quinta-feira, 29 de setembro de 2016

PONTO DE VISTA.

      Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português quando estourou a discussão. 
- Esta história já começou com um erro - disse a Vírgula. 
- Ora, por quê? - perguntou o Ponto de Interrogação. 
- Deveriam me colocar antes da palavra "quando" - respondeu a Vírgula. 
- Concordo! - disse o Ponto de Exclamação. - O certo seria: "Os sinais de pontuação estavam quietos dentro do livro de Português, quando estourou a discussão". 
- Viram como eu sou importante? - disse a Vírgula. 
- E eu também - comentou o Travessão. - Eu logo apareci para o leitor saber que você estava falando. 
- E nós? - protestaram as Aspas. - Somos tão importantes quanto vocês. Tanto que, para chamar a atenção, já nos puseram duas vezes neste diálogo. 
- O mesmo digo eu - comentou o Dois Pontos. - Apareço sempre antes das Aspas e do Travessão. 
- Estamos todos a serviço da boa escrita! - disse o Ponto de Exclamação. - Nossa missão é dar clareza aos textos. Se não nos colocarem corretamente, vira uma confusão 
como agora! 
- Às vezes podemos alterar todo o sentido de uma frase - disseram as Reticências. - Ou dar margem para outras interpretações... 
- É verdade - disse o Ponto. - Uma pontuação errada muda tudo. 
- Se eu aparecer depois da frase "a guerra começou" - disse o Ponto de Interrogação - é apenas uma pergunta, certo? 
- Mas se eu aparecer no seu lugar - disse o Ponto de Exclamação - é uma certeza: "A guerra começou!" 
- Olha nós aí de novo - disseram as Aspas. 
- Pois eu estou presente desde o comecinho - disse o Travessão. 
- Tem hora em que, para evitar conflitos, não basta um Ponto, nem uma Vírgula, é preciso os dois - disse o Ponto e Vírgula. - E aí entro eu. 
- O melhor mesmo é nos chamarem para trazer paz - disse a Vírgula. 
- Então, que nos usem direito! - disse o Ponto Final. E pôs fim à discussão.
(Conto de João Anzanello Carrascoza)

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

MOINHO DE SONHOS

    A mulher e o menino iam montados no cavalo; o homem ia ao lado, a pé. Andavam sem rumo havia semanas, até que deram numa aldeia à beira de um rio, onde as oliveiras vicejavam.
Fizeram uma pausa e, como a gente ali era hospitaleira e a oferta de serviço abundante, resolveram ficar. O homem arranjou emprego num moinho próximo à aldeia. A mulher se juntou a outras que colhiam azeitonas em terras ao redor de um castelo. Levou consigo o menino que, no meio do caminho, achou um velho cabo de vassoura e fez dele o seu cavalo. Deu-lhe o nome de Rocinante.
Ao chegar aos olivais, o pequeno encontrou o filho de outra colhedeira - um garoto que se exibia com um escudo e uma espada de pau.
Os dois se observaram à distância. Cada um se manteve junto à sua mãe, sem saber como se libertar dela. Vigiavam-se. Era preciso coragem para se acercar. Mas meninos são assim: se há abismos, inventam pontes.
De súbito, estavam frente a frente. Puseram-se a conversar, embora um e outro continuassem na sua. Logo esse já sabia o nome daquele: o menino recém-chegado se chamava Alonso; o outro, Sancho.
Começaram a se misturar:
- Deixa eu brincar com seu cavalo?, pediu Sancho.
- Só se você me emprestar sua espada, respondeu Alonso.
Iam se entendendo, apesar de assustados com a felicidade da nova companhia.
Avançaram na entrega:
- Tá vendo aquele moinho gigante?, apontou Alonso. Meu pai sozinho é que faz ele girar.
- Seu pai deve ter braços enormes, disse Sancho.
- Tem! Mas nem precisava, respondeu Alonso. Ele move o moinho com um sopro.
Sancho achou graça. Também tinha uma proeza a contar:
- Tá vendo o castelo ali?, apontou. Meu pai disse que o dono tem tanta terra que o céu não dá para cobrir ela toda.
- E se a gente esticasse o céu como uma lona e cobrisse o que está faltando?, propôs Alonso.
- Seria legal, disse Sancho. Mas ia dar um trabalhão.
- Temos de crescer primeiro.
- Bom, enquanto a gente cresce, vamos pensar num jeito de subir até o céu! - disse Alonso.
- Vamos!, concordou Sancho.
Sentaram-se na relva. O cavalo, a espada e o escudo entre os dois. Um sopro de vento passou por eles.
Já eram amigos: moviam juntos o mesmo sonho.

