segunda-feira, 29 de agosto de 2016

VIAGEM AO PAÍS DA INFÂNCIA.

        O dia amanhecia perfumado de café e pão torrado. A bata era branca e as tranças longas. A escola, do outro lado da vila. No largo da escola cresciam as azedas, os pequenos malmequeres.
Era bom molhar os pés no orvalho matinal, correr entre os bancos vermelhos, respirar o cheiro da urze que ardia nos fornos e nas lareiras.
A escola era enorme. Ou não era? Que medida para a memória?
As carteiras tinham espaço para a fraterna comunhão dos lápis, das ardósias, das caixas de fósforos onde se guardavam os pequenos mistérios: joaninhas encarnadas, uma formiga com asas, uma borboleta adormecida.
Nas paredes havia mapas, mapas velhos, amarelados, que era preciso e fácil saber de cor.
Viajava-se nesses mapas das linhas-férreas, dos rios e das serras, em frágeis comboios, em barcos maravilhosos, de norte a sul. Parava-se em pequenos apeadeiros onde nunca ninguém fora, atravessavam-se os mares e ia-se com os Reis às cinco partes do mundo.
A minha professora era alta e forte. Ou eu era muito pequena? Vestia luto carregado pelo marido, pelo filho, pela vida. Chamava-se Maria Rosa Lopes e tinha dois canários e um canteiro de morangos junto à casa. Não a consigo dissociar destes elementos, talvez porque fossem os únicos pássaros engaiolados da vila e os únicos morangos que eu vi, até muito tarde.
Às vezes, deixava-nos nos barcos dessas viagens ao fim da terra e ia a casa, que era mesmo ao lado, num breve instante, adiantar o almoço dos filhos ou buscar brasas para uma bacia de cobre com que aquecia a sala, no Inverno.
Junto com os parágrafos, as conjunções, as dinastias, havia poemas, o cheiro da cebola refogada e, às vezes, um morango vermelho que era prémio.
Penso agora, ao ver tantos estudantes angustiados, tantos professores preocupados com os insucessos escolares, tantas greves, tanto desencontro nesse espaço que devia ser a grande festa da aprendizagem e do ensino, como seria bom existir ainda esta ligação telúrica casa-escola-terra-ervas-poemas-mapas-cães-gente que guardo em mim numa linha de continuidade terna e ininterrupta. Sem meatos entre a Família-raiz e a Escola, que deve ser a continuação de um espaço em que a criança se desenvolve, ilhada de serenidade e sabedoria. Porque tenho a certeza de que foi lá, na minha escola primeira, que bebi e mastiguei com olhos imensos para a vida tudo o que até hoje me foi válido. Vêm ainda aqueles dias em que se revolviam os canteiros frente à entrada, com pequenos sachos, para depois se assistir ao milagre dos goivos e dos lírios; das rosas e das malvas-amor, na Primavera.
E, mesmo sem os modernos clubes, pela Páscoa fazíamos o teatro, as saias bordadas e compridas, a alegria do primeiro bâton, os olhos amigos que nos vigiavam expectantes, à espera do engano, da falha. E também havia a exaltação da Pátria, a discreta iniciação à resistência de tudo o que representasse tirania e opressão. Festejava- se o 1° de Dezembro com tanto sentido de amor à liberdade que ainda hoje estremeço quando recordo a Banda e os discursos, os poemas, os foguetes que acordavam a madrugada como um sinal.
No centro de tudo isto: perfumes, bichos, terra, flores, canções, mapas, morangos, canários, aquela mulher era uma catedral negra, tranquila, protectora, ímpar: Inesquecível.
Na minha escola descobri a força e a magia das estações do ano e aprendi que é feia a denúncia e boa a Amizade. E a minha infância foi assim, pelas mãos dessa professora tão poderosa e discreta, um receptáculo magnífico de vivências, de aprendizagens do que é essencial e perpétuo para se caminhar na vida.
E apetece-me deixar aqui um desafio: quem quer experimentar na sua escola esta cabala de ternura e simplicidade; esta vontade de chegar ao fim acreditando?
Quem quer trabalhar, assim, para ficar para sempre no coração comovido de quem vos recordar? Que professor, hoje, não terá medo de uma qualquer viagem que os seus alunos um dia fizerem ao país da infância?
Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Editorial Escritor, 1996

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O PÃO DOS OUTROS...

