domingo, 31 de julho de 2016

CHIU, O REI ESTÁ OCUPADO!

     Num grande e poderoso reino, vivia um rei muito ocupado. Passava a vida entre os seus papéis e ninguém lho censurava. — São os assuntos do reino – murmurava ele.
Este rei muito ocupado era pai de um menino que tinha o direito de subir para os joelhos do pai cinco minutos de manhã e cinco minutos à noite. Depois do que, o rei muito ocupado logo parava de fazer “cavalinho, cavalinho” e murmurava com ar sério: — Os assuntos do reino, meu filho.
Um dia, o principezinho desenhou um lindo avião a jacto. E quis que o pai também visse o desenho.
— Chiu! — disse a rainha. — O rei muito ocupado encontra-se no seu escritório da sala oeste. Está a tratar dos assuntos do reino.
Num outro dia, o principezinho aprendeu com o velho jardineiro do castelo a podar as roseiras. Foi um trabalho árduo, com arranhaduras e tudo, e ele quis mostrá-lo ao pai.
— Mostra-mo a mim — disse a rainha, que estava sempre muito satisfeita e sorridente. — Adoro rosas, mesmo com espinhos.
— Não, quero mostrá-lo ao rei – disse o principezinho, que achava que a mãe ia forçosamente gostar do seu trabalho, e que assim não tinha piada.
— O rei muito ocupado está no escritório, na ala oeste. Assuntos do reino — respondeu-lhe tristemente a rainha.
Foi assim que o principezinho cresceu, dispondo, em cada dia, de dez minutos paternos. Muitas vezes, punha-se a reflectir e perguntava-se o que se passaria de tão importante na sala oeste do reino. Imaginava o rei com uma montanha de cadernos diante dele, a fazer somas de oito algarismos, multiplicações enormes. Imaginava também o telefone a tocar e o pai a responder:
— Alô Moscovo? Daqui Pequim (ou o contrário). Três milhões? Sim, compro.
E o menino ficava muito impressionado quando pensava que o pai não ousava ultrapassar com ele os dez minutos diários.
O principezinho tinha muito bons resultados na escola, mas, por vezes, era bastante insolente. E o professor não estava satisfeito. Advertiu o rei, que enviou então uma carta ao filho:
Querido príncipe,
Se não começar de imediato a obedecer ao seu professor, a sua insolência será gravemente punida. Não pode ocupar-se dos assuntos do reino quem não obedece às leis.
Com amizade e os melhores cumprimentos,
o rei seu pai.
O principezinho julgou que era uma linda carta e pô-la diante da sua secretária. Lia-a muitas vezes, porque significava que o rei muito ocupado tinha dedicado ao menino cinco minutos do seu tempo a escrevê-la. Mas, estranhamente, as palavras não lhe penetravam no coração. E continuou insolente na escola.
Num outro dia, o principezinho decidiu ir à ala oeste do castelo. Apareceu com a sua mega-pistola laser ultra-ruidosa, pôs-se atrás da porta e fez “blip, blip, blip”, “zigu, zigu, zigu”, “schlak, schlak”! Do outro lado da porta, foi a confusão generalizada.
— O que se passa? Um ataque aéreo? Depressa, terroristas! Alerta vermelho!
E, quando deitaram a porta abaixo, encontraram um rapazinho com uma pistola.
— Aí está o terrorista! — gritou o rei muito ocupado.
— Agarrem-no! Neutralizem-no!
— Não, não, sou o seu filho de seis anos — disse o príncipe. — Venho vê-lo por um motivo da mais alta importância. Quero jogar uma partida de flipper consigo.
O rei muito ocupado possuía, apesar de tudo, alguma lucidez, e deu-se conta de que tinha passado toda a vida na ala oeste do palácio, a ponto de, durante seis anos, só ver o filho dez minutos por dia, e ainda por cima na obscuridade da manhã e ao cair da noite. E eis que tinha confundido o principezinho com um terrorista!
Levantou-se e disse aos seus ministros:
— Suspendemos a reunião. Um assunto da maior urgência chama-me junto do meu filho. Queiram desculpar-me.
E foi então jogar um flipper dos diabos no café em frente.
Foi assim que, graças ao falso ataque terrorista, passou a haver regularmente partidas de flipper, passeios e discussões entre pai e filho. E juro-vos que os assuntos do reino não foram descurados por isso.
Chegou então o dia em que, quando o filho completou vinte anos, o velho rei alquebrado e cheio de cabelos brancos, passou da ala oeste para a ala este, preparada para o seu repouso.
Foi a vez do principezinho, muito jovial, ocupar a ala oeste e se tornar o Rei muito Ocupado Júnior.
O velho rei, no seu quarto, olhava com nostalgia os papéis e os dossiers do reino e folheava-os muitas vezes, com saudades do tempo em que era jovem e poderoso.
Muitas vezes ia deambular para a ala oeste, onde o jovem rei muito ocupado tratava dos assuntos do reino. Mas diziam-lhe:
— Chiu! O Rei Júnior está a trabalhar!
Então, colava a orelha à porta, ouvia o ruído do papel, um bip bip, e uma voz longínqua falar ao telefone. E dizer “Alô Moscovo? Daqui Paris”, ou talvez o contrário.
Então, o velho rei alquebrado e com os cabelos todos brancos sentava-se num pequeno banco no corredor e esperava.
Uma vez por dia, o jovem rei muito ocupado saía da ala oeste para jogar uma partida de flipper com o pai. Quando digo flipper… quero apenas dizer uma partida de xadrez, uma pequena conversa, um passeio pelo jardim para podar as roseiras, e outras coisas da mais alta importância.
Durante os passeios, o velho rei não cessava de lembrar, em jeito de balanço, aquele famoso ataque terrorista numa tarde de Novembro. E não parava de repetir (porque já era bastante idoso):
— Ah, como tiveste razão! E como somos patetas, nós, os reis muito ocupados, quando pensamos que, se não trabalharmos vinte e quatro horas por dia, e até mais, nos assuntos do reino, este pode desaparecer, e nós com ele!
E olhava muitas vezes para os cabelos do filho, cheio de admiração:
— Como são bonitos os teus cabelos pretos! Como são brilhantes os teus olhos! Como és um bom rei!
O velho rei alquebrado e de cabelo todo branco suspirava ao pensar no seu antigo poder. Mas não era um suspiro de tristeza, porque se sentia muito orgulhoso do filho, que ia suceder-lhe. E ambos sorriam em silêncio, olhando juntos o pôr-do-sol sobre o reino.
(Irmela Wendt
Jutta Modler (org.)
Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
tradução e adaptação)