(João Anzanello Carrascoza
Autor deste conto, é publicitário, 
professor da Universidade de São
Paulo (USP) e autor de livros infantis,
 entre eles, Aprendiz de Inventor (Ed. Ática)

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

APRENDIZAGEM


- Mãe, cabelo demora quanto tempo pra crescer?
- Hã?
- Se eu cortar meu cabelo hoje, quando é que ele vai crescer de novo?
- Cabelo está sempre crescendo, Beatriz. É que nem unha.
A comparação deixa a menina meio confusa. Ela não está preocupada com unhas.
- Todo dia, mãe?
- É, só que a gente não repara.
- Por quê?
- Porque as pessoas têm mais o que fazer, não acha?
A menina não sabe se essa é uma pergunta do tipo que precisa ser respondida ou é daquelas que a gente ouve e pronto. Prefere não responder.
- Você é muito ocupada, não é, mãe?
- Hã?
- Nada, não.
A mãe termina de passar a roupa e vai guardando tudo no armário.
Enquanto isso, Beatriz corre até o quartinho de costura, pega a fita métrica e mede novamente o cabelo da boneca. Ela tinha cortado aquele cabelo com todo o cuidado do mundo, pra ficar parecido com o da mãe, mas a verdade é que ficou meio torto.
"Nada, não cresceu nada", ela conclui, guardando a fita. E já tem uma semana!
Depois volta para onde está a mãe, que agora lustra os móveis.
- Mãe, existe alguma doença que faz o cabelo da gente não crescer?
- Mas de novo essa conversa de cabelo! Não tem outra coisa pra pensar não, criatura?
Sobre essa pergunta não há dúvida: é do tipo que você não deve responder.
A mãe continua trabalhando. Precisa se apressar. Dali a pouco a patroa chega da rua e o almoço nem está pronto ainda.
- Mãe!
- O que foi?
- É que eu estava aqui pensando.
- Pensando o quê?
Beatriz não responde. Espera um pouco, tentando achar as palavras certas.
- Vai, fala logo.
- Quando a gente faz uma coisa, sabe, e não dá mais para voltar atrás, entendeu?
- Não, não entendi.
Ela abaixa a cabeça, dá um tempinho e resolve arriscar:
- Então, se você não entendeu, posso continuar perguntando sobre cabelo?
- Ai, meu Deus!
Beatriz deixa a mãe trabalhando e vai procurar de novo sua boneca.
Pega a boneca no colo e diz no ouvido dela:
- Não liga, não. Cabelo de boneca é assim mesmo, cresce devagar, viu?
E com um carinho:
- Foi minha mãe que me ensinou.
Flávio Carneiro, autor deste conto,
 é roteirista, ensaísta e professor de
 Literatura. Tem 11 livros publicados,
 dentre eles, A Distância das Coisas
 (Editora SM), vencedor do III Prêmio
 Barco a Vapor.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

UM PROBLEMA DIFÍCIL.

