quarta-feira, 30 de novembro de 2016

CHEGOU O DIA.

Fazia tempo não via o filho que deixou com a vó numa casa de praia a jogar miolo de pão às gaivotas e se o fez foi por haver descoberto, ainda a tempo, que a vida não é  só criar os filhos  na beira do precipício a espera de que voem se você não se jogar la do alto  planando por sobre as matas e as ribanceiras.  O exemplo precisava ser dado para que no futuro todos, quem sabe em bando, voassem na mesma direção. O tempo passou só esta lembrança não saía de sua cabeça e foi assim que o sujeito arrumou e enfiou no carro tudo aquilo que achava que pudesse precisar, além da mulher que ainda faz a sua cabeça e desceu morro abaixo rumo ao litoral.  A viagem corria tranquila, só as novas casas e as mudanças feitas pelo prefeito no bairro confundiram um pouco a pessoa que há muito deixara de ser criança, e não fosse o GPS que a esposa fez questão de levar com eles e o casal não teria chegado ao destino que traçou.  E assim foram fazendo o que a voz robotizada de uma mulher lhes ordenava; - dobre a esquerda.  A trezentos metros vire a direita.  Siga em frente.  Na terceira quebrada de rua se viram numa favela cercados por um bando de gente mal encarada, mas para a felicidade de todos uma voz fina de criança gritou para quem quisesse ouvir; - Gente, é o meu avô! Esse aí é o meu avô! Meu pai me falou que um dia ele viria visitar a gente e ele veio...  Felizes os três caminharam por entre barracos até uma casa que antes, só ela, chegava tão próxima das marolas daquela praia.

sábado, 26 de novembro de 2016

JOGO PERDIDO.

     Ela tinha certeza que homem daquele tipo seria a metade da sua laranja.  A postura, o porte atlético desse tipo de gente nada mais é que o resumo da ópera somado a virilidade natural naquela idade, e sua vida, talvez, não fizesse sentido se não buscasse por essas lembranças.   Ela dizia que continuava solteira porque nasceu para amar, respeitar e pertencer a um homem apenas e que o tipo descrito acima seria o sujeito oculto de sua oração. A moça também deixou entender que não sonhava se casar com uma pessoa igual a ele, pois bastaria saber que ele existia para que a chama da esperança permanecesse acesa em seu peito, e no entanto, não só esse cara existia como se tornou peça crucial no tabuleiro do seu jogo.  Esse cara que cortava caminho através dos seus sonhos estava ali na sua frente e logo faria parte da sua vida. A princípio ela não sabia que poderia encontrá-lo, mas sabia que se acontecesse jamais seria notada e muito menos saberia dos desejos dela. O destino, safado, sempre nos armando uma esparrela e foi numa das melhores festas que já tinha ido que vivenciou o maior de todos os milagres.  Uma pessoa, que mais tarde ficou sabendo ser amiga de suas amigas, trouxe até a sua presença alguém que tinha mais de príncipe do que de real.  Mal sabia ela que dias depois ele se tornaria um divisor de águas em sua vida.  No momento em que se viram sozinhos imperou a inibição, mas nada como uma taça de vinho para corar a face, soltar a língua, os cabelos e os pensamentos e a vontade de rir por qualquer motivo e por fim as estrelas faiscando nos olhos de cada um.  Tal fato deu a ela a certeza de que Deus existia e que sonhar valia à pena. - Todos os meus sonhos, se é que eu os tinha sonhado, se concretizaram e a prova disso é esse deus adormecido ao meu lado nesta cama - disse a mulher numa linda camisola de seda pura.  Esse homem tem tudo o que a mais exigente das mulheres jamais sonharia, inclusive eu, que me acho espertinha - concluiu.  O tempo passou e com ele o fogo foi se apagando.  Passou a chegar  tarde à casa depois dos chopinhos com os amigos e nos finais de semana tinha sempre o que fazer com seus clientes ou com seus amigos.  Passou a frequentar a casa da mãe com mais assiduidade, coisa que não era do seu costume, e para não ficar pior, arrumou as malas e voltou para o Flat onde morou antes de conhecê-la, deixando para trás a mulher cujo maior pecado foi sonhar com a vida que viveu sem se dar conta que estava acordada.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

MELÍCIA NORDESTINA.