quinta-feira, 28 de julho de 2016

A BATALHA DE NATAL.

        — Só mais seis dias — constata Neli, tentando em seguida assobiar Noite Feliz.
— Ainda seis dias — repete a mãe pensativamente.
A voz não soa alegre. Após uma curta pausa, prossegue, suspirando. – Se tudo tivesse já passado!
Com o assobio suspenso no ar, Neli olha para a mãe com ar estupefacto.
— Então não estás contente?
— Sim, mas já estou pelos cabelos com esta agitação toda!
Como Neli não tem aulas à tarde, vai patinar com uma amiga e, mais lá para a noite, dirige-se ao supermercado onde a mãe trabalha. Há tanto movimento que mais parece estar-se numa colmeia. A mãe encontra-se sentada numa cadeira giratória diante de uma das seis caixas registadoras. Os produtos chegam-lhe num tapete rolante e, enquanto a mão direita está pousada no teclado e marca os números, a mão esquerda roda os produtos de forma a poder ler os números, e, em seguida, coloca-os, produto a produto, no carrinho de compras. Quando acaba de marcar tudo, a mão direita carrega na tecla do total e rasga o talão, enquanto a esquerda afasta o carro cheio e puxa o próximo, vazio, para junto dela.
— Que bem que fazes isso — dissera-lhe Neli uma vez. — Eu faria tudo devagar, assim: tipp… tipp … … e, ainda por cima, metade saía mal.
— Ora — dissera a mãe a rir. — É uma questão de treino. Quando comecei, também não era assim tão despachada. Não encontrava a etiqueta com o preço, e muitas vezes carregava nas teclas erradas e as pessoas resmungavam porque tinham de esperar. Mas agora já quase consigo fazer isto automaticamente.
— Como um robô! — Neli riu-se.
Um robô como mãe? Nunca teria dor de cabeça, nem à noite estaria tão cansada. Mas um robô não tem coração. Por isso, Neli prefere a mãe tal como é, mesmo quando certas noites quase nem consegue falar de tão cansada que está!
Só mais quatro dias.
Só mais três.
As filas nas caixas eram cada vez mais longas. As pessoas abastecem-se de comida como se o Natal durasse meio ano. Com um ruído sibilante, as portas automáticas abriam-se e fechavam-se, abriam-se e fechavam-se. A mãe sentia nas costas a corrente de ar e os cartões pendurados no tecto balançavam de um lado para o outro.
Um sino de Natal, por cima da cabeça da mãe tinha escrito a vermelho:PROMOÇÃO: Bombons, 250 gr, a preço especial.
Próximo, balançava um anjo de papel com uma faixa nas mãos, como nas igrejas, mas onde não estava escrito Paz na terra aos homens de boa vontade, mas sim Fiambre para o Natal a 15,80/Kg.
Os altifalantes pingavam música de Natal:
Noite feliz…
Cabeça de anho
Noite feliz…
Café suave
Papel higiénico de três folhas
O Senhor …
Lenços com monograma
Mostarda
Nasceu em Belém…
A mãe gemia e, com um movimento rápido, limpava o suor do lábio com as costas da mão. Os clientes, impacientes, esperavam, apoiando-se ora numa, ora na outra perna. De olhar ausente, nem olhavam para a senhora da caixa, pensando no regresso com os sacos pesados, o eléctrico cheio.
Uff!
Só mais três dias, e acaba tudo.
— Vou fazer um jantar como o do ano passado — disse à noite a mãe, virando-se para a Neli — Peru assado com a laranja e batatas assadas e, como sobremesa, rabanadas e bolo-rei.
No dia 24 de Dezembro, a loja só estava aberta até às quatro horas da tarde. Em seguida, os empregados podiam comprar, com um desconto de 15%, os produtos que sobravam. A mãe de Neli achava que valia a pena, por isso tinha guardado as compras maiores para essa altura: uma pasta escolar para Neli, uma boneca, lápis de cor, um anoraque para o pai, a comida para a ceia de Natal.
Na sala do pessoal, havia um lanche para todos os empregados.
— A batalha de Natal foi mais uma vez vencida — repetia o chefe do pessoal. Dizia, depois, mais umas palavras elogiosas e eram servidos pãezinhos com fiambre e um copo de vinho.
Após o lanche, a mãe de Neli deixou ficar os gordos sacos de compras esquecidos na sala do pessoal. Só reparou quando já estava na paragem do autocarro. “As minhas prendas! Todas aquelas coisas boas para a ceia!” – pensou assustada.
Mas a loja já estava fechada e, antes do dia 27, não se voltava a lá entrar. Foi de mãos vazias que chegou a casa.
Nessa noite, apesar de tudo, festejaram o Natal. O pai acendeu as velas da árvore de Natal e Neli recitou um poema. Só se lembrou das duas primeiras estrofes e depois encravou, mas a mãe achou-o muito bonito e o pai nem reparou que ainda continuava. O jantar foi mais curto do que o planeado. Por sorte, a mãe já tinha comprado o assado e havia batatas em casa, mas não houve entrada nem sobremesa. Trincaram simplesmente nozes e comeram maçãs.
— Assim, não fico com o estômago tão pesado como no ano passado — disse o pai. — Comidas pesadas não me assentam bem.
Também não havia muito que desembrulhar.
Por isso, sobrou tempo. Muito tempo.
Neli foi buscar o jogo Memory que recebera no Natal anterior. Durante o ano inteiro, esperara, em vão, todos os domingos, que alguém tivesse tempo para jogar com ela.
Agora, os pais tinham tempo.
O pai nunca tinha jogado Memory. Ao fim de algum tempo, Neli já tinha encontrado sete pares de cartas, a mãe três, e o pai, que geralmente quer ganhar sempre, procurava constantemente no sítio errado.
Tentava ajudar-se com truques, pondo, sem ninguém dar conta, migalhinhas de pão em cima das cartas que tinha decorado, ou pousava as mãos na mesa, de tal forma que o polegar indicava a direcção em que estava uma determinada carta. Neli descobriu-lhe a jogada. Jogaram mais duas ou três vezes e o pai não se zangava por perder sempre. Depois, ainda jogaram o jogo do assalto.
À meia-noite, o pai apagou a luz e ficaram a olhar pela janela. A neve reflectia uma luz clara e ouviam-se os sinos a tocar.
— A esta hora, há quase dois mil anos, nasceu Jesus — disse a mãe, e Neli reparou como ela afinal sempre estava contente por ser Natal.
Ao ir para a cama, Neli disse:
— Este foi um Natal muito bonito.
— A sério? — perguntou a mãe admirada. — Mas não houve ceia nem prendas quase nenhumas.
— Mas houve muito tempo — respondeu Neli.
(Jutta Modler (org.)Brücken Bauen
Wien, Herder, 1987
Tradução e adaptação)

segunda-feira, 25 de julho de 2016

BACH NA CASA DE CORRECÇÃO.
(Em solo português)

        
    Uma caixa grande de violoncelo assemelha-se bastante a um caixão, pelo que, à medida que eu transportava a minha pelo Central Juvenile Hall (Centro de Detenção Juvenil) de Los Angeles, ia atraíndo muitas atenções. Dirigia-me à capela após ter sido convencido a tocar para uma audiência de jovens reclusos pela Irmã Janet Harris, que coordenava as actividades de voluntariado. O projecto que mais a entusiasmava era um programa de escrita criativa que ela própria ajudara a criar e no qual eu começara recentemente a colaborar como professor. Os meus alunos eram IARs, ou «infractores de alto risco», que estavam acusados de homicídio ou assalto à mão armada e aguardavam ali o respectivo julgamento. 
De alguma forma misteriosa, a Irmã Janet soubera que eu tocava violoncelo nos meus tempos livres e pediu-me para dar ali um pequeno concerto. Tentei recusar, recordando-me ainda da última vez que tocara para um grupo de miúdos: fora numa festa de anos e o aniversariante pontapeara a ponta do meu instrumento, declarando que o violoncelo era estúpido e que só o acordeão conseguia ser mais aborrecido.
— Irmã Janet — disse eu — já alguma vez foi a uma festa de alunos de uma escola em que a música clássica fizesse parte do programa? Pode ser uma péssima ideia…
— Ah — respondeu ela, sorridente — mas isso seria numa escola. Os nossos rapazes jamais se comportariam assim.
Após passar por um labirinto de vedações de arame, cheguei a um edifício com uma cruz no telhado. Sobrepondo a minha voz ao ruído da música que saía de um amplificador lá de dentro, apresentei-me a alguém que trazia a identificação ao peito e um walkie-talkie. Folheando um caderno com o programa, o homem disse-me então: — O próximo é já você!
Levou-me depois para o gabinete do capelão, onde pude retirar o meu violoncelo da caixa e fazer o aquecimento para a minha actuação.
— Quando o chamarmos, vá por aquela porta, que lhe dará acesso directo ao palco — explicou-me o homem.
Quando ele saiu, decidi abrir só uma nesga da porta e espreitar para a sala. Tinha curiosidade de ver qual o tipo de actuação que antecedia a minha. E vi que era um grupo de hip-hop, com a música muito alta a sair dos amplificadores, ao som da qual a audiência de prisioneiros se abanava e batia as mãos. Um dos elementos da banda era uma jovem muito atraente, com calças de ganga justas e uma camisa que lhe deixava o umbigo à mostra. Embora ela não cantasse e a forma como usava a pandeireta denotasse pouco treino, um simples olhar sobre aquele público só de homens confirmou-me que a estrela daquela actuação era ela.
Fechei a porta e afundei-me na cadeira do capelão. «Incomodo?», perguntou uma voz atrás de mim. Era a Irmã Janet.
— Acho que não foi boa ideia pôr-me a tocar — disse-lhe.
— Porque não?
— Ouça o que está a acontecer ali dentro! Estão a bater o pé e a dançar que nem loucos, e isso só por verem a rapariga de biquini, já para não falar da música. Consegue imaginar o balde de água fria que vão ter quando eu entrar ali dentro?
— Têm lá uma rapariga de biquini? — perguntou a Irma Janet.
— Não está em biquini mas quase. Isto não vai resultar.
— Tenha um pouco de fé! — instou ela.
Às duas horas em ponto, o som dos amplificadores foi desligado sem cerimónias e o grupo saiu do palco. Ao contrário do que acontece noutros concertos, em que as pessoas aplaudem e gritam bis no final de uma actuação, o público ali teve de permanecer calmo e sentado. Mas ninguém estava com um ar satisfeito.
Um homem com uma peruca mal colocada percorreu o corredor desde lá de trás por entre os bancos, virou-se para o público e leu em voz alta: — E agora o Sr. Salzman, que vai tocar violoncelo. — Depois, voltou por onde viera e saiu da capela.
O silêncio que se instalou na sala enervou-me de tal maneira que não consegui ver a plataforma mais elevada do palco e caminhei direito a ela e tropecei, entrando em cena a cambalear para não cair. Por um triz consegui evitar a queda, utilizando o violoncelo como se fosse uma vara de esqui, ou seja, apoiando firmemente a extremidade do braço do instrumento no chão e saltando para o lado do público. Não fora minha intenção fazer uma entrada à Buster Keaton, mas foi isso que aconteceu, e os reclusos acolheram-me com uma sonora gargalhada e uma salva de palmas.
Demorei um pouco a começar para lhes explicar que quase tudo aquilo que viam no violoncelo (à excepção das cordas de metal e do pino da extremidade do braço) já tinha feito parte de coisas com vida: a parte superior fora retirada de um abeto, a parte posterior, de um carvalho silvestre (com os seus veios escuros semelhantes à pele de um tigre), o descanso para os dedos, de um ébano, o arco, de um pau de quire com pêlos de cauda de um cavalo, e as peças de marfim, de um dente de um mamute conservado na tundra congelada durante dezenas de milhares de anos. — Quando tocamos este instrumento — concluí — trazemos todas essas peças novamente à vida.
Entretanto, esgotei os factos que pouca gente sabe sobre os violoncelos, e disse aos rapazes que a primeira peça que iria tocar para eles, O Cisne, de Camille Saint-Saëns, me fazia sempre pensar na minha mãe. Comecei então a tocar. Com aquele tecto elevado, paredes nuas e chão duro, a capela fazia o som ressoar como que numa banheira gigantesca. O violoncelo soava divinamente naquela sala, o que me entusiasmou, até que a dada altura ouvi uma espécie de murmúrio entre o público, o que me trouxe de volta para a realidade. Os miúdos estavam aborrecidos, tal como eu previra.
O som aumentou de intensidade. Não era bem o som de inquietação, mas também não eram sussurros. Olhei então para o público e vi uma sala inteira de rapazes com as lágrimas a correrem-lhes dos olhos. Aquilo que eu ouvira não fora mais do que o som de fungar e assoar – que é música para os ouvidos de qualquer músico!
Toquei o resto da peça como nunca até então tocara na minha vida, e quando terminei, a ovação foi ensurdecedora. Era o sonho de um violoncelista medíocre a tornar-se realidade! Para a minha peça seguinte, escolhi uma sarabanda de uma das suites de Bach, pela qual os rapazes me recompensaram com mais aplausos. Nessa altura, alguém gritou: — Toca a das mães outra vez! — E a ideia foi imediatamente aclamada por todos. Compreendi então que fora a evocação da figura materna que os comovera daquela maneira.
Toquei novamente O Cisne, um pouco mais de Bach, e O Cisne uma terceira vez. Quando o homem da peruca assinalou o fim do tempo para a minha actuação, os jovens assobiaram-no. E depois deram-me uma ovação final!
Mark Salzman
Selecções do Reader’s Digest
Outubro 2004

sexta-feira, 22 de julho de 2016

O PRÍNCIPE QUE GUARDAVA OVELHAS.


     Trazia as duas ovelhas para o retalho de campo, ainda sem casas, liberto de muros. Nenhum cão o acompanhava. O seu amor e o seu cuidado bastavam a tão pequeno rebanho. Malhada e Ladina vinham na dianteira e o príncipe seguia-as rodando um arquinho, que uma gancheta de arame tocava, manso e fácil. Mal eram chegados, deitava-as a pastar, tirava a gancheta de arame ao arquinho e com ele armava uma coroa, que lhe cingia a testa e a palha, loira, dos cabelos. Depois sentava-se numa pedra, alta, seu trono. E reinava sobre urzes, cardos, giestas, borboletas, gafanhotos, lagartixas e seixinhos do campo verde. As ovelhas davam volta ao reino como a um redondel de circo, baliam, faziam tilintar os chocalhos, cabriolavam, tosavam erva e tojo. 
O príncipe vigiava-as cumprindo as recomendações de sua mãe, pois a mandado dela ali vinha. Mas a grande preocupação do seu coraçãozinho era quebrar-lhes o encanto. Qual seria a princesa? Malhada ou Ladina? Sim, porque uma delas princesa seria por força. Mas qual? Em vão se interrogava, escutava o ramalhar do vento, o canto dum pássaro, o silêncio das flores da urze, do tojo ou da giesta, o pulsar quente e húmido da terra, esperando qualquer socorro que o ajudasse a desvendar o segredo. Malhada era tão meiga! Vinha lambê-lo. Parecia querer falar. Dizer: – «Sou eu, sou eu». Mas seria? E Ladina tão arisca e desdenhosa? Era com certeza ela, castigada, a pobrezinha! E abraçava-a. Impossível decidir. Para consolar e esquecer aquela tortura construía, com pedras miúdas, estradas sinuosas, sem fim, que se perdiam nos tufos rumorejantes. Procurava joaninhas de vestido às pintas, que lhe passeavam as costas da mão e depois recolhia na palma, antes de, com o vento do seu sopro, lhes desfraldar as asas e as lançar no espaço, verde, do campo. Jogava ao berlinde com bichinhos de conta que se enrolavam, de propósito, para brincar com ele. E às vezes cortava uma palhinha de giesta para apanhar um grilo, que se deixava colher e, breve, voltava à liberdade das suas asas, pois todos eram livres no reino verde. Era tão bom ouvir o risinho do cri-cri guizalhar na tarde! Nada, porém, o fazia esquecer das ovelhas. Chamava-as: 
–– Malhada! Ladina! 
E tirava a coroazinha da cabeça para a experimentar nas suas amigas, que se impacientavam e lha atiravam ao chão. 
Recusavam-no? Temia o príncipe. Não e não. O que não podiam era dar-lhe indícios, revelar-lhe como havia de lhes quebrar o encanto, era o que era. Sozinho teria de o fazer. 
Mas como? Mas quando? O sol começava a rasar a copa das árvores da estrada. As lagartixas, fartas de soalheiro, sumiam-se. E um ventinho vindo do mar, desprendia as borboletas pousadas no tojo ou na giesta levando-as na dianteira, como pétalas soltas. Eram horas de partir, de abandonar o reino verde, bichos, flores e pedras. 
Então o principezinho, para que ninguém fizesse troça ao vê-lo atravessar a cidade com duas ovelhas, tirava a coroazinha da cabeça e enfiava-a na gancheta de arame. 
E seguindo o arco tocava Malhada e Ladina, antes que se acendessem as candeias, pequeninas, das estrelas.
(Luisa Dacosta, também do Porto, contou-me no ano de 2002 esta história que, segundo me disse, não passava de verdade).

quarta-feira, 20 de julho de 2016

CANÇÃO PARA DIRCEU.

      Nós morávamos num rés-do-chão com quintal, ali para os lados da Granja das Malvas, à beira da cidade nova. Morávamos, mas já não moramos. Deram em construir prédios de muitos andares, onde dantes só havia hortas e casinhas baixas, como a nossa, e vai daí a Granja das Malvas, cimentada e alcatroada, ficou irreconhecível. Parece que já nem assim se chama. A nossa velha casa foi abaixo. A mim custou-me, principalmente por causa do quintal, que tinha um tanque ao fundo, meia dúzia de árvores de fruto e uma latada ferrugenta. Não andaria muito estimado o nosso quintal, confesso, mas sinto-lhe a falta. Viemos estrear um desses apartamentos, que anunciam nos jornais. Para mudar de ares, nós, que sempre tínhamos vivido rente ao chão, escolhemos um sétimo andar com vista para o rio. É o que nos vale. A mesma opinião não terá o Dirceu. Descontando a Marília, coitada, que nem tempo teve para se habituar às alcatifas da casa nova, o Dirceu foi o que mais se ressentiu com a troca. Dirceu e Marília, o nosso casal de cágados, que o infortúnio separou, acompanharam com indiferença os preparativos da mudança, supondo talvez que todos podiam abandonar o rés-do-chão do quintal menos eles. Sempre se tinham arrastado por ali, sobre as velhas tábuas e o musgo dos canteiros, e nem sequer imaginavam que o mundo pudesse ser maior do que um quintal sombrio. Quando os meteram num caixote, juntamente com sapatos fora de uso, embrulhados em papéis velhos, devem ter ficado chocados com a desconsideração, o que se entende. Um par de cágados de nodosa casca, um nobre casal, sempre muito juntinhos ambos, obrigados a ter por companhia botas velhas e sapatões estalados era uma vergonha irreparável. Se as primas tartarugas, de casta e casca seculares soubessem da desfeita, não perdoariam. Por nós nunca o saberão. É que nos sentimos culpados.
Depois de muitos solavancos, foram desencaixotados numa das divisões por arrumar. Os dois cágados demoraram a pôr a cabeça de fora. Estranhavam os cheiros, o piso e a balbúrdia daquilo tudo. Para que lado ficaria o quintal? A Marília, mais afoita, pôs-se à procura. Chegou-se até à varanda, onde já tínhamos poisado uns vasos com hortênsias, sobrantes da outra casa. A paisagem pareceu-lhe familiar. Sendo assim, o quintal não estaria longe. Muito a custo, enfiou a carapaça pelo intervalo entre o chão da varanda e a grade do parapeito. As patas da frente nadaram no vazio, e o peso mais a pressa que trazia impeliram-na para a frente, sem remédio…
Foi para nós um grande desgosto. Haverá quem diga que os cágados são pouco sociáveis. Engana-se. O Dirceu e a Marília davam pelo nome. Estendiam o pescoço, como se quisessem alçar-se até à nossa altura, e, olhando-nos de esguelha, por pouco que não perguntavam: “Vocês, aí em cima, o que querem?” As mais das vezes, eles é que queriam. Comida, por exemplo, de preferência saboreada dentro de água, em intermináveis sessões de natação no tanque do quintal. Se não andavam na vida deles, talvez a jogar às escondidas pelo meio dos vasos, seguiam os nossos passos pela casa, cloc-cloc-cloc, como tamancos chineleiros. Desta feita, ficou o tamanco sem par. Não havia meio de fazer entender ao Dirceu o que sucedera. Pusemos umas tábuas de resguardo na varanda e procurámos ocupar-nos com as nossas tarefas. Ajeitar o recheio de uma casa antiga numa casa moderna dá muito trabalho. Para o Dirceu eram alterações a mais. Desaparecera-Ihe a companheira, tudo se transformara à sua volta. Andava estonteado, a escarafunchar por entre os papéis amarrotados, as roupas a monte, as pilhas de livros. Desta vez a Marília abusara do jogo das escondidas, julgaria o Dirceu. Assistíamos ao desespero dele sem saber como ajudá-lo. Cobríamo-lo de mimos. Banhos de banheira, carne da melhor… Mas tudo o que interrompesse as suas pesquisas era tempo perdido. O Dirceu enfastiava-se dentro de água e perdia o apetite. — Está a preparar-se para hibernar — calculámos. A nossa experiência dos outros anos ditava-nos este supor. De facto, quando as árvores do quintal se punham a tiritar, por culpa do vento que lhes arrancava as folhas, os dois cágados sumiam-se. Em que esconderijo se isolavam para resistir ao Inverno, de que forma conseguiam sobreviver sem sustento, meses a fio, era para nós um mistério. Ao primeiro despontar da Primavera nos ramos das árvores do quintal, apareciam-nos, fazendo de conta que tinham andado em viagem esse tempo todo. Ainda um pouco zonzos, mas esfomeados, devoravam tudo o que lhes trazíamos. Pudera! Pois neste último ano, já eu tinha andado à procura das botas para a chuva, aliás, sem as encontrar, já o meu pai tinha arrumado a ventoinha na caixa donde tirara o calorífero, já a minha mãe desdobrara os cobertores para arejar, e o Dirceu naquela azáfama sem nexo, de uma divisão para a outra, batendo com a carapaça nas esquinas do corredor, tão desnorteado e ansioso que metia aflição. 
— Ele hiberna e passa-lhe o desgosto — dizia o meu pai, não sei se muito convencido. Mas não havia maneira do nosso Dirceu hibernar. De olhitos espantados por trás das pregas da pele, parecia um velho dolorido, inconsolável. 
— Mais dia, menos dia, ele hiberna — dizíamos uns para os outros, para nos tranquilizarmos. Preparamos-lhe refúgios confortáveis, na despensa, num armário do corredor, debaixo do fogão da cozinha. Tudo inútil. O Dirceu não se cansava de correr ao retardador pela casa toda.
— Isto é uma maluquice minha, mas se uma canção de embalar o acalmasse, palavra que era capaz de cantar-lhe aquela que te punha muito mansinho ao meu colo, quando andavas com as birras dos primeiros dentes — dizia a minha mãe. Enterneci-me. E fiquei a magicar. Garanto-vos que passei uma noite de insônia às voltas com uma cantiga que, de propósito, distraísse, acalentasse o Dirceu. Tenho pouco jeito para versos, hão-de desculpar-me.
No dia seguinte, trouxe-o para a sala, estendi-me no chão e cantei-lhe baixinho esta lengalenga: 
Uma velha tartaruga 
muito velha 
toda às rugas
diz que a casa
onde ela mora
não se vende
nem se aluga.
Ela é velha
e é casmurra.
Tem uma casca
muito dura,
tem uma casa
muito escura,
mas é dela
onde ela mora
onde dorme
bem segura
ao comprido
e à largura.
Haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora,
que na casa
onde ela mora
a botija
que ela adora
é o calor
que ela evapora,
haja frio,
haja neve,
haja vento
lá por fora…
Fosse a fugir da cantilena ou fosse do que fosse, a verdade é que Dirceu se libertou das minhas mãos e, no seu andar cambaleante e pensativo, saiu da sala. Não voltámos a vê-lo neste Inverno. Ou melhor: vi-o eu, há dias, quando, finalmente, encontrei as minhas botas. Estavam esquecidas na arrecadação da marquise, dentro do caixote tombado, que derramara para o meio do chão sapatos fora de uso e papéis velhos. Ia arrumar aquela tralha, quando avistei, na zona obscura do caixote, a casca imóvel do Dirceu. Parecia uma pedra, mas uma pedra onde latejasse um minúsculo coração entorpecido. Entorpecido? Vai-se lá saber como funciona o coração de um cágado…
(Esta história foi a mim contada em 2004 por, Antônio Torrado, um tripeiro português da época do meu cunhado também nascido no Porto. (Quem nasce no Porto é chamado de tripeiro).

quinta-feira, 14 de julho de 2016

JOGO DA VIDA.

     Fred deve ter tossido quando a bola de Marcelo explodiu no seu peito e foi cair no pé do Neymar que marcou o mais bonito gol da rodada.  Deve ter doído, mas certamente doeu mais no coração dos japoneses com o arremate que culminou numa bela pintura.  Aí, duzentos milhões de brasileiros gritavam de alegria enquanto outros dois milhões de japoneses que aqui trabalham e criam seus filhos  lamentavam seu próprio fracasso.  Os comentaristas vibravam narrando os lances, mas como não se vestir com as cores da bandeira para alegrar aqueles que os ouvem se são pagos para isso?   Antes de ganhar de presente o celular de última geração que sua mãe lhe dera, minha filha também era assim.  Sabia o nome dos jogadores e suas posições no campo e não importava a seleção que pertencia.  Assim foi com o jogo, Itália e México.  Espanha e Uruguai e Nigéria e Taiti.  O Taiti,  que perdeu para a Nigéria por seis a um, nos levou às lágrimas quando marcou o seu gol, coisa que a minha filha e o resto do mundo achavam impossível, a não ser que um milagre acontecesse, mas de repente, eis que o milagre acontece.  Aos nove minutos do segundo tempo, Jonathan Tehau - um jovem que trabalha como entregador em seu pais - escorou de cabeça um cruzamento vindo da batida de um escanteio e marcou o gol do Taiti.  Do seu Taiti. Do seu país, quiçá da sua vida.  Este gol não abalou os nigerianos que venceram a partida, mas a vibração que causou nas arquibancadas e a comemoração entre os seus jogadores que simulavam remar um barco aludindo o esporte mais popular do seu país – a canoa polinésia – foram estes o motivo do choro da minha pequena e do meu.  Nesse mesmo momento o técnico taitiano, Eddy Etaeta, que não se continha, tamanha a sua felicidade,  corria, dava pulos esmurrando o ar como se aquele gol desse à sua pátria a vitória que a humildade e a gentileza do plantel tanto merecia.

terça-feira, 12 de julho de 2016

UM GESTO DE AMOR.

- 1 -
Um filho que tinha oito anos abraçou a mãe dizendo que ela era a melhor mãe do mundo inteiro. Ela  achou graça e sarcasticamente respondeu perguntando como ele sabia disso se não conhecia cada mãe que existe no mundo inteiro. O filho apertou mais ainda o abraço e respondeu; - sim, eu sei. Você é o meu mundo.
- 2 -
Quando abriu a loja de flores naquele dia o dono viu que um soldado do exército 
que ia para o aeroporto com destino ao Afeganistão, onde ficaria por um ano, o aguardava fazia tempo. Perguntado sobre o que queria o soldado respondeu que tinha por hábito levar flores para a esposa toda sexta-feira e para não deixá-la triste durante o tempo em que estivesse fora pretendia encomendar, para as próximas 52 sextas-feiras, um buquê para cada uma, até que ele voltasse. O dono da loja deu a ele um desconto de 50%, até porque ganhara o dia vendo algo assim tão doce.
- 3 -
Estava num banco de praça quando um casal de idosos parou o carro sob um carvalho as margens do rio a dez metros de si. Baixaram os vidros das janelas por onde se ouvia o jazz que tocava no rádio. Em seguida o homem saiu do carro, deu a volta para o lado do passageiro, abriu a porta para a mulher, pegou sua mão e com mesura de um cavalheiro ajudou-a a sair. De braço dado levou-a cerca de cinco metros longe do veículo aonde dançaram por aproximadamente meia hora na sombra da árvore.
(O jeito de contar é meu. As histórias, não).

sexta-feira, 8 de julho de 2016

UM LINDO CASO DE AMOR...

       No interior do estado o povo festejava o dia de ação de graças e não poderia ter existido um dia mais propício para o encontro daqueles dois.  Seu nervosismo era latente, por isso chegou tão cedo ao local combinado. Só não sabia que entre os que vagavam pelo labirinto das barraquinhas alguém há muito esperava por ela. Jamais tinham se visto, e só se conheciam através das redes sociais.  Não tardou até que se encontrassem.  Enquanto ele se punha de pé, estático, ela, perdendo totalmente a compostura, se atirou na cintura dele que a fez girar em torno dele. Depois lhe tascou um beijo na boca com tanta vontade que excitou até o padre que a tudo assistia.   Ela parecia estar possuída, fora do eixo, ao passo que o sujeito curtia a festa como se fosse a do seu aniversário.  Era ele um cara de sorte principalmente quando tocou no corpo e beijou a boca de quem habitava seus sonhos fazia tempo.   Um beijo roubado na frente de todos dava a ela a certeza de sua pegada. Depois se deram as mãos e saíram em busca de um canto onde pudessem conversar.   Durante a caminhada ela o examinava nos mínimos detalhes e em certos relevos se deixava ficar olhando.  Principalmente nos maiores, se é que me faço entender.
O cara pensou em discutir a diferença entre suas idades, mas achou melhor se calar. Os tempos já não eram os mesmos e a sociedade tinha mais com que se preocupar, pois o que importava na verdade era que tivessem um bom relacionamento – pensava ele quando se lembrava do assunto. Dali seguiram para a casa dela onde seus parentes os aguardavam. Ninguém reparou na idade dele, mas para que não cometessem nenhum desatino a garota fez questão de dizer que o encontro era amigável e que não esperassem nada de sério da parte deles.  Tanto sabia do que estava falando que em tempo nenhum foi interrompida ou contrariada naquilo que dizia. Depois vieram outros encontros  e por entenderem que um era a metade da laranja do outro resolveram juntar suas tralhas.  A cama era o ponto de encontro do casal.  Sempre que estavam em casa corriam para a cama em busca do prazer. 
Uma cirurgia, no decorrer do período, se fez necessária e durante a convalescença, fazer amor estava fora de cogitação, como a ele disse o médico, mas quem estava aí para o que ele dissesse?  Durante as noites a temperatura subia e no calor da irresponsabilidade, mesmo depauperado, o sujeito se entregava à habilidade da moça num sexo louco, quase bonito. 
      Hoje, gozando da melhor saúde e de todas as facilidades que a vida moderna oferece a frequência já não é tão grande. Amadureceram, cresceram em praticamente tudo.  Afinaram suas ideias, investiram no que pensam ser necessário e viajam aos lugares mais distantes e mais bonitos. Vivem hoje como num conto de fadas trocando abraços e beijos quando lhes é possível, mas, nada mais, além disso.  Eu acredito que já não fazem amor com a mesma pegada, embora o sentimento da parte dele continuasse num crescente avassalador, enquanto ela já não sente tanta graça no que ele faz. Em vários momentos o cara pensou  que o amor dela por ele tivesse acabado, ou que ela se arrependeu de tê-lo conquistado.  Choroso pelos cantos acredita que não viveria sem o atrevimento dos carinhos que por sinal escasseiam a cada dia, assim como há muito não se vê provocado por um olhar malicioso, um cruzar de pernas pretensioso que os levava à cama quase sempre. 
- Enfim, vamos deixar que o tempo os ilumine, porque só ele tem o poder da modificação.   Se tiver de mudar para melhorar, que mude, caso contrário, que mudem os dois ou se acovardem para sempre.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

EU EM VOCÊ...

    Depois de cortejada se deitou de costas ao jugo de quem a ela tudo prometia. Carinhos, palavras sussurradas e alguns beijos apressados de cujos lábios sentia lamberem seu pescoço, seu colo e ao pé dos seios rendeu-se a um longo gemido.  Eram beijos gulosos que comiam, que devoravam e sem resistir se viu sem forças, entregue ao mais puro e louco dos desejos. Beijos vorazes no dorso da mão, ao longo do pescoço, no colo, no bico intumescido dos seios e, por fim, um grito, não de pavor, medo ou de dor, mas de qualquer coisa que o corpo talvez até suportasse, mas tal qual sua alma, desabrochou todas as flores.  Ali se consumou o ato e antes que o suspiro final ele ouvisse, vestiu-se o homem e foi embora deixando estirado, morto, um corpo satisfeito no momento, mas em breve, muito breve dessa overdose ele quisesse mais. Seria sonhador se a maioria das histórias não tivesse desfecho parecido.  Enquanto um se vai depois da glória da conquista o outro fica moribundo de saudade. A boca que calou com os sonhos da mentira era a mesma com a qual sonhara desde os tempos de menina. Era linda de ser vista e doce de ser beijada. Quando dizia o seu nome era a coisa mais romântica que já tinha ouvido. Olhos, de cuja cor jamais se esqueceria, principalmente por terem nocauteado os belos verdes dos seus na primeira vez que se cruzaram. Enquanto isso ele sumia na esquina distante, talvez, buscando por outras, como eu, a quem se entregará com garbo e elegância até o momento de tê-la inerte, mas realizada, ao longo de uma cama de qualquer motel - delirava olhando no espelho do teto o reflexo do seu estado. 
Precisava ir embora, mas talvez ficasse um pouco mais, já que levaria consigo a certeza de que o sabor da mulher cortejada, da mulher enfeitiçada e possuída, estava agora, dentro da boca dele.