    Era um problema dos grandes. A turminha reuniu-se para discuti-lo e Xexéu voltou para casa preocupado. Por mais que pensasse, não atinava com uma solução. Afinal, o que poderia ele fazer para resolver aquilo? Era apenas um menino!
Xexéu decidiu falar com o pai e explicar direitinho o que estava acontecendo. O pai ouviu calado, muito sério, compreendendo a gravidade da questão. Depois que o garoto saiu da sala, o pai pensou um longo tempo. Era mesmo preciso enfrentar o problema. Não estava em suas mãos, porém, resolver um caso tão difícil. 
Procurou o guarda do quarteirão, um sujeito muito amigo que já era conhecido de todos e costumava sempre dar uma paradinha para aceitar um cafezinho oferecido por algum dos moradores. 
O guarda ouviu com a maior das atenções. Correu depois para a delegacia e expôs ao delegado tudo o que estava acontecendo. 
O delegado balançou a cabeça, concordando. Sim, alguma coisa precisava ser feita, e logo! Na mesma hora, o delegado passou a mão no telefone e ligou para um vereador, que costumava sensibilizar-se com os problemas da comunidade. 
Do outro lado da linha, o vereador ouviu sem interromper um só instante. Foi para a prefeitura e pediu uma audiência ao prefeito. Contou tudo, tintim por tintim. O prefeito ouviu todos os tintins e foi procurar um deputado estadual do mesmo partido para contar o que havia. 
O deputado estadual não era desses políticos que só se lembram dos problemas da comunidade na hora de pedir votos. Ligou para um deputado federal, pedindo uma providência urgente. O deputado federal ligou para o governador do estado, que interrompeu uma conferência para ouvi-lo. 
O problema era mesmo grave, e o governador voou até Brasília para pedir uma audiência ao ministro. 
O ministro ouviu tudinho e, como já tinha reunião marcada com o presidente, aproveitou e relatou-lhe o problema. 
O presidente compreendeu a gravidade da situação e convocou uma reunião ministerial. O assunto foi debatido e, depois de ouvir todos os argumentos, o presidente baixou um decreto para resolver a questão de uma vez por todas. 
Aliviado, o ministro procurou o governador e contou-lhe a solução. O governador então ligou para o deputado federal, que ficou muito satisfeito. Falou com o deputado estadual, que, na mesma hora, contou tudo para o prefeito. O prefeito mandou chamar o vereador e mostrou-lhe que a solução já tinha sido encontrada. 
O vereador foi até a delegacia e disse a providência ao delegado. O delegado, contente com aquilo, chamou o guarda e expôs a solução do problema. O guarda, na mesma hora, voltou para a casa do pai do Xexéu e, depois de aceitar um café, relatou-lhe satisfeito que o problema estava resolvido. 
O pai do Xexéu ficou alegríssimo e chamou o filho. 
Depois de ouvir tudo, o menino arregalou os olhos: 
- Aquele problema? Ora, papai, a gente já resolveu há muito tempo!
(Pedro Bandeira, autor deste conto, é escritor.
 Ganhou o Prêmio Jabuti na categoria Melhor 
Livro Infantil em 1986 com O Fantástico Mistério 
de Feiurinha - Ed. FTD).

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

BRUXAS NÃO EXISTEM

      Quando eu era garoto, acreditava em bruxas, mulheres malvadas que passavam o tempo todo maquinando coisas perversas. Os meus amigos também acreditavam nisso. A prova para nós era uma mulher muito velha, uma solteirona que morava numa casinha caindo aos pedaços no fim de nossa rua. Seu nome era Ana Custódio, mas nós só a chamávamos de "bruxa". 
Era muito feia, ela; gorda, enorme, os cabelos pareciam palha, o nariz era comprido, ela tinha uma enorme verruga no queixo. E estava sempre falando sozinha. Nunca tínhamos entrado na casa, mas tínhamos a certeza de que, se fizéssemos isso, nós a encontraríamos preparando venenos num grande caldeirão. 
Nossa diversão predileta era incomodá-la. Volta e meia invadíamos o pequeno pátio para dali roubar frutas e quando, por acaso, a velha saía à rua para fazer compras no pequeno armazém ali perto, corríamos atrás dela gritando "bruxa, bruxa!". 
Um dia encontramos, no meio da rua, um bode morto. A quem pertencera esse animal nós não sabíamos, mas logo descobrimos o que fazer com ele: jogá-lo na casa da bruxa. O que seria fácil. Ao contrário do que sempre acontecia, naquela manhã, e talvez por esquecimento, ela deixara aberta a janela da frente. Sob comando do João Pedro, que era o nosso líder, levantamos o bicho, que era grande e pesava bastante, e com muito esforço nós o levamos até a janela. Tentamos empurrá-lo para dentro, mas aí os chifres ficaram presos na cortina. 
- Vamos logo - gritava o João Pedro -, antes que a bruxa apareça. E ela apareceu. No momento exato em que, finalmente, conseguíamos introduzir o bode pela janela, a porta se abriu e ali estava ela, a bruxa, empunhando um cabo de vassoura. Rindo, saímos correndo. Eu, gordinho, era o último. 
E então aconteceu. De repente, enfiei o pé num buraco e caí. De imediato senti uma dor terrível na perna e não tive dúvida: estava quebrada. Gemendo, tentei me levantar, mas não consegui. E a bruxa, caminhando com dificuldade, mas com o cabo de vassoura na mão, aproximava-se. Àquela altura a turma estava longe, ninguém poderia me ajudar. E a mulher sem dúvida descarregaria em mim sua fúria. 
Em um momento, ela estava junto a mim, transtornada de raiva. Mas aí viu a minha perna, e instantaneamente mudou. Agachou-se junto a mim e começou a examiná-la com uma habilidade surpreendente. 
- Está quebrada - disse por fim. - Mas podemos dar um jeito. Não se preocupe, sei fazer isso. Fui enfermeira muitos anos, trabalhei em hospital. Confie em mim. 
Dividiu o cabo de vassoura em três pedaços e com eles, e com seu cinto de pano, improvisou uma tala, imobilizando-me a perna. A dor diminuiu muito e, amparado nela, fui até minha casa. "Chame uma ambulância", disse a mulher à minha mãe. Sorriu. 
Tudo ficou bem. Levaram-me para o hospital, o médico engessou minha perna e em poucas semanas eu estava recuperado. Desde então, deixei de acreditar em bruxas. E tornei-me grande amigo de uma senhora que morava em minha rua, uma senhora muito boa que se chamava Ana Custódio.
(Moacyr Scliar, autor desta crônica, é escritor e tem
 mais de 70 livros publicados. Ganhou o Prêmio Jabuti
 quatro vezes e é membro da Academia Brasileira de
 Letras).