      Remi está a conversar com a avó.
Gosta de a ouvir falar dos seus tempos de menina.
— Na minha aldeia, na Provença, pelo Ano Novo, no primeiro dia de Janeiro, toda a gente oferecia uma prenda a toda a gente. Vê lá se és capaz de adivinhar o que seria.
Remi lança palpites:
— Comprar prendas para a aldeia inteira… É preciso ter muito dinheiro. Quer dizer que as pessoas eram ricas?
A avó riu-se:
— Oh, não! Naquele tempo, tinha-se muito pouco dinheiro e ninguém na aldeia comprava prendas. Nem sequer havia lojas como há hoje.
— Então faziam as prendas?
— Não propriamente!
— Então como é que faziam?
— Era muito simples. Ora ouve…
Antigamente, cada família fazia o seu pão. Não havia água corrente nas casas. Então íamos buscá-la à fonte, no largo da aldeia.
E, no dia um de Janeiro, de manhã muito cedo, a primeira pessoa que saía de casa, colocava um pão fresco no bordo da fonte, enquanto enchia a bilha de água. Quem chegava a seguir pegava no pão e punha outro no mesmo lugar para a pessoa seguinte, e assim por diante…
Desta forma, em todas as casas, se comia um pão fresco oferecido por outra pessoa. Nem sempre se sabia por quem, mas garanto-te que o pão nos parecia muito bom porque era como se fosse um presente de amizade.
As pessoas que estavam zangadas pensavam que talvez estivessem a comer o pão do seu inimigo e isso era uma espécie de reconciliação…
Durante alguns dias, esta história andou a martelar na cabeça de Remi.
Uma manhã, teve uma ideia.
Meteu no bolso uma fatia de pão de lavrador. É o pão que se come na casa de Remi.
E na escola, um pouco antes do recreio, Remi pousou o pão bem à vista, em cima da carteira de Filipe, o seu vizinho.
Filipe está sempre com fome e repete sem cessar a Remi:
— Oh! Que fome, que fome eu tenho! Bem comia agora qualquer coisa!
Quando Filipe viu a fatia de pão, que rica surpresa! Sabia muito bem quem lha tinha dado, mas fingiu que não sabia.
No recreio, todo contente, comeu o pão sem dizer nada a Remi, mas…
No dia seguinte, sabem o que é que Remi encontrou em cima da carteira, mesmo antes do recreio? … Um pedaço de cacete!
Um grande pedaço bem estaladiço! Um verdadeiro regalo!
Filipe ria-se.
E assim continuaram a dar um ao outro presentes de pão.
Na aula, a Carlota e a Sílvia estão sentadas logo atrás de Filipe e de Remi. Rapidamente souberam da história do pão e quiseram também participar nas surpresas.
No dia seguinte, Sílvia levou uma fatia de cacetinho e Carlota uma fatia de pão centeio.
Outras crianças quiseram participar nas prendas de pão.
Apareceu pão grosseiro, pão de noz, pão de sêmea, pão sem côdea, pão caseiro, pão fino, pão russo, negro e um pouco ácido, que Vladimir levou, pedaços de pão árabe, que a mãe de Ahmed cozera no forno, e ainda muitos outros tipos de pão.
Desta forma, quase toda a turma se pôs a trocar pedaços de pão durante o recreio.
A professora apercebeu-se das trocas e perguntou:
— Mas o que é que vocês estão aí a fazer?
Carlota e Remi contaram-lhe toda a história do pão dos outros.
E, logo após o recreio, o que é que estava em cima da secretária da professora? …um pedaço de pão!
Toda a classe tinha os olhos postos na professora. Ela sorriu e comeu o pão.
E, no domingo seguinte, quando Remi viu a avó, era ele que tinha uma história para lhe contar:
— Sabes, avó? Olha, na minha turma…
Michèle Lochak
Le pain des autres
Paris, Ed. Flammarion, 1980

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

A HISTÓRIA DA MENINA A QUEM CHAMAVAM “A SENHORINHA”

Contos portugueses

    Era uma vez uma menina que tinha crescido demasiado depressa, demasiado rapidamente. Não apenas no corpo, nas pernas, nos braços, mas em tudo o resto. Com oito anos, pedia-se-lhe que fosse prestável, atenta, razoável.
Que não se queixasse, que não se encolerizasse, que não fosse caprichosa, que não fizesse exigências.
Que fosse “uma senhorinha”, pois!
Não pensem que os seus pais eram uns carrascos. Oh não! Eles apenas lhe pediam:
— Dá-nos este prazer. Não te pedimos nada a não ser que sejas gentil, que sejas obediente… não é difícil!
Como esta menina nunca tinha ousado pedir fosse o que fosse, nunca se tinha sentido desapontada. Não sabia se era feliz ou não. Não tinha desejos próprios. Não esperava nada. Eram os outros que esperavam coisas dela. E o seu único prazer… era dar prazer… aos outros!
Pelo menos, assim o imaginava ela. No entanto, qualquer coisa deveria tê-la alertado, porque os outros não demonstravam lá muito a satisfação que tinham por ela ser “como deveria ser”. Para eles, era óbvio. Para ser franco, devo dizer que, por vezes, à noite, antes de adormecer, quando ela chupava o polegar, com o lençol debaixo do nariz, os olhos abertos no escuro, um sentimento de injustiça roçava nela como uma asa negra. Oh… mas apenas roçava!
Ela também imaginava que havia um país onde as meninas podiam ser pequenas durante muito, muito tempo. Um país onde os pais escutavam os desejos das crianças, mesmo se nem sempre os realizavam. Um país onde as crianças podiam brincar a ser grandes, mas apenas brincar… a ser grandes! Em algumas noites, ela imaginava que partia para esse país, com um grande saco, e que o enchia de sonhos, de jogos, de risos e também de soluços.
É que, vocês já adivinharam, esta menina não chorava nunca… porque devia portar-se como uma “senhorinha”.
A continuação da história é surpreendente. Será necessário que esta menina espere pelos seus quarenta anos. Ouviram bem, quarenta anos, para ousar tornar-se pequena, para ousar ter desejos impossíveis, para ousar chorar e rir, para ousar dançar.
Nessa altura, ela já tinha filhos e, um dia, a sua própria filha perguntou:
— É verdade, mamã, que tu nunca pudeste ser pequena quando eras criança?
— É verdade, eu vivi como se nunca tivesse tido nem tempo, nem possibilidade de ser pequena. Sim, muito cedo me tornei grande. E só hoje compreendo. Tudo se passou como se os meus próprios pais não tivessem tido tempo para crescer quando eram crianças, e eu devesse ser grande por eles…Acontece, por vezes, às ex-meninas terem de esperar muito, muito tempo, para ousarem, enfim, ser pequenas…

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

O REI MAIS PEQUENO DO MUNDO.

