sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

O JARDIM DA MINHA VIDA.

     Quando comprou o primeiro carro a turma do bairro fez uma festa danada ao passo que a vizinhança fechava a cara e as portas sabedora do que a esperava.  De certa maneira a zoação aumentou. Os cigarros mudaram de cheiro, os refrigerantes que não davam barato trocados por algo que desse, os amigos de fora enlouqueceram as meninas de dentro e as madrugadas ficando cada vez mais quentes.  Os antigos amigos sabiam que tinham carona para os fins de semana e eventuais compromissos.  O número de passageiros que levava no bojo constava somente nos seus documentos, não para aqueles que precisavam de transporte para um encontro.  Era só dar um jeito que os outros, não importava quantos fossem, se ajeitavam a sua maneira. Folgado ali talvez nem o motorista. E assim foi por muitos e muitos anos até que todos se arrumaram na vida.  Hoje a farra ainda perdura, mas cada um se transporta à sua mercê, até porque se enamoraram de umas pessoas com quem se casaram, mudaram de endereço e tiveram seus filhos. As crianças brincam quando estão juntas enquanto os pais, hoje cascudos, curtem a juventude que teima por não acabar. E o engraçado disso tudo é que ninguém dava nada por essa garotada, e no entanto, um é juiz de paz, três são grandes empresários, dois jornalistas de boa estirpe e o restante teria optado pelo direito. Suas mulheres seriam colegas de seus maridos. As portas que antes se fechavam com a sua presença, hoje escancaram ao passo que são recebidos no portão e até aplaudidos quando, no bairro, dão a honra de sua presença. Os problemas mais sérios ocorridos na época não disseram respeito a ninguém daquela turma e sim aos que a família jurava ser melhor que qualquer um. A vida tem dessas coisas, assim já dizia o velho palhaço poeta. E para não dizer que a velhice me rói as lembranças, lembro do um velho ditado que diz; "no princípio tudo são flores" -  mas para contrariar tal pensamento -  no princípio nem terra para semear as margaridas parecia existir por aquelas bandas e quanto ao jardim que hoje perfuma e enfeita a cidade, nem pensar que pudesse surgir se pensava.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

CHEGA AÊ!

     Quando saíres em viagem para fora do estado ou principalmente do país, não te esqueças de fazer uma visita ao museu da cidade, ao teatro e principalmente, se tiveres coragem, é claro,  a uma casa de swing. Lá tu verás de tudo que possas ou não imaginar, só não vais esperando dar de cara com o preconceito e muito menos com o pudor que nos cora o rosto, já que esses dois nem tão por perto passarão por ali.  Será interessante saber de que forma o pessoal que frequenta a casa se divide entre o exibicionista e o voyeur.  Alguns vão a estes lugares como quem vai ao cinema ver um filme pornô, só que ao vivo.  Já outros adoram se mostrar e o fazem de maneira que lhes dê, a ela ou a ela, um prazer incomensurável, principalmente por saber que ninguém foi ali para julgar ninguém. Para esses dois casos, nada é próprio bastante como a visita de quem, talvez sem propósito, aprenderia apimentar o seu relacionamento conjugal.  Num lugar com essas características você encontrará casais gays, casais héteros, solteiros e comprometidos.  Conhecer as regras da casa e respeitá-las, como respeitar as escolhas que os outros fazem é preponderante à convivência.  Seria natual dizer que algumas pessoas entram num espaço como esse e se arrependem, mas como a música toca em todos os cantos e principalmente para os frequentadores das pistas de dança, tu poderás, muito bem, te manteres sentada observando os casas que bailam ao som da melodia ou venhas a dançar com eles.  Isso e alguns copos de cerveja ou sem eles, ajudaria em muito a passar a tua timidez.  Depois é visitar os quartos onde camas enormes acomodam casais que jamais se viram, assim como os que acomodam aqueles que preferem a coisa a dois.  Portanto, não te esqueças. Se vais viajar só ou acompanhado do ser querido, dês um "chego" até um lugar desses para temperar o relacionamento que tens em casa.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O MENINO E O BOM VELHINHO.