      Eu preciso melhorar a minha crença. Eu preciso aumentar a minha fé. Tudo que se faz nesse mundo, quando copiado, tem o privilégio dos acertos, das correções e da melhora. As vezes uma pessoa me diz alguma coisa que dois minutos mais tarde eu falo com o meu jeito, com os meus erros e acertos, com a entonação natural da minha voz mudando, talvez, não o sentido do que a mim foi dito, mas a beleza, a veracidade do fato ou a agudeza do sentido. Como eu disse, eu preciso melhorar a minha fé e acreditar que há dois mil anos uma turma falou, em palestra ou reunião de bar, de esquina ou nas festas, exatamente o que os livros sagrados garantem que teria sido dito. Entretanto um amigo me pediu que avisasse ao seu pai que chegaria mais tarde porque o carro enguiçara próximo ao bar do João e graças aos que bebiam naquele bar, que de pronto se tornaram amigos, não precisaria voltar a pé. No outro dia o amigo passou por mim e não me cumprimentou, até pelo contrário, ofendeu a minha honra e considerou falsa a amizade que eu tinha por ele. Pelo que me contaram o amigo perdeu a confiança do pai e o direito de guiar o carro dele, e tudo por eu "ter dito" que ele chegaria mais tarde por estar num bar com os amigos que bebiam. Pois é. Nem meia hora se passou desde o momento em que o cara me pediu pra avisar seu pai do enguiço do automóvel. No final das contas eu me pergunto; teria Pilatos feito e falado o que afiançam as escrituras ou a história enriqueceu o texto? E César, por que não tomou partido quando a milícia praticou booling com a garotada de vestido e cabelo cumprido? Tibério, que viu o cara ser esculachado, machucado e finalmente crucificado e nada fez, ou se fez, a história omitiu os fatos ou contou a grosso modo? A molecada que vivia em Israel estava ali, a dois quilômetros do palácio do Imperador. Aí eu me lembro de ter perdido um amigo por ter sido mal interpretado, mesmo vivendo num momento em que a Internet facilita tudo, só não multiplica os pães e os peixes e não ressuscita morto.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MEU CAJUEIRO...

       Na casa onde eu cresci com minhas irmãs havia um cajueiro.  Um enorme pau de frutas onde eu me escondi algumas vezes na esperança de fugir à vara de goiabeira com a qual mamãe riscava as nossas bundas. Aliás, eu não me lembro de ter chupado um só caju daquele pé. Talvez só estivesse ali para me proteger.  Tinha também a jaqueira que aos meus olhos era uma árvore imensa, mas tão grande que as jacas quando amadureciam caiam fazendo barulho e sujando o quinta da gente.  Os amigos do meu pai escalavam-na para pegá-las antes da queda, mas nem sempre chegavam a tempo.  Muitas vezes mamãe e algumas vizinhas pegavam, num lenços seguro pelas pontas, as que eles arremessavam do alto dos galhos. No fundo do quintal tinha um pé de abacate, mas como o leite não conhecia o endereço do pobre a gente só fez vitaminas com essa fruta adoçada com banana alguns anos depois.  Na amoreira, junto a parede da sala onde eu e as meninas dormíamos e que era o point dos azulões durante as manhãs, um passarinho de porte médio fazia, com aquelas frutinhas, a sua primeira refeição.  E era bicando as amoras enquanto cantava que sua silhueta refletia através dos furos do zinco que cobria a nossa casa, na parede interna de nossa casa e mesmo em posição invertida, sabia-se que era ele que vinha acordar a gente. Eu também não me lembro o sabor das bananas que mamãe cultivava nos fundos de nossa casa, mas lembro que tinha uma touceira com pelo menos uns cinco pés dessa fruta.  Papai dizia que elas estavam ali para decantar o esgoto da casa.  Coisas que o meu pai aprendia na obra onde trabalhava. Na casa do meu avô tinha um espaço tão grande para o plantio de qualquer tipo de planta, mas eu, que poca afinidade com o trabalho, que tinha, plantei um pé de mamão.  Nas férias do ano seguinte lá estava ele. Imponente, carregadinho de pequenos frutos ao sabor do vento. Fiquei tão feliz que mal cabia em mim.  Corri para os braços dos velhos que pareciam estar mais feliz do que eu com a minha alegria.Hoje, já crescido e sabedor da bondade dos avós que eu tive, arrisco dizer que a minha tentativa deve ter dado errada, mas os meus bondosos avós, com certeza, refizeram o plantio até que vingasse, como vingou, aquele majestoso pé de mamão que eu teria plantado. 
- Coisas de criança...

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

NO ESCURINHO...