    Era um rei. O rei mais pequeno do mundo. Porém, tinha a mania das grandezas. Exigia que os seus súbditos, isto é, toda a gente do país, o tratasse sempre por Vossa Alteza; Vossa Enormidade; Vossa Imensidade; Vossa Grandeza. Os amigos podiam tratá-lo, nos dias em que estivesse bem disposto, por Vossa Proeminência.
Andava pelo palácio pendurado em enormes andas, pernas de pau, que o faziam mais alto do que qualquer pessoa. No palácio, de resto, isso não era difícil, pois segundo uma lei, inventada, é claro, pelo próprio monarca, não podia entrar ninguém com mais de cinquenta centímetros. Em consequência, toda a corte era composta por anões e por crianças, e estas, coitadas, perdiam o emprego assim que crescessem demais.
Para sair à rua, o rei montava uma das suas girafas. Tinha quinze. Todas altíssimas – eram girafas! – e muito bonitas e bem-educadas. Só ele podia montar nas girafas. Nos livros das escolas, as crianças aprendiam que aquele era o rei mais alto do mundo (o que levava as crianças a pensar que todos os reis eram muito pequenos).
O rei, com a sua mania das grandezas, queria que as casas do seu reino fossem as mais altas do mundo, e os cães, os mais altos do mundo, e os pés de milho, os mais altos do mundo. «Tudo neste país», dizia, «tem de estar à minha altura». Como ele era o rei, os ministros diziam: «Sim, Vossa Alteza». Os generais diziam: «Sim, sim, Vossa Enormidade». O povo dizia: «Sim, sim, sim, Vossa Desmesura».
E assim ia indo o reino. Até que um belo dia a rainha engravidou. O rei viu com preocupação crescer a barriga da mulher. Por um lado esperava que de lá de dentro saltasse o maior principezinho do mundo. Por outro, se o principezinho fosse de sua natureza muito grande, não poderia ficar no palácio (era a lei), e ele também não queria isso. A barriga da rainha cresceu muito. Cresceu tanto que ela já não cabia nas portas.
Porém, quando passado alguns dias deu à luz, as parteiras viram sair daquela enorme barriga, primeiro  penas vento, e depois um menino minúsculo.
O rei, que nunca dava o braço a torcer, mandou anunciar por todo o reino que nascera o maior príncipe do mundo. O menino, ao qual foi dado o nome de Máximo Magno, saiu ao pai. «Meu Deus!», sorria vendo-se ao espelho, «como sou enorme». O rei lembrou-se então de instalar no palácio espelhos de feira, desses que distorcem a imagem, e nos fazem parecer muito mais altos.
Máximo Magno ficou ainda mais feliz: «Sou um gigante», gritava, «nunca houve no mundo ninguém tão alto quanto eu.»
E assim ia indo o reino. O príncipe gostava de passear pelo reino mas, como era ainda mais convencido do que o pai, não usava nem andas nem girafas. Preferia seguir a pé, sozinho, para que todos admirassem a sua coragem e estatura. Ao vê-lo, as pessoas ajoelhavam-se e gritavam: «Longa vida a Vossa Eminência, o Príncipe». Uma tarde, distraído com a beleza da floresta, Máximo Magno afastou-se muito do palácio. Já ia longe, já tinha ultrapassado a linha do horizonte, quando encontrou um elefante.
— Sai da minha frente — disse-lhe com arrogância — senão piso-te. Sou o maior principezinho do mundo.
O elefante, que não era dali, viajava há muitos dias, e não conhecia a fama do rei, e nunca ouvira falar no príncipe, atira-se ao chão a rir às gargalhadas:
— Tu, pisas-me? Não conseguirias nem pisar na minha sombra.
O príncipe levantou o pé para esmagar o elefante. Não conseguiu, claro, só ele acreditava nisso, e o elefante continuou a rir. Quando conseguiu acalmar, disse ao príncipe:
— Uns nascem pequenos, outros nascem grandes. Mas ninguém nasce maior ou menor. Um dia dirão talvez que foste o maior rei do mundo, mas será por aquilo que fizeste, será porque foste um bom rei, e não por causa da tua altura.
O principezinho regressou ao palácio a pensar no que o elefante dissera. Quanto mais pensava, mais achava que o outro tinha razão. Mandou tirar os espelhos do palácio. Começou a falar com toda a gente, de igual para igual, e assim aprendeu muita coisa. Hoje, lá no reino, quando falam dele, as pessoas dizem: «É o maior Rei do mundo». E realmente acreditam nisso. Já ninguém se lembra do velho rei.
José Eduardo Agualusa
Era uma vez
Revista Pais e Filhos, s/d
adaptado

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O TESOURO DE CLARA.