domingo, 11 de setembro de 2016

O REI CANUTO À BEIRA-MAR.

       Há muito tempo, a Inglaterra era governada por um rei chamado Canuto. Como costuma acontecer com muitos líderes e homens de poder, Canuto estava sempre cercado de pessoas a enaltecê-lo. Bastava entrar num aposento qualquer e já começavam os elogios.
— Vossa Excelência é o homem mais glorioso que já surgiu na face da terra — dizia um.
— Jamais haverá alguém tão poderoso quanto Vossa Majestade — reforçava outro.
— Nada há que Vossa Alteza não seja capaz de fazer — comentava entre sorrisos um terceiro.
— Grande Canuto, monarca de todos! Nada neste mundo ousa desobedecer a vossas ordens — alguém mais dizia em seu louvor.
O rei era uma pessoa bastante sensata e estava a ficar cansado de todas aquelas tolices.
Um dia, caminhava pela beira-mar, e os seus reais dignitários e fidalgos acompanhavam-no, tecendo-lhe elogios como de costume. Canuto decidiu ensinar-lhes uma lição.
— Pois então, dizeis que sou o maior do mundo? — perguntou a todos os presentes.
— Ó rei — responderam — nunca houve alguém tão poderoso, nem jamais existirá quem tenha tanto valor!
— E dizeis também que tudo me obedece?
— Perfeitamente! O mundo curva-se diante de vós e honra-vos.
— Entendo — disse o rei. — Então, trazei a minha liteira, e vamos para a água.
— Imediatamente, Alteza! — E desceram todos, carregando o assento real pelas areias da praia.
— Vamos mais para perto — ordenou Canuto. — Colocai a liteira aqui mesmo, na beira da água. O rei então sentou-se e ficou a observar o oceano à sua frente. — Vejo que a maré está subir. Deter-se-á, se eu assim ordenar?
Os conselheiros ficaram perplexos, mas não ousaram dizer que não. — Ordenai, ó Grande Rei, e o oceano obedecer-vos-á — garantiu-lhe um deles.
— Pois bem! Oceano — gritou Canuto — ordeno que te detenhas. Maré, interrompe o teu fluxo. Ondas, deixai de rebentar na praia. Não ouseis tocar-me.
Esperou em silêncio alguns instantes, até que uma pequena onda veio espraiar-se aos seus pés.
— Como ousas! — gritou Canuto. — Oceano, afasta-te já. Ordenei que te recolhas diante de mim, e deves obedecer-me. Afasta-te.
E a resposta foi outra onda que veio rebentar ali, bem junto dos pés do rei. A maré subia, tal como sempre fizera. A água aproximava-se cada vez mais. Atingiu a liteira, e molhou não somente os pés do rei, mas também o seu manto. Os conselheiros estavam todos ao seu redor, alarmados, e desejosos de saber se ele não se irritaria.
— Ora, meus amigos — disse Canuto — parece que não tenho tanto poder quanto me fazeis acreditar. Talvez tenhais aprendido algo no dia de hoje. Talvez agora fiqueis a saber que só há um Rei todo-poderoso, que governa o mar e detém o oceano na palma da mão. Sugiro que guardeis as vossas expressões de louvor para Ele.
Os conselheiros e dignitários do rei baixaram a cabeça e sentiram-se ridículos. E dizem por aí que, pouco depois, Canuto tirou da cabeça a coroa e jamais voltou a usá-la.
William J. Bennett
O Livro das Virtudes
Editora Nova Fronteira, 1995
adaptação