                              

      Eu queria muito ver o filme de Giuseppe Tornatore; cinema paradiso, mas não iria se não fosse acompanhado de uma pessoa que me passasse a impressão de estarmos apaixonados. Assim foi com quem me cedeu parte da sua vida dividindo comigo o teto onde moramos. Num dia previamente combinado lá fomos nós rumo ao cinema no shopping de nossa cidade. Escolhemos duas poltronas na fileira do meio de onde se podia ver melhor a tela. Enquanto esperava a gente comia pipoca, olhava os casais se aconchegando e o apagar das luzes que parecia demorar mais do que o habitual. A pipoca ainda estalava nos dentes do pessoal a nossas costas quando a tela se iluminou.  Era a propaganda dos patrocinadores e por fim, Josh Groban, como as águas mansas de um lago em noite enluarada, me embalou o corpo e a alma com sua bela e tocante melodia. O ruído característico da máquina desenrolando a fita na cabine do operador era um motivo único a me levar creditar que eu assistia um filme projetado numa tela simplesmente, e não uma graça, ou uma obra do criador. Era o que eu, de verdade, gostaria de acreditar mesmo diante daquela belezura de cenário e o sabor doce e gostosa da trilha que tanto me encantava. Até os mais duros dos machões ali presente tentariam esconder a teimosa lágrima que certamente riscaria as suas faces na escuridão da sala. Acontece que choramos todos ou quase todos ali sentados.  A gente fica desse tamanho, oh! Diante a imagem daquele menino que, apaixonado pelo cinema, transcendia a outra dimensão. Foi apaixonante. Foi divino. Foi um presente com o qual Giuseppe Tornatore e Josh Groban nos presentearam naquele dia.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

BONS TEMPOS...

     Nas férias do colégio eu ia à casa do meu avô sempre que tivesse alguém para me levar.  O sítio ficava no norte do estado a cerca de 200 quilômetros de onde a gente morava. Minha mãe, no ímpeto de ajudar os seus pais, me embarcava num  trem pela manhã para, no final da tarde, chegar ao meu destino.    E lá ia eu na maria fumaça que além de cuspir fogo pelas ventas, soltava umas fagulhas que até já queimou um casaco que mamãe tanto recomendou que tivesse cuidado com ele. A paisagem era muito bonita.   A floresta ainda verde, a água cascateando nas pedras ladeira abaixo, os passarinhos voando sem rumo como crianças correndo umas atrás das outras e a saudade que não me largava, mesmo tendo o trem há cinco minutos deixado a primeira estação.  Na lavou eu era um desastre, porque a toda hora eu saía atrás das galinhas, subia em árvore para fugir do prego, cachorro do meu tio mais novo, a quem eu não dava sossego e dos porcos que sempre me derrubavam para pegar o inhame cozido que eu levava para eles numa grande bacia de alumínio.  Para não ser discriminado eu me enturmava com os moleques que usavam estilingue na caça aos passarinhos e muitas vezes eu tive tudo para provar que era melhor do que eles, não fossem as vezes que acertei o meu próprio dedo.  Doeu muito, mas nem cara feia eu deixei que me vissem fazer.  Só os diabinhos de lá tinham mira certeira.  Era uma estilingada e o petisco da tarde estava garantido.  Dos 14 anos para cá foi que eu percebi a covardia que era jogar pedra nos indefesos passarinhos.  E só de me lembrar que eu estive perto de fazer aquela maldade eu morro de vergonha de mim.   Minha mãe jamais soube dessa minha façanha ou no lugar da minha orelha, hoje, talvez, só restasse a cicatriz.  Vovó cuidava da horta e todas as manhãs me levava com ela como companhia. Lá minha avó me contava casos, falava de Deus, da vida e da morte enquanto eu, sem entender do que ela estava falando, jogava pedrinhas no pequeno riacho do outro lado da cerca de bambu que protegia as plantas. Hoje, pelo que fiquei sabendo, faz tempo o rio não corre mais.  As plantas acabaram e a cerca foi derrubada pela última enchente que teve por aqueles lados.  Eu gostava de ouvir o que ela falava, mesmo que não entendesse certas coisas, graças a voz gostosa com que minha avó contava suas histórias. Dos dois eu gostava mais das que o meu avô contava.  Aquela voz de barítono roncando no meu ouvido me dava certeza de que eu estava seguro.  E foi embaixo de um pé, não me lembro de que, que eu vi pela primeira vez a lua andando no céu por detrás de um montão de nuvens transparente. Meu avô riu muito quando me ouviu falando aquilo e ele, que mal sabia escrever o nome me afiançou que a lua não andava, mas as nuvens sim, é que fiquei sabendo o quanto inteligente era aquele homem.
Não estou morrendo de saudades dos meus tempos de menino e muito menos do amor com que meus avós me cercavam, mas estou, sim, com saudades dos tempos da simplicidade, como quando o meu avô cortava em pequenos pedaços com o canivete que levava consigo o fumo de rolo e, sentado debaixo daquela árvore que jamais me lembrei do nome, preparava seu cigarro com o mesmo papel de seda que hoje a juventude enrola o seu baseado. Vovô fumava a noite inteira olhando as estrelas enquanto eu, sentado em uma de suas pernas brincava com seu bigode e as vezes com o chapéu que ele, nem sempre, permitia que alguém tocasse. 

sábado, 5 de novembro de 2016

EU VI.