 
    Clara vive no Brasil. Não possui quase nada. Tem pele de âmbar e cabelos pretos. Veste uma t-shirt grande e, nos pés, traz sandálias de borracha, faça chuva ou sol.
Clara tem doze anos. Trabalha num orfanato. A sua função é limpar a cozinha e, de vez em quando, pode fazer de mãe dos mais pequeninos. E gosta muito disso.
À quinta-feira, é o dia de descanso de Clara. É então que sai…
A cinquenta metros, perto de um banco que está fechado, estão todos juntos à espera dela. Olham uns para os outros, sorriem, regalam-se de antemão.
São os seus amigos: Lúcia, Ângelo e Ana. Não têm casa e dormem onde calha, nas ruas do Rio.
Lúcia tem oito anos. Os seus cabelos são como ninhos de andorinha. Está sempre a rir e a mexer as mãos e os pés.
Ângelo é pequeno mas muito forte para os seus onze anos. Um dia, conseguiu mesmo levantar uma bicicleta. Está sempre descalço. Caminha sem dificuldade sobre as pedras. Canta as canções escritas por aqueles que viajaram e viram muitos países. Canta muito bem, o Ângelo.
Ana é a mais bem-comportada. Não fala muito. Tem doze anos, tal como Clara, que conheceu há muitos anos naquele sítio, diante do banco.
Por vezes, Lúcia, Ângelo e Ana vão trabalhar na produção do algodão. Outras vezes, varrem as ruas. Ou então, os pescadores chamam-nos à praia para puxarem as redes. Depois, encontram-se, sonham em conjunto, com o nariz no ar, a olhar para as nuvens e a contar os dias até quinta-feira.
Ângelo, Lúcia e Ana têm muitos amigos na rua. Alguns respiram uma cola contida em garrafas de plástico, o que os faz sorrir sem razão nenhuma.
Quando Clara encontra os amigos, vão todos a correr para a praia. Atiram areia à cara uns dos outros. Cantam a cantiga Pescadores dos três mares e comem o pão que os turistas lhes dão. Lúcia, Ângelo e Ana não querem daquela cola que faz esquecer os problemas.
Eles têm Clara. Clara é a mercadora de sonhos. Não é que os venda realmente; em vez disso, dá-os de prenda.
Clara sonha muito alto com lugares maravilhosos. Praias compridas e douradas, com barcos, papagaios de papel e papagaios de verdade.
Montanhas encantadas cobertas de gelo e criaturas estranhas, onde sopra um vento mágico, do norte. Um vento que te adormece e te acorda cem anos mais tarde.
Cidades futuras cheias de luz. De carros que voam e de parques de estacionamento floridos. E de um fogo de artifício feito de pequenos comboios brilhantes, de pizzarias e de arranha-céus espelhados.
E Clara fala-lhes de um Rio sem adultos, onde só há crianças gentis e alegres, que têm os dentes todos. Que saltam sobre os carros e invadem as lojas de bombons.
Ela oferece-lhes vales inteiros de árvores carregadas de frutos, com quatro sóis amarelos no meio do céu e com camponeses ricos, vestidos de comerciantes.
E Clara transforma os monumentos antigos da cidade em palácios das Mil e Uma Noites, e os gatos que passam em tigres da Malásia.
Clara conta os seus sonhos durante horas.
Ela estudou quatro anos na escola e lê todos os livros que encontra.
Agora, é tarde. Clara levanta-se, sacode a areia das mãos e volta para o orfanato. Os amigos escutaram-na, boquiabertos. Riram e choraram. E os olhos deles arregalar-se-ão de novo na próxima quinta-feira.
Para eles, não há cola.
Eles têm Clara.
E muitos sonhos bons para viverem ainda…
(Beatrice Alemagna
Le trésor de Clara
Paris, Autrement Jeunesse, 2000
traduçao e adaptação)