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

UMA VIAGEM NO VERDE.

   Acordei com a palavra água
a dançar-me na boca. Tive sede, muita sede,
e fui beber. O dia, lá fora, estava azul
e tinha o tamanho de um rio
ou de uma cidade fantástica, e sorria.

O sorriso do dia é igual ao do sol.
É largo e branco. Tem dentro
os frutos doces da calma das manhãs,
e se for Verão são capazes de matar
a fome e a sede que têm os bichos,
que têm os homens, que têm as casas.

Visita-me agora um pássaro e diz-me: estou
doente do fumo e da pressa do voo.
Quero um ramo alto para fazer poiso
e só encontro telhados, antenas de televisão,
cidades com tosse, nuvens tristes, aviões
carrancudos nas estradas do céu.

É um pássaro bonito de asas largas
e penas cor de arco-íris. Gostava de ser
um pássaro assim, eu que também
não gosto do fumo nem da pressa do voo.
Fica poisado no meu dedo a falar-me
do mapa das coisas que tem na cabeça,
a cantar-me as cantigas de vento
que traz na ponta do bico, a dizer
que o Inverno é um sopro gelado
que magoa o sol e os ossos das casas
e enregela a casca das árvores
e as escamas brilhantes no dorso dos peixes.

Para mim o Inverno é não estar ninguém
em casa quando a gente volta
das terras quentes da beira do mar
com a boca a saber a morangos silvestres.

O pássaro sabe os segredos da sombra
das estátuas quietas nos jardins
mas não os conta a ninguém. Leva-os
guardados na bagagem do voo
e diz-me adeus lá de cima, empurrando
uma nuvem de fumo com a ponta da asa,
riscando o silêncio da noite
com a música que aprendeu a voar.

Como se chama? Que nome é que tem?
Vejo-o partir e nem lhe pergunto.
Há-de voltar quando for tempo, há-de voltar
na estação das ondas mansas trazendo notícias
dos bandos que cantam por cima do mar.

Depois de água, digo pedra
e na pedra vejo os nomes antigos
de reis e princesas, de magos e bruxas,
de cavaleiros andantes que andam cansados
das guerras já feitas, das por fazer,
das que moram nos livros da história,
das que deixam sinais na lembrança.

Andam tristes os bichos da terra
por verem crescer cidades sem sol
sobre as pedras esquecidas,
perdidas no tempo com tudo por contar.
«Vamos salvar o que resta das pedras!» —
dizem os bichos da terra, sentados
em círculo à volta do fogo, e eu oiço-os
falar e oiço-os sonhar e dou-lhes razão,
razão que sobra para os ajudar.

Depois da água e da pedra, digo fogo
e fico a tremer, não de frio, mas de medo,
com medo de ver a floresta ardida, a casa
queimada, o cereal em cinza, o pão
por fazer. Oiço sirenes, gritos na noite
e volto a tremer com medo do fogo, da chama
que chama mais fogo, mais fogo. Chega a água
e apaga o lume. Saltam da toca os bichos da terra
e fazem uma roda contentes, por verem
a seiva a correr, a floresta de novo
a cantar com árvores velhas, sábias e firmes
dançando belas canções de embalar.

Cai uma lágrima do rosto da lua
e é branca e limpa como um floco de neve.
Que dor a faz chorar? «Anda inquieto,
triste, zangado, e quem sofre é a paz!»
Na rima que faz, razão não lhe falta.

Entretém-se o poeta com esta lua redonda,
cansada de noites e noites no centro do céu
a servir de candeia contra a escuridão.
Que se guerreiem não gosta, faz-lhe doer
o seu rosto de lua, o círculo branco
das coisas que sente, das coisas que sabe.

