. No domingo à tarde, por exemplo, recebi uma ligação do pároco da nossa igreja que, antes de dizer o que queria, já cuspia fogo pelas ventas. Morri de medo do esporro que me daria quando me lembrei que no domingo, depois da missa, ele me abriria espaço para a minha fala. Está na cara que me cobraria, depois de encher-lhe o saco em busca da oportunidade de falar aos jovens sobre o mal que o vício agrega. Antes de ouvi-lo eu já estava sem chão. Esquecer o compromisso com qualquer um já não é bom, mas com uma pessoa a quem você deve respeito, é muito pior.
Arranjei coragem, não me lembro de onde, e tentei explicar, da melhor forma possível, os motivos que me levaram a faltar com ele, haja vista que, segundo esse mesmo apóstolo, eu teria nascido mágico, pelas escapadas que eu arranjava. Infelizmente esqueci de combinar com meu filho que contou as verdades que eu não tive coragem.
Mas como eu vinha dizendo, qualquer garota, sozinha ou não, era sinal de perigo, principalmente se fosse morena e bonita. Hoje a minha diarista chegou atrasada. Disse que a filha, único amor de sua vida, não tinha passado bem a noite e hoje, assim que acordaram, correram pro médico. Aquilo me quebrou, principalmente quando me lembrei que foi o seu bebê o motivo de eu tê-la empregado no instante em que sua gravidez motivava seus pais a mandá-la para fora de casa.
– E a criança, melhorou? – Perguntei sem olhá-la. Você podia ter me ligado que eu ia entender numa boa. Te dispensava pra você cuidar da pequena, e como dizem os mais velhos; com saúde não se brinca, principalmente do filho da gente.
– Eu não liguei porque nem me ocorreu que devesse, mas como o médico disse que não era nada grave e sim mudanças pelas quais a menina da sua idade passa. Aí foi que eu me acalmei, até tomei a liberdade de trazê-la comigo para o senhor ver se ainda se lembra dela. Era um pedacinho de gente quando o senhor acolheu na sua casa. Agora ficou diferente, muito diferente. Menos para mim, que sou mãe.
Depois de ouvir o que a diarista acabara de dizer um suor frio começou a brotar da minha testa.
– Meu Jesus do bom parto, me socorre! Será que se eu olhar por cima do meu ombro eu darei de cara com um mulherão desse tamanho, de pernas grossas, seios pequenos e boca carnuda pronta para me engolir? Acho que o cego se dá melhor nessas horas, mas o pior é que eu estou doido para ver a escultura que a natureza esculpiu naquele bolinho de gente. E então, cadê a mocinha?
– Pera aí que vou chamá-la, disse a mãe entrando no meu quarto. Não, isso não pode estar acontecendo. De novo, não. Nem um minuto se passou e a diarista adentrou à sala abraçada de sua filha que aparentemente estava muito bem, a não serem os traços especiais que uma criança com down, traz. Joguei-me aos pés daquele anjo, tomei-a nos braços e sobre o ombro daquela mocinha eu chorei tudo o que a minha alma represou a vida inteira