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O AVÔ LOP

       
                                  No fundo da floresta dos sonhos há uma densa moita. Os ramos entrelaçam-se bem no alto e formam um guarda-chuva verde e viçoso, que protege dos aguaceiros de cristal do início de Abril e de Maio todos os seres que ali vivem. A chuva cai durante uma ou duas horas e, depois, o sol, com os seus raios dourados, escorre pelas folhas até ao chão. Foi nesta moita que brincaram e viveram os coelhos da floresta durante toda a vida. Havia coelhos com grandes rabos fofinhos, coelhos quase sem rabo – pequenos, gordos, magros, peludos – e um coelho muito velhinho chamado Avô Lop.O Avô Lop era tão velho que há já muito tempo o seu pêlo embranquecera. Usava um velho cachecol à volta do pescoço e andava sempre com um pau nodoso que lhe servia de bengala.Todas as tardes, por volta das duas ou três horas, o Avô Lop sentava-se no seu tronco preferido a desfrutar do calor do sol. Sentava-se em silêncio até que – sem que se apercebesse – todos os coelhinhos pequenos se juntavam aos seus pés. Eles bem tentavam ficar calados, mas era-lhes tão difícil que alguns até tinham de meter as orelhas na boca para não se rirem.O Avô Lop recostava-se no tronco, olhava em volta e começava, numa voz muito suave e baixa:— Em tempos que já lá vão, no país da névoa e das coisas mágicas, havia uma floresta encantada…À medida que ia contando a história, muito devagar, algo de estranho e maravilhoso acontecia. O Avô Lop começava a endireitar-‑se cada vez mais. A luz do sol incidia nos seus olhos castanhos e deles emanava, em raios cintilantes, para toda a floresta. Até o seu pêlo reluzia.Enquanto ele contava a história, os coelhinhos ficavam completamente deslumbrados, porque, de um momento para o outro, o velho Avô Lop transformava-se no Mago da Floresta. Os coelhinhos estavam tão fascinados pela história, que nem davam conta de ela chegar ao fim. O Avô tinha de dizer:
— Agora é tempo de irem, coelhinhos. E lá regressavam eles, aos saltinhos, à moita da floresta.Mas os coelhos mais velhos foram ficando cada vez mais preocupados com os pequeninos. Certo dia, depois de eles terem desaparecido como de costume, os coelhos mais velhos reuniram-se.
— Aonde é que eles irão? — perguntavam uns aos outros. — Desaparecem todos os dias à mesma hora.
— Aposto que saem para ir ver aquele velho e inútil Avô Lop — disse um deles. — Só sei que não andam a fazer coisa boa! Conversaram e frasearam durante algum tempo e decidiram que, mal os coelhinhos voltassem nessa tarde, iriam descobrir exactamente o que estava a acontecer. À hora do costume, os coelhinhos regressaram e, como combinado, os coelhos mais velhos perguntaram-lhes onde tinham estado.
— Bem — disse um — fomos à floresta ver o Avô Lop e ele contou-nos a mais maravilhosa história da floresta. E enquanto a contava, aconteceu a coisa mais mágica e maravilhosa: o Avô Lop transformou-se no Mago da Floresta!
— Eu sabia! — disse um dos coelhos mais velhos, encolerizado. — Aquele coelho velho só conta mentiras aos miúdos.
— Mas é verdade! — protestaram os coelhinhos em coro. — Quando ele nos conta histórias, aparecem sempre estrelas e faíscas. É magia!
Os coelhos mais velhos pularam para o lado e falaram em surdina uns com os outros, olhando de vez em quando por cima do ombro. Finalmente, regressaram, zangados, para junto dos mais novos e disseram:
— Achamos que vocês estão a mentir, porque não existe magia. Por isso, vão já para a cama sem jantar e daqui para a frente estão proibidos de tornar a ver esse Avô Lop!
Com as lágrimas a correrem dos olhos, os coelhinhos arrastaram-se até às suas camas. Tinham o coração pesado e o estômago muito vazio.
No dia seguinte, como de costume, o Avô Lop sentou-se no seu tronco preferido a apanhar sol e à espera de que os coelhinhos aparecessem. Fartou-se de esperar e deve ter mesmo passado pelo sono, porque acordou, sobressaltado, quando o sol estava já a pôr-se. Para seu espanto, não havia coelhinhos nenhuns à sua volta.
“Se calhar esqueceram-se”, pensou, “mas de certeza que amanhã se vão lembrar”. Dito isto, partiu a manquejar em direcção à sua toca na floresta.
No dia seguinte, e no outro, foi um Avô Lop entristecido que esperou e esperou pelas crianças, que nunca mais apareciam. Por fim, já desesperado, foi, aos saltos, até à grande moita do bosque, à procura de algum sinal dos coelhinhos.
À medida que caminhava pelo carreiro sinuoso, fortemente apoiado na bengala, encontrou um dos coelhos mais velhos.
— Bom dia! — saudou, inclinando a cabeça hirtamente. — Ando à procura dos coelhinhos do bosque. Costumava contar-lhes histórias, sabe, mas eles deixaram de vir.
— Pois ainda bem! — grunhiu o coelho grande. — Tudo o que aqueles coelhinhos aprenderam consigo foi a mentir e a inventar histórias.
O Avô Lop ficou chocado.
— Mas eu nunca lhes ensinei a mentir — disse. — Só lhes contei as maravilhosas e mágicas histórias do bosque!
— Pois já não vai contar mais nenhuma — disse, irritado, o coelho, enquanto saltava de novo para dentro da moita.
Foi um Avô Lop muito mais triste e envelhecido que regressou à sua toca na floresta, com uma lágrima a descer-lhe pelas bochechas.
Sem nada com que ocupar agora os dias, o Avô Lop vagueava sem destino pela floresta. Ainda chegou a ir uma ou duas vezes à grande moita da floresta, mas, assim que aparecia, os coelhos mais velhos conduziam os coelhinhos para o lado oposto.
— Vai-te embora! — gritavam-lhe então. — Não queremos coelhos velhos na nossa moita.
E, com isto, todos os coelhos fugiam precipitadamente para as suas tocas.
Completamente sozinho, o Avô Lop deixava a moita e voltava para o seu canto do bosque.
Os coelhinhos-bebés fizeram o que lhes mandaram, mas não conseguiam esquecer os sortilégios do Mago da Floresta. Às vezes, quando estavam todos sozinhos, costumavam segredar o quanto tinha sido divertido. Mas, a maior parte das vezes, arrastavam-se pela moita, levantando a poeira e sentindo-se muito tristes.
Os coelhos mais velhos tentavam animá-los e até lhes contavam uma história ou outra, mas não era a mesma coisa.
As coisas pioraram tanto que os coelhinhos começaram a discutir uns com os outros. Começavam por um encontrão mas acabavam sempre num emaranhado de braços, pernas e orelhas a lutar no chão.
A certa altura, como alguns dos coelhos mais velhos já não aguentavam mais, reuniram os coelhos todos.
— Isto tem de acabar — disseram. — Com lamúrias e disputas não se consegue fazer mais nada. Já não se vai buscar comida, já não se constroem novas tocas e o Inverno está a chegar.
— Se ao menos pudéssemos ouvir as histórias mágicas do Avô Lop — disse um dos coelhinhos — já não arranjávamos mais problemas.
— Mas a magia não existe! — disseram, zangados, os coelhos mais velhos. — Vocês mentiram.
— Nós não mentimos! Nós dissemos a verdade e, se tivessem vindo connosco, ter-lhes-íamos mostrado que a magia existe mesmo.
Os coelhos mais velhos pensaram por uns instantes e decidiram:
— Vamos convosco visitar esse Mago da Floresta, só para vos provar que a magia não existe.
E lá seguiram todos, aos saltinhos, pelo longo e sinuoso carreiro da floresta, até chegarem ao tronco onde o Avô Lop esperava sentado. Estava, como sempre, a apanhar sol, e a contemplar tranquilamente o céu. Os coelhinhos sentaram-se aos seus pés, num ápice, enquanto os coelhos mais velhos se acomodavam, cépticos, num cepo velho e apodrecido.
O Avô Lop reclinou-se para trás e, com um brilho nos olhos, começou, numa voz suave e baixa:
— Há muito tempo, numa terra de névoa e magia, havia uma floresta encantada…
Os coelhos mais velhos arregalaram os olhos de espanto ao verem o Avô Lop endireitar-se cada vez mais. À medida que ia contando a história, a luz do sol como que emanava dos seus olhos castanhos e faíscas de magia começavam a cintilar por toda a floresta. Enquanto contava a história, o seu pêlo passou de branco a prateado e transformou-se no verdadeiro Mago da Floresta.
Quando a história chegou ao fim, um maravilhoso fim, todos os coelhos, novos e velhos, estavam completamente encantados. A beleza do momento era tal que alguns dos coelhos mais velhos tinham lágrimas nos olhos.
Ninguém disse uma única palavra com o medo de quebrar aquele encanto. Mas, um a um, todos se aproximaram do Avô Lop e abraçaram-no com todo o amor que tinham no coração.
Os coelhos mais velhos nunca pediram desculpa pelo mal que tinham feito aos coelhinhos e ao Avô Lop, porque todos sabiam que, às vezes, até os mais velhos cometem erros. Mas agora, todos os dias, à mesma hora, os coelhos saltam da moita e correm a ouvir o Avô Lop e a vê-lo transformar-se no Mago da Floresta.
"Escutem os mais velhos, E as suas histórias douradas; E lembrem-se do Avô Lop E das magias reveladas".
(Stephen Cosgrove
Grampa-Lop
Los Angeles, Sloan Publishers Inc., 1981
tradução e adaptação)

terça-feira, 9 de agosto de 2016

VIAGEM ATRAVÉS DO SOL.

    Uma criança sentou-se na tarde agreste e pintou o sol. A sala onde a criança estava ficou iluminada e fresca. Depois, a criança misturou as tintas, a água, o sonho e, num grande cartão, lentamente, foi erguendo prados, lezírias, florestas, aves, flores inesperadas. Então, chamou a irmã que a um canto assistia à criação deste mundo original e disse: «Vamos fazer uma viagem!»
E entraram os dois com seus olhos e sua imaginação pela tela dentro, alheios ao espanto de quem os contemplava nesse itinerário súbito da tarde de frio.
Misteriosamente, trocavam palavras de silêncio, encontravam- se com anões, gigantes e animais estranhíssimos, metade homens, metade bichos que, ora os assustavam, ora os desvaneciam.
A certa altura a menina disse:
— Vamos chamar a mamã?
E o menino respondeu:
— Não podemos. É muito alta. Não cabe nestes caminhos: ia pisar tudo e estes bichinhos ficavam tristes. Muito tristes.
A mãe, imóvel numa cadeira, ali mesmo à entrada desse lugar impenetrável e inacessível, ouvia o diálogo e tentava fazer-se pequenina para ir com eles. Mas não conseguia. Esforçava-se imenso e não conseguia. Tinha uma grande vontade de chorar por estar ali sozinha à beira daquele milagre mas as lágrimas não lhe adiantavam. Entretanto, os meninos, sempre a caminhar, tinham chegado ao mar. Era um mar sem abismos, sem ondas, sem temporais. Um mar susceptível de ser atravessado pelos pés levíssimos de quem o descobria.
— Vamos ao fundo deste mar! — disse a menina.
— Cá em cima é mais fresco. Lá em baixo há peixes grandes e escuros. Mordem, os peixes.
— E a mamã? — insistia a menina, já perturbada pela lonjura a que devia estar de casa, perturbada pelo bibe molhado, aflita com as algas verdes que se lhe colavam ao rosto.
— Levamos-lhe uma flor do mar. Ela fica contente se tem uma flor.
— Vamos já embora? — tornava a menina.
— Não. Só quando formos muiiiiiiito velhos.
A menina calou-se. Estava séria. Estendeu-se ao lado do irmão na areia branca daquela praia tranquila e distante.
Sentia-se muito cansada e adormeceu.
Então, amorosamente, o irmão tapou-a de folhas e flores imaginárias e ficou ali a velar-lhe o sorriso.
Quando reparou na mãe, estremeceu ligeiramente. Tinha os olhos brilhantes e, dos cabelos, escorria-lhe um perfume a sol e azul.
Sobre a tela, encostada a um armário, a noite começava a diluir em sombra toda a floresta, e o dorso dos animais marinhos erguia-se também numa respiração tranquila.
Maria Rosa Colaço
Não Quero Ser grande
Lisboa, Ed. Escritor, 1996

sábado, 6 de agosto de 2016

QUEM SEMEIA VENTOS, COLHE... INCÊNDIOS.

     Numa aldeia russa, vivia um camponês chamado Ivan. Estava bem na vida. Era o melhor trabalhador da aldeia e tinha três filhos saudáveis, que também eram bons trabalhadores. O seu velho pai era o único na família que não podia trabalhar, mas cuidavam dele muito bem. Tinham tudo o que precisavam para comer e vestir, e teriam sido felizes se não fosse o vizinho de Ivan, Gavrilo, o coxo. Ivan e Gavrilo detestavam-se.

Tinham sido bons amigos até ao dia em que algo acontecera – algo de tão ridículo e insignificante! Uma galinha que pertencia à filha de Ivan pôs um ovo no pátio de Gavrilo. Todos os dias, a galinha punha um ovo no galinheiro.
Quando a filha a ouvia cacarejar, ia buscar o ovo. Mas, daquela vez, os rapazes tinham assustado a galinha e esta tinha saltado a vedação. A filha de Ivan estava ocupada nesse dia e só foi buscar o ovo à noite. Não conseguiu encontrá-lo e os rapazes disseram-lhe onde o procurar. Foi então a casa do vizinho e encontrou a mãe de Gavrilo.
— O que queres, rapariga?
— Avó, a minha galinha esteve hoje no seu pátio. Não pôs lá nenhum ovo?
A velha pensou que a filha de Ivan estava a acusá-la de ter pegado no ovo e respondeu-lhe torto.
— Não lhe pus a vista em cima. Nós temos as nossas galinhas e já há muito tempo que elas andam a pôr.
Apanhamos os nossos ovos e não precisamos dos ovos dos outros. Ó rapariga, não precisamos de ir para os pátios dos outros apanhar ovos!
A filha de Ivan não gostou nada do que ouviu. Respondeu desabridamente, e a mãe de Gavrilo foi ainda mais desabrida. A mulher de Ivan passou por ali (tinha ido buscar água) e, nesse momento, a mulher de Gavrilo saiu de casa. Começaram todas a falar ao mesmo tempo, a ralhar e a insultar-se. Depois vieram os maridos, que tomaram o partido das respectivas mulheres e começaram à pancada. E Ivan, que era mais forte, feriu Gavrilo, o coxo.
Gavrilo levou o caso ao tribunal da aldeia, declarando que queria que Ivan fosse castigado. Quando o pai de Ivan ouviu isto, falou com firmeza.
— Rapazes, vocês estão a fazer uma asneira. Pensem bem! Tudo começou por causa de um ovo. Um ovo não vale muito. Há que chegue para todos. Foram ditas muitas palavras incorrectas; agora mostrem como se dizem palavras simpáticas. Façam as pazes e acabem com tudo isto. Se persistirem no erro, será cada vez pior.
Mas Ivan e a família não o escutaram. Pensavam que o velho estava a dizer disparates. Em vez de fazerem as pazes, Ivan foi a tribunal e tentou que Gavrilo fosse punido por lhe ter rasgado a camisa enquanto discutiam por causa do ovo.
Depois disso, os vizinhos discutiam todos os dias e sempre por motivos mesquinhos. Foram a tribunal tantas vezes que o juiz já estava cansado de os ver. E assim continuaram durante seis anos.
Por fim, a filha de Ivan acusou publicamente Gavrilo de roubar cavalos, e Gavrilo bateu-lhe de tal forma que a deixou de cama durante uma semana. Desta vez, o caso era mais sério e, quando Ivan levou o caso a tribunal, o juiz deu ordem para que Gavrilo fosse chicoteado. Era uma forma muito dolorosa de punir as pessoas culpadas. Quando Gavrilo ouviu o que iria acontecer-lhe, ficou tão branco e protestou tão veementemente que até o juiz teve medo e pediu a Ivan que lhe perdoasse e desistisse do caso. Mas Ivan não cedeu e foi para casa dizer ao pai que Gavrilo iria finalmente ser castigado.
— Ivan — disse o velho — não estás a proceder correctamente. Vês a maldade dele mas esqueces-te da tua. Jesus ensinou-nos algo de diferente. Se te insultam, mantém-te calado. Se te baterem, oferece a outra face. Faz as pazes com ele. Não é tarde demais para evitares que ele seja castigado, e o convidares para jantar, a ele e à família.
Como Ivan não se mexesse, o pai continuou:
— Não te demores, Ivan. A tua raiva é como o fogo. Apaga-a no início porque, se ela começar a alastrar, não poderás controlá-la.
Ivan começava a entender o que o pai queria dizer. Preparava- se para ir fazer as pazes quando as mulheres chegaram e disseram que Gavrilo estava tão zangado que ameaçara pegar fogo à casa. Então, Ivan ficou outra vez furioso, como se ele próprio estivesse a arder, e não desistiu do castigo de Gavrilo.
Nessa noite, Ivan lembrou-se do que Gavrilo dissera a propósito de atear um incêndio. Ficou tão perturbado que saiu para inspeccionar o pátio. Caminhou lentamente ao longo da vedação. Tinha acabado de virar a esquina quando lhe pareceu que algo se mexera na outra ponta, algo que se teria erguido e voltado a baixar. Ivan ficou quieto. Escutou e olhou: estava tudo sossegado; apenas o vento agitava as folhas do salgueiro e a palha. Estava escuro como breu mas os seus olhos habituaram-se à escuridão. Continuou a olhar, mas não viu ninguém.
— Devo ter-me enganado — disse Ivan — mas vou ver.
Avançou tão devagar que nem os próprios passos ouvia. Chegou à esquina e parou. Conseguia ver claramente alguém, com um boné na cabeça e agachado de costas para ele, a pegar fogo a um feixe de palha que tinha nas mãos. Ficou imóvel.
“Agora”, pensou, “não vai escapar-me. Vou apanhá-lo com a boca na botija.”
De repente, tudo se iluminou. A chama lambeu a palha no barracão e saltou para o telhado. Já não era um pequeno fogo. Ivan conseguiu ver Gavrilo e correu para ele. Mas Gavrilo fugiu e, apesar de coxo, correu como uma lebre. No entanto, Ivan ainda conseguiu apanhá-lo pela aba do casaco. Só que a aba rasgou-se, Ivan caiu e magoou-se na cabeça. Quando se levantou, Gavrilo tinha fugido. O incêndio era tão forte que parecia dia em vez de noite. Ivan conseguia ouvir os bramidos e a crepitação no seu pátio. Foi então que viu a palha a arder em direcção à casa.
Ivan tentou apagar o incêndio. “Se ao menos conseguisse tirar a palha para fora do barracão e apagar o fogo!”, pensou. A princípio, os seus pés não se mexiam. Depois, tropeçaram um no outro. As pessoas vinham a correr, mas já nada podia ser feito. Os vizinhos retiravam as coisas de suas casas e mandavam sair o gado. Depois da casa de Ivan foi a vez da de Gavrilo se incendiar. Levantou-se um vento que levou o fogo para o outro lado da rua. Metade da aldeia ficou reduzida a cinzas.
Tudo o que se salvou da casa de Ivan foi o velho pai, que fugira para uma parte distante da aldeia. Quando Ivan foi vê-lo, o velho comentou:
— Que te disse eu, Ivan? Quem incendiou a aldeia?
— Foi ele, pai. Apanhei-o. Se ao menos tivesse apanhado o pedaço de palha e o tivesse tirado para fora, nada disto teria acontecido.
— Ivan — perguntou de novo o pai — de quem é realmente a culpa?
Ivan fitou-o. Depois, lembrou-se de como tinha magoado Gavrilo em primeiro lugar, e de como não tinha ido fazer as pazes com ele enquanto ainda era tempo.
— A culpa foi minha, pai — disse. E calou-se.
Em seguida, o velho disse-lhe:
— Ivan.
— Sim, pai.
— O que deves fazer agora?
— Não sei, pai. Como posso continuar? Tudo o que tinha ficou queimado.
— Vais conseguir. Com a ajuda de Deus, vais conseguir. Mas lembra-te, Ivan, não deves dizer a ninguém que foi Gavrilo quem começou o fogo. Se não disseres, Deus perdoar-vos-á a ambos.
Ivan assim fez e ninguém descobriu como o fogo começara.
Depois, Ivan começou a ter pena de Gavrilo. E Gavrilo, por sua vez, ficou surpreendido por Ivan não ter dito nada. A princípio, tinha medo de Ivan, mas depois começou a sentir-se mais à vontade. Os homens deixaram de discutir, e as famílias também. Enquanto reconstruíam as casas, viviam todos juntos, e quando a aldeia foi finalmente reconstruída, Ivan e Gavrilo permaneceram vizinhos. E foram sempre amigos.
Ivan nunca se esqueceu do que o pai lhe dissera sobre apagar um fogo logo que ele começa. Se alguém lhe falava duramente, ele respondia com gentileza. A pessoa ficava envergonhada e não havia discussão. Assim, Ivan foi mais feliz do que nunca, e ninguém na aldeia teve tantos amigos como ele.
"Com certeza, se vivo fosse, Tolstoi 
que escreveu a peça, teria me contado".
(M. Clark; E. Briggs; C. Passmore
Lighting candles in the dark
Philadelphia, FGC,2001
tradução e adaptação)

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

O HOMEM QUE PINTOU O COELHO.

      Era uma vez, na longínqua China, um homem cuja ocupação preferida era pintar. 
Pintava pássaros. Pintava lebres. Pintava os peixes no ribeiro.
Os vizinhos e os amigos e todas as crianças da aldeia elogiavam-no e diziam:
— Os animais que pintaste parecem mesmo verdadeiros.
O homem tornou-se orgulhoso. E pensava:
— Ninguém no mundo consegue pintar animais como eu. O meu desejo era que os meus animais ganhassem vida.
Então, os animais pintados ganharam vida.
Os pássaros abriram as asas. Os peixes agitaram as barbatanas. As lebres espetaram as orelhas e farejaram com os seus narizes.
E saltaram para fora dos desenhos.
— Oh! — disse o homem satisfeito.
Mas, ao olhar com mais atenção, assustou-se. Os pássaros batiam as asas pesadamente e não se aguentavam no ar.
Os peixes, que tinham saltado para o ribeiro, nadavam de barriga para cima.
As lebres coxeavam.
O homem chorou ao ver os pobres animais. E disse:
— Não os pintei suficientemente bem. Que o meu desejo só se realize quando eu souber pintar bem.
O homem recomeçou a pintar. Começava de manhã cedo até à tardinha.
Afadigava-se como um lavrador no campo, como um trabalhador numa pedreira, como um boi à frente do carro. Quando os vizinhos o elogiavam, meneava a cabeça.
— Ainda não está suficientemente bem — dizia.
O homem foi envelhecendo. Esqueceu o desejo que tinha. Desenhava o sol e, enquanto desenhava, alegrava-se por ele existir. Desenhava as pedras e, enquanto desenhava, alegrava-se por elas. Tornou-se o pintor mais famoso do país.
O seu jardim estava cheio de crianças que o observavam enquanto pintava, e ele mostrava-lhes como eram lindas as coisas.
Um dia, uma menina abeirou-se dele e disse-lhe:
— Estou triste, e sabes porquê? Todos os outros meninos têm animais que podem acariciar e amar. Só eu é que não. Gostava tanto de ter um coelho. Podes desenhar-me um? Ao menos fico com um desenhado…
O velho homem pegou no pincel e desenhou um coelho. A menina disse:
— Faz-lhe uma mancha preta no nariz. Assim, fica exactamente como eu queria.
O velho homem desenhou uma mancha preta no nariz do coelho e sentiu que o nariz ganhava vida.
O nariz farejou. As orelhas compridas espetaram-se e um tremor percorreu-lhe o pêlo. O coelho virou a cabeça para a menina e, com um grande salto, pulou do desenho para os seus braços.
A menina encostou a cara ao pêlo macio.
— Que coelho tão lindo e amoroso! — disse. — Obrigada!
E saiu dali com o coelho, a correr tão contente, que nem uma só vez se voltou para o velho. Este ficou sentado à sua mesa, quieto e feliz, como se tivesse adormecido.

(Lene Mayer-Skumanz (org.)Jakob und Katharina
Wien, Herder Verlag, 1986
tradução e adaptação)