Está lá em cima poisada há tanto, tanto
tempo que já se esqueceu da idade que tem,
dos nomes que teve nos livros antigos
dos povos que deram a forma do arado,
ao fogo, ao ferro e à roda. É mãe das marés
e gémea dos ventos, companheira das águas,
vizinha de sombras e dos vulcões. Anda agora
aflita por ver ferros em lugar de abraços.
E chora como só as luas sabem chorar:
lágrimas brancas como pérolas que chegam
à terra e se tornam crateras fundas
para guardarmos os sonhos melhores.
Apago a luz logo que a noite vem e fico a olhá-la,
triste por não poder tocar-lhe.

No rio que passa perto de mim
queixa-se, azul, um peixe pequeno. Diz:
é o óleo que mata cardumes, cavalos marinhos,
que suja os corais, as algas, as praias.
Falas iguais têm outros peixes, pequenos e grandes,
Azuis ou vermelhos. Sofrem a mesma dor:
uma dor de água turva, que faz arder
os olhos e deixa nas guelras
um gosto amargo que sabe a doença.
Tens razão, pequeno peixe azul
da profundeza do mar.

Vejo um barco à vela que leva crianças
brincando na proa e molhos de sonhos
tapados com panos de linho no meio do convés.
Sabe histórias do rio e do mar
e só tem pena do tempo que passou,
sentido por não poder navegar. Segue
a rota do peixe debaixo da onda,
e quando divide a espuma em metades iguais
parece um deus antigo, vindo de um continente
perdido no oceano das lendas.
Quero ir neste barco, mas não posso.
Só posso sonhar que vou. As viagens que faço
são sempre assim: sonhadas, sonhadas,
como se nunca mais acabassem,
como se nunca chegassem a começar.

Já disse água, azul, fogo e pedra.
Depois disse seiva, pássaro e lua.
Estas palavras são o meu alimento
e a minha memória. É com elas que vivo,
que moro e que brinco. O que sou é isto:
um duende-poeta, um gnomo-cantor
que sabe o tudo e o nada da vida das coisas
e se afunda nelas até perceber
o que são, o que querem, o que sofrem.

As palavras que digo dão corpo
às coisas que penso, e o que penso é
uma vontade grande de não ver morrer
a planta, o rio, a ave, a memória branca
que há dentro das pedras.

Tenho tão pouco, quase nada para dar:
só esta maneira de fazer poesia a falar.

Gosto dos bichos, das sementes, das pedras
raras que há nos abrigos da noite. Que mal
é que tem? Sou um duende-poeta, e as lembranças
que tenho não são de ontem, são de amanhã,
do tempo que as estrelas me dizem
que ainda está para chegar, que as aves
me contam que não pode tardar. E se às vezes
rimo a falar é por saber a música salgada
das ondas bravas do mar.

Não me podem apanhar, que eu sou tudo
aquilo que vejo e que amo: a floresta,
a duna, o rio, a maré, a seara de luz,
o galope do vento num areal feito de prata.

Sou irmão do homem quando o homem
é irmão daquilo que eu amo. Se não for,
nem tempo perco a estender-lhe a mão.

Como sou um duende-poeta, acordo
com sede de sol, de água e de espuma
e uma flor azul a bater imensa no coração.

(José Jorge Letria
Uma Viagem no Verde
Lisboa, Vega, 1989
Texto Adaptado)

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TERNURA.

      Era uma vez um violino. Tinha música azul. Tocava-o um músico de cabelo muito negro e longo e mãos longas e brancas. Pegava no arco e todo o azul se desenrolava no ar. Quando a música era mais triste, o azul ia ficando roxo e depois vermelho cor de sangue. Se a música era mais alegre, o azul ficava claro, verde, às vezes até amarelo.
Dirão os meus amigos: isto é uma história. Não é. Ou será história, talvez, mas uma história verdadeira.
O músico tinha um cão. Que se chamava Jagunço. Era preto e branco o Jagunço. Um rafeiro. O seu olhar meigo, como um luar castanho, todo ternura.
Um dia, o dono, o nosso músico – que se chamava Joaquim – sentou-se junto de uma janela de sua casa. Uma janela aberta. Era Outono, as folhas das árvores estavam castanhas, quase douradas, como o olhar do Jagunço.
E Joaquim sentou-se com o seu violino. E começou a tocar. Triste. Azul, roxo, vermelho. Vermelho igual à rosa da Primavera? Não. Um vermelho triste de uma ferida na nossa mão.
Jagunço olhou o dono. Olhar triste o do cão. Castanho-dourado das folhas de Outono. Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:
— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.
Os sons continuavam. Azuis, roxos, vermelhos.
Joaquim estava triste. E Jagunço também. E o violino tocava, tocava, tanto azul, tanto roxo, tanto vermelho…
Parou de repente de tocar. Jagunço deitou a cabeça nos joelhos do dono.
Perguntando sem ladrar, sem palavras da sua fala de cão:
— O que te apoquenta? Eu estou aqui e sou teu amigo.
O dono passou-lhe a mão branca e longa pela cabeça. Com ternura. Igual à do olhar do cão.
Lá fora, nos ramos de folhas douradas, cantou um pássaro. Sons de todas as cores.
O Sol acabava de se pôr no horizonte.
Vermelho. Igual a uma rosa vermelha. A uma flor de sangue numa mão ferida.
Joaquim levantou a sua mão sobre a cabeça do Jagunço. A mão que levara ternura trazia ternura. Todo o dourado do olhar.
E, como por encanto, uma rosa vermelha, autêntica rosa de Primavera, ficou-lhe na mão. Fugiu para o arco do violino. E o arco foi uma ramada de folhas verdes. Que o vento da música ia agitar.
E Joaquim começou a tocar. Azul, verde, amarelo.
Jagunço olhava-o admirado. Talvez os cães sorriam. Talvez. O seu olhar dourado tinha ouro-claro de alegria. Era um olhar de rei, mas de rei bom. De rei que entende os rafeiros. Os homens. Todos os Joaquins que sabem dizer se estão tristes ou alegres. E dizê-lo aos outros homens.
E Joaquim tocou, tocou, até anoitecer.
Um dia, em papel branco de pautas de cinco linhas, escreveu toda aquela música que tinha tocado defronte da janela. Em clave de fá e de sol. De Sol!
Jagunço não sabia ler mas sabia escutar.
Joaquim pôs um nome a essa música – Ternura.
E Jagunço tudo entendeu com os seus olhos bons.
Matilde Rosa Araújo
O Chão e a Estrela
Lisboa, Editorial Verbo, 2000

quinta-feira, 1 de setembro de 2016

A MENINA E O PÁSSARO ENCANTADO.

    Esta é uma história sobre a separação: quando duas pessoas que se amam têm de dizer adeus…
Depois do adeus, fica aquele vazio imenso: a saudade.
Tudo se enche com a presença de uma ausência.
Ah! Como seria bom se não houvesse despedidas…
Alguns chegam a pensar em trancar em gaiolas aqueles a quem amam. Para que sejam deles, para sempre… Para que não haja mais partidas…
Poucos sabem, entretanto, que é a saudade que torna encantadas as pessoas. A saudade faz crescer o desejo. E quando o desejo cresce, preparam-se os abraços.
Esta história, eu não a inventei.
Fiquei triste, vendo a tristeza de uma criança que chorava uma despedida… E a história simplesmente apareceu dentro de mim, quase pronta.
Para quê uma história? Quem não compreende pensa que é para divertir. Mas não é isso.
É que elas têm o poder de transfigurar o quotidiano.
Elas chamam as angústias pelos seus nomes e dizem o medo em canções. Com isto, angústias e medos ficam mais mansos.
Claro que são para crianças.
Especialmente aquelas que moram dentro de nós, e têm medo da solidão…
Era uma vez uma menina que tinha um pássaro como seu melhor amigo.
Ele era um pássaro diferente de todos os demais: era encantado.
Os pássaros comuns, se a porta da gaiola ficar aberta, vão-se embora para nunca mais voltar. Mas o pássaro da menina voava livre, e vinha quando sentia saudades… As suas penas também eram diferentes. Mudavam de cor. Eram sempre pintadas pelas cores dos lugares estranhos e longínquos por onde voava. Certa vez voltou totalmente branco, cauda enorme de plumas fofas como o algodão…
— Menina, eu venho das montanhas frias e cobertas de neve, tudo maravilhosamente branco e puro, brilhando sob a luz da lua, nada se ouvindo a não ser o barulho do vento que faz estalar o gelo que cobre os galhos das árvores. Trouxe, nas minhas penas, um pouco do encanto que vi, como presente para ti…
E, assim, ele começava a cantar as canções e as histórias daquele mundo que a menina nunca vira. Até que ela adormecia, e sonhava que voava nas asas do pássaro.
Outra vez voltou vermelho como o fogo, penacho dourado na cabeça.
— Venho de uma terra queimada pela seca, terra quente e sem água, onde os grandes, os pequenos e os bichos sofrem a tristeza do sol que não se apaga. As minhas penas ficaram como aquele sol, e eu trago as canções tristes daqueles que gostariam de ouvir o barulho das cachoeiras e ver a beleza dos campos verdes.
E de novo começavam as histórias. A menina amava aquele pássaro e podia ouvi-lo sem parar, dia após dia. E o pássaro amava a menina, e por isto voltava sempre.
Mas chegava a hora da tristeza.
— Tenho de ir — ele dizia.
— Por favor, não vás. Fico tão triste. Terei saudades. E vou chorar… — E a menina fazia beicinho…
— Eu também terei saudades — dizia o pássaro. — Eu também vou chorar. Mas vou contar-te um segredo: as plantas precisam da água, nós precisamos do ar, os peixes precisam dos rios… E o meu encanto precisa da saudade. É aquela tristeza, na espera de regresso, que faz com que as minhas penas fiquem bonitas. Se eu não for não haverá saudade. Eu deixarei de ser um pássaro encantado. E tu deixarás de me amar.
Assim, ele partiu. A menina, sozinha, chorava à noite de tristeza, imaginando se o pássaro voltaria. E foi numa dessas noites que ela teve uma ideia malvada: “Se eu o prender numa gaiola, ele nunca mais partirá. Será meu para sempre. Não mais terei saudades. E ficarei feliz…”
Com estes pensamentos, comprou uma linda gaiola, de prata, própria para um pássaro que se ama muito. E ficou à espera. Ele chegou finalmente, maravilhoso nas suas novas cores, com histórias diferentes para contar. Cansado da viagem, adormeceu. Foi então que a menina, cuidadosamente, para que ele não acordasse, o prendeu na gaiola, para que ele nunca mais a abandonasse. E adormeceu feliz.
Acordou de madrugada, com um gemido do pássaro…
— Ah! menina… O que é que fizeste? Quebrou-se o encanto. As minhas penas ficarão feias e eu esquecer-me-ei das histórias… Sem a saudade, o amor irá embora…
A menina não acreditou. Pensou que ele acabaria por se acostumar. Mas não foi isto que aconteceu. O tempo ia passando, e o pássaro ficando diferente. Caíram as plumas e o penacho. Os vermelhos, os verdes e os azuis das penas transformaram-se num cinzento triste. E veio o silêncio: deixou de cantar.
Também a menina se entristeceu. Não, aquele não era o pássaro que ela amava. E de noite ela chorava, pensando naquilo que havia feito ao seu amigo…
Até que não aguentou mais.
Abriu a porta da gaiola.
— Podes ir, pássaro. Volta quando quiseres…
— Obrigado, menina. Tenho de partir. E preciso de partir para que a saudade chegue e eu tenha vontade de voltar. Longe, na saudade, muitas coisas boas começam a crescer dentro de nós. Sempre que ficares com saudade eu ficarei mais bonito. Sempre que eu ficar com saudade, tu ficarás mais bonita. E te enfeitarás, para me esperar…
E partiu. Voou que voou, para lugares distantes. A menina contava os dias, e a cada dia que passava a saudade crescia.
— Que bom — pensava ela — o meu pássaro está a ficar encantado de novo…
E ela ia ao guarda-roupa, escolher os vestidos, e penteava os cabelos e colocava uma flor na jarra.
— Nunca se sabe. Pode ser que ele volte hoje…
Sem que ela se apercebesse, o mundo inteiro foi ficando encantado, como o pássaro. Porque ele deveria estar a voar de qualquer lado e de qualquer lado haveria de voltar. Ah!
Mundo maravilhoso, que guarda em algum lugar secreto o pássaro encantado que se ama…
E foi assim que ela, cada noite ia para a cama, triste de saudade, mas feliz com o pensamento: “Quem sabe se ele voltará amanhã….”
E assim dormia e sonhava com a alegria do reencontro.
(Rubem Alves)