     
     Ele já tinha 14 anos e ainda acreditava em Papai Noel.  Ninguém desconfiava do segredo de quem tinha plena certeza que um dia seria lembrado e não importava o tempo que passasse.  Talvez o fizesse por acreditar em Deus, mesmo jamais tendo ganhado qualquer coisas naquela data. E foi assim que na noite anterior a do nascimento do menino Jesus que o nosso jovem se entregou aos pensamentos que não eram outros senão acordar na manhã seguinte e encontrar no surrado sapato junto a janela aquele que seria o seu tão esperado presente, e não importava quem o tivesse dado. Cinquenta anos mais tarde e aquela lembrança ainda povoava seus pensamentos. 
- Meu Deus, como tudo era difícil naqueles dias - pensava com os olhos avermelhados.  A família mal tinha o que vestir e o que comer e mesmo assim vivia uma vida honrada.  Caso a crise que o país atravessa no momento tivesse ocorrido naquele tempo nem escola pública ele teria tido e no entanto o colegial ele concluiu  numa escola do governo e aos 15 anos cruzou às portas da faculdade onde se formou na pessoa que é.  
    Já eu, do alpendre da minha residência, posso ver um punhado de pequenas lâmpadas piscando no entorno das casas. Talvez porque seja véspera de natal, e a essa altura o menino, que há cinquenta anos sonhava com o presente do velhinho de barba branca, já esteja vestido, como tem feito nas vésperas de todos os Natais, com aquelas roupas largas e as botas apertadas.  O menino, hoje burro velho e até um pouco cansado, entra num macacão vermelho com enchimento para disfarçar seu corpo esguio, põe algodão na barba e óculos transparentes de aro arredondado sobre o nariz, enche de brinquedo a caçamba da sua Hilux zero quilômetro e vai às favelas entregar o pedido que a criançada fez através dos correios.  É festa no morro, na periferia e no coração daqueles que acreditam que papai Noel até existe, se você puder acreditar.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

NEM MUITO NOVO E NEM VELHO DE MAIS.

 
      Tinha o marido de uma das duas moças 40 anos mais ou menos, enquanto ela, a esposa,  outros 40, para ser preciso. Já o parceiro da outra completaria 58 naqueles dias  ao passo que sua jovem esposa tinha os 27 completados. A quarentona vinha de outro relacionamento, mas como não há bem que sempre dure e muito menos mal que perpetue, acabou acabando. Agora tinha mais liberdade do que nos tempos de porta-bandeira da Imperatriz quando era aplaudida e cobiçada por sua beleza e desenvoltura. Já seu atual marido, titular de um conceituado time de peladas do bairro, não tinha porque voltar à casa ao largar do trabalho se sua mulher, ao fechar o salão em que trabalhava, preferia as amigas ao silêncio da moradia.  Até porque, o marido não deixaria de discutir a estratégia do próximo jogo por conta de sua adorável mulher. Antes do casamento o sexo entre eles era um charme, um meio de demonstrar poder e força, mas agora é cada um no seu quadrado. Ele por saber que a mulher não se encontra em casa, troca o dia pela madrugada e com os amigos estica as noites até onde acha que pode, com ou sem futebol. O homem do segundo grupo não tinha ambições que não fosse estar com a parceira, enquanto ela, habilidosa, o levava agregado ao peito numa coleira a fazer o que lhe desse na telha. Sexo era um caso à parte. No princípio exalado por todos os cantos; no banheiro ao transar sobre a pia; na sala sobre o sofá ou no quarto, quando algumas vezes a mulher se deixava acariciar com uma pena de pavão que o companheiro, vagarosamente, passava ao longo do corpo amarrado pelos pulsos e pelos tornozelos com uma faixa de velcro preso a cabeceira e aos pés da cama em posição de X. O prazer que aquilo lhes proporcionava era arrebatador e muitas vezes bastante barulhento.   Todos os dias o casal inventava uma maneira nova de ter prazer, mas na ausência de novas ideias um papai e mamãe já estava de bom tamanho. Hoje, por incrível que pareça, o casal dá uma por mês. Já o outro, sem obrigação de sexo entre os dois, vive num mar de rosas.  Não fosse a rachadura nos calcanhares, que muitas vezes o tiraram de uma partida, a vida daquele homem seria de dar inveja. Certa vez, nem eram duas da tarde de um dia de semana, a mulher deu com o Esqueleto (Apelido que o marido recebera dos amigos por sua semelhança com o algoz do namorado de Shi-Ra, heroína de desenhos infantis), dormindo como veio ao mundo na cama dela; peladão, peladão.  Um metro e noventa de crioulo atravessado na cama e não fosse uma das enteadas, na época com 16 anos, ter recolhido a roupa que a pessoa espalhou pela casa e nele vestido uma cueca e a mulher teria remoído as lembranças do antigo casamento. Se tinha uma coisa que a mãe não tolerava e os filhos sabiam, era roupa largada por cima das coisas.
Mesmo assim eles vivem em um mar que há tempos já foi de flores.  Hoje o sujeito se veste e se perfuma como se fosse demarcar território longe de casa e ninguém o critica, até porque a mulher já o fez e ouviu dele poucas e boas. Até de bater na cara o elemento ameaçou. E, para não dizer que falei de rosas e esqueci-me das flores, o sujeito cativou muito bem os enteados, mas à mocinha cativou muito mais e o fez de certa maneira que dava a impressão de ser a filha e não a mãe a sua mulher, tal o cuidado e o carinho com que trata e é tratada pelo convidado, agora dono da casa.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

NO ALTO DA CAPELA.

       Com a correria no pátio da Igreja Santo Antônio, no Suspiro, quase jazeram as imagens que nada tinham com a chegada do rapaz. Uma das moças, não me lembro se a mais gordinha, mas com certeza a mais bela de todas, corria de braços abertos para o jovem recém-chegado do Rio, que a partir daquele momento se tornaria o homem da sua vida. A imagem criada no momento em questão deu a ele a certeza de que Deus, de fato, existia. Bela, como são as flores espreguiçando no alambrado dos jardins,  ela sorria se atirando nos braços do amado. Passado os festejos do primeiro encontro os dois, entre uma conversa e outras tantas, buscavam se conhecer.  E foi a partir daquele momento que o rapaz se propôs invadir a privacidade dos pensamentos da mulher.  Durante os primeiros meses batia, com os nós dos próprios dedos, àquela porta, mas ninguém, na consciência da jovem, se dignava abri-la. Nos primeiros anos tentou várias vezes adentrar os seus pensamentos, mas alma viva nenhuma, atrás da porta, se arriscou ajudá-lo.  O máximo que conseguiu, depois de várias tentativas, foi uma fresta por onde se podia enxergar várias portas, em ambos os lados, de um cumprido corredor cujo final não se tinha ideia de onde seria. No décimo ano o rapaz, hoje seu marido e fiel escudeiro, já tinha nas mãos o passaporte que lhe dava o restrito privilégio de acessar o corredor de onde se via através de pequenas aberturas nas portas o mínimo espaço de cada sala. Dentro de 20 ou talvez 30 anos quem sabe ele tenha a permissão de entrar nessas salas, acender aluz, mudar as coisas de lugar, mas mexer nos arquivos acredito que não. O mais próximo disso que chegaram foi através de um psicólogo que depois de estudar o mapa existente na cabeça de um ser humano, ter se casado com ele, ter tido filhos e netos e sofrido a dor da guerra que praticamente mutilou sua espécie, chegou finalmente a conclusão que o fichário existente no arquivo daquela sala tinha cor alaranjada. Portanto, considerando que 50 anos seria o tempo estimado para que vivêssemos lúcidos,  somente 40  deles seriam dedicados ao estudo daquilo que nos move os pensamentos.  Concluindo; seria necessário que os pesquisadores vivessem 500 anos, mais ou menos, para entender o que leva uma pessoa a tecer pensamentos a respeito de outra e de que forma faz isso, observando uma margem de erro que não excedesse os 50 por cento, para mais ou para menos.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

PELO MENOS PARECE...

     

     Minha mãe me achava sem jeito, meio abrutalhado, já meu pai tinha outra ideia a meu respeito.  Minhas irmãs me chamam de mané enquanto os meus amigos me chamavam de irmão.  Como se vê não precisamos mudar nosso jeito  para agradar ninguém, até porque você jamais o conseguiria.  Tem vez que me acho durão até de mais para o cara que eu sou, mas também tem momento que me sinto um banana diante de certos acontecimentos, mas em tempo nenhum eu pensei me suicidar por causa disso.   Diante da minha mãe, por exemplo, eu me sinto um brutamonte aos pés de tanta doçura.  Diante do meu pai, pelo que  transparecia nos olhos dele, um maricas ou algo parecido.  Minhas irmãs pensam que sou um bobão perante os outros por conta da minha "ingenuidade", mas os amigos, os verdadeiros, me acham compreensivo, coerente.  Eu nunca me preocupei com isso e mesmo que pretendesse mudar não conseguiria.  Jamais sairia dando porrada para provar minha macheza pro meu velho ou para agradar as minhas irmãs sairia cobrando aqueles a quem eu tivesse emprestado alguma coisa.  Com a minha mãe, então, eu em nada melhoraria a minha imagem dizendo palavras que ela sabia não serem minhas. Ninguém, por mais que se esforce conseguiria ser a metade do que mamãe foi enquanto viva. Com base no que disse acima eu afirmo que todos temos três personalidades.  São elas; a nossa, a que vivemos e a que gostaríamos de viver. Haja vista que diante do Papa nos comportamos de uma maneira.  Diante dos nossos filhos de outra e de outra quando estamos com os amigos. Fora os momentos em que, chegando em lugar desconhecido e diante dos olhares curiosos a gente não tente demonstrar ser o que não se é.  Essas coisas são inerentes a qualquer pessoa e ninguém precisa ser exatamente como o outro para ser igual, já que igual é aquele que tem traços diferentes. 

sábado, 3 de dezembro de 2016

SONHO DE MENINA.

    Chorou a noite inteira a morte daquele homem.  Quando menina esse cara era o mocinho dos seus sonhos, seu príncipe encantado na adolescência para mais tarde ser seu macho, seu capacho, razão do seu sorriso.  Ele era um sujeito bronco, mal educado, violento.  Seu jeito abrutalhado espantava qualquer pessoas, mas no fundo as mulheres o tinham como um verdadeiro macho e talvez não existisse uma que não o tivesse desejado em sua cama. Quando passava todos viravam a cabeça para olhá-lo e buscando disfarçar a curiosidade as mulheres faziam cara de nojo ou cochichavam umas com as outras.  Os homens, que também o olhavam, exaltavam as qualidades que achavam negativas nele.  No fundo no fundo, essa gente também o invejava.  Talvez esse cara não soubesse o poder que exercia naquelas redondezas e por não sabê-lo, talvez se comportasse com desleixo como diziam que fazia. Desde os sete anos, Martinha, que vinha sendo criada pelos avós desde a morte da mãe, ouvia falar do gigante que nas madrugadas entrava nas casas e roubava as meninas bonitas do convívio da família, e só as devolvia depois de fazê-las feia. Quando avisavam que tal pessoa passava na frente da casa, Filhinha não corria para se esconder, mas para espreitá-lo e tirar, ela mesma, as suas conclusões. - Não, esse moço não é o que andam dizendo, até pelo contrário, tem dentes bons, queixo quadrado com cova, cabelo preto escorrido até os ombros e um olhar que mais parece uma faca, tal a certeza do corte.  
Os dias corriam  para fugir das noites enquanto Martinha crescia.  Crescia e sonhava e em cada um de dois sonhos, o gigante bonitão estava presente.  Tinha vez que a pegava de dentro do seu quarto e a levava ao seu esconderijo.  Lá o grandão se arrumava todo.  Penteava os cabelos, escovava os dentes e a levava a passear pelos bosques da cidade.  Pegava qualquer fruta que ela apontasse com os olhinhos amendoados e quando acordava sentia na face um quê de vaidade. Todos os rapazes do bairro cortejavam a moça, mas nem esperanças a criatura deixava que dela tivessem, até porque, precisava estar pronta para o seu gigante que bastava se deitar para dormir que ele invadia o seu quarto, a tomava no colo apertada junto ao peito e saíam a lugares que hoje já não importa saber.  O importante é que ao raiar do dia estava novamente em sua cama de onde seu amado a tinha pegado, inclusive bem mais bonita do que diziam que as meninas ficavam.