quinta-feira, 30 de junho de 2016

COISAS DA ERA MODERNA.

      Se sua mulher decidiu perder 30 quilos em seis meses você se preparar para o inferno que se tornará a sua vida. 
- No café da manhã  o queijo e a manteiga já não derreterão no pão quente que você comprava. O bacon e os ovos mexidos que recuperam as energias gastas numa noite de amor não constarão mais no seu cardápio. A linguicinha, os salgadinhos e a cervejinha dos finais de semana, assim como o bife à milanesa e os doces da sobremesa que você adora, já não constarão na sua comanda.  Entretanto,  as folhas e os legumes da boa salada o farão lembrar dos elefantes e das vacas que comem brotos e folhas e das baleias que de peixe se alimentam. Os sorvetes, sempre com novos e irresistíveis sabores, serão trocados por um delicioso chá preto gelado que o fará esquecer o cascão de três bolas com cobertas de chocolate que derretia na sua boca e muitas vezes o fez sentira o dono do mundo. Água, muita água durante o dia e chá verde meia hora após as refeições no lugar do refrigerante e da cerveja gelada. Gengibre ralado para dar sabor a água, acelerar o metabolismo e deixá-lo branco como o algodão, enquanto pensa no que pode ou não pode comer no jantar.
Refeições de duas em duas horas serão indispensáveis, assim como os sessenta minutos de atividade física para torná-lo exausto e desanimado para o sexo de todos os dias sim, mas o fará esperançoso de ficar fino como um barbante. Em compensação, dentro de seis meses ela estará mal humorada, sim, porém fininha como uma linha, enquanto você não passará de um cara estressado e rabugento pelo peso que não perde, mas ela, quem sabe, poderá se apiedar de você e o forçar à comer menos do que come e a se exercitar nos momentos que você tinha para descansar, e caso você não concorde com essa ideia, um pé na bunda certamente vai sujar as calças. Aí você cairá na realidade e para não perdê-la comprará aquela roupa ridícula dos fisiculturistas na própria academia onde pagará o que, talvez, você nem tenha. Fechará a boca às delícias da cozinha, aos chopes, escondido com os amigos, e viverá dependurado na balança como a banda do porco no frigorífico enquanto ela o perseguirá lembrando que as 24h de sofrimento e amargura pelas quais passou para chegar à perfeição, já é, pra ela, a maior felicidade. Talvez por ter conseguido o seu objetivo ela tenha repousado as armas com as quais lutou para emagrecer.  Esquecida como é, talvez não se dê conta de que basta um pequeno descuido para recuperar todos os quilos perdidos, enquanto você, riscando nos lábios o sorriso da vingança a envolverá nos braços gordos, porém fortes, aquela que o tirou do sério, o engordou pela ansiedade e até o fez envelhecer de certa forma, mas o terá, como tinha antes; gentil, companheiro e feliz.

domingo, 26 de junho de 2016

UM BELO DIA DE CÃO.


     
          Quando eu era menino gostava de passar as férias do colégio na casa do meu avô só pelas histórias que me contava na hora de dormir.  De todas a que eu mais gostei falava de uma menina que entrou num pet shop na  intenção de comprar um cachorrinho para ser seu amigo.  Assim que chegou se encantou com uma cadelinha que fez festa com a sua presença.  – Moço, quanto custa esse cachorrinho, perguntou ao dono da loja que se curvava para atendê-la.    Esta custa trezentos reais, também tem os filhotes, mas custam um pouquinho mais – disse-lhe ele.    Eu queria  muