terça-feira, 17 de janeiro de 2017

A CASA DO MEU AVÓ.



    

    Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia algo que marcasse o tempo,  se o mediam pela posição do sol ou coisa parecida.  Sei, no entanto, que ninguém fazia nada às pressas, por isso tudo saía a contento. Nada do que se fazia era sem propósito, sem tempero ou sem amor.  Vovô levantava cedo para antes do  raiar do sol estar na lavoura.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma canção que até bem pouco tempo mamãe cantava quando nos punha para dormir. Depois  era a vez dos porcos que grunhiam pelo inhame cozinhando no fogão à lenha enquanto os passarinhos chilreavam na gaiola e fora dela. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionava se a maioria cantava tão perto dos seus ouvidos - essa pergunta jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava ao alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos carpia o mato dos pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos rapazes, mas eu, moleque de cidade grande que escolhia passar as férias do colégio com eles no sítio, jamais acreditei que aquele gigante de bom coração atentasse contra os próprios filhos.  Com o passar do tempo  meus tios saíram de casa.  O mais velho era uma menina que anos mais tarde os levou para morar na cidade da qual só tinham ouvido falar.   Minha avó, a mulher mais linda e bondosa do mundo, esteve ao meu lado até pouco tempo e felizmente eu pude dar a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até gargalhar de perder a compostura eu a fiz.  Guardo isso com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando vovó se vestia de fada para contar suas histórias me deixando de boca aberta com seu desempenho. Eu sei que tenho muito dos meus avós nos meus traços, mas de verdade me pareço mais com a minha mãe, não pela doçura e generosidade, mas pelo meu jeito durão, carapaça com a qual me defendo  para dar continuidade a saga dos Klein, dos quais faço parte.
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas estão voltando para o galinheiro, mesmo  que vovó lá não esteja cantando a mesma canção.