                                                                   
      No maracanã, onde vi o meu time empatar com um time paulista,  também vi uma das partes da torcida brigar sem que houvesse motivo.  Vi beijo de namorados que se diziam apaixonados, ladrão roubando quem achava que só o juiz fosse capaz de fazê-lo em publico e um menino torcendo pelo clube que o pai escolheu para ele.  Vi gritos de gol, de raiva e desespero.  Vi meu filho envolto na bandeira do mais querido e o filho dos outros achando que a do seu clube era muito mais bonita. Vi torcidas colorindo arquibancadas e no verde do gramado aqueles que recebem para nos fazerem mais felizes.  Vi um vendedor de picolé errando o troco, só não atentei se era a seu favor ou contra. Vi os fogos espocarem no gol que tardava, mas saiu, e a torcida em peso se levantar.  A metade vibrava com o gol perfeito enquanto a outra ofendia a mãe do apitador. Na vizinhança ouvi gritos de festa e de tristeza enquanto o Faustão tinha parte do programa reduzido.   Vi alguém, que não tinha sido convidado, entrar minha casa adentro e, do nada,  me dar um abraço e uma parte do seu sorriso como se fossemos velhos conhecidos.  Vi um político religioso ir para a cadeia enquanto o outro, da mesma igreja, tomar posse na prefeitura.  Vi, enfim, tanta beleza e felicidade assim como vi coisas que me entristeceram, como a vida florindo no topo da planta enquanto meu pai, sem tempo, deixava-se ficar em minha tênue lembrança. Enfim eu vi e ouvi coisas que dos surdos e dos cegos, talvez não passassem despercebidas, mas a causa, talvez, tivesse doído mais em mim, do que o efeito que elas produziram.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

CARA DO AVÔ.

     Eu não me lembro se na casa dos meus avós havia algo que marcasse o tempo,  se o mediam pela posição do sol ou coisa parecida.  Sei, no entanto, que ninguém fazia nada às pressas, por isso tudo saía a contento. Nada do que se fazia era sem propósito, sem tempero ou sem amor.  Vovô levantava cedo para antes do  raiar do sol estar na roça.  Minha avó alimentava as galinhas cantando uma canção que até bem pouco tempo mamãe cantava quando nos punha para dormir. Os porcos grunhiam pelo inhame que fervilhava no fogão à lenha enquanto os passarinhos chilreavam na gaiola e fora dela. Eu só não entendia por que os meus tios os aprisionava se a maioria cantava tão perto dos seus ouvidos - essa pergunta jamais tive quem me respondesse.  Às dez da manhã o almoço chegava ao alto do morro onde vovô e a maioria dos onze filhos carpiam o mato dos pés de café.  Dizem que meu avô era rigoroso na criação dos rapazes, mas eu, moleque de cidade grande que escolhia passar as férias do colégio com eles no sítio, jamais acreditei que aquele gigante de bom coração atentasse contra os rapazes.  Com o tempo os meus tios saíram de casa deixando os velhos sozinhos. O primeiro de todos era menina que anos mais tarde os levou para viver na cidade da qual só tinham ouvido falar.   Minha avó, a mulher mais linda e bondosa do mundo, esteve ao meu lado até pouco tempo e felizmente eu pude dar a a ela um pouco da minha alegria e em muitos momentos até gargalhar de perder a compostura eu a fiz.  Guardo isso com muito orgulho nas minhas lembranças. Principalmente quando vovó se vestia de fada para contar suas histórias me deixando de boca aberta com sua performance. Eu sei que tenho muito dos meus avós nos meus traços, mas de verdade eu me pareço mais com a minha mãe, não pela sua doçura e generosidade, mas pelo meu jeito durão, carapaça com a qual me defendo, defendo para continuar com a saga dos Klein, dos quais faço parte.  
-Agora eu preciso encerrar até porque o sol já se pôs e quando isso acontece é sinal de que as galinhas já voltam para o galinheiro, mesmo sem o canto bonito de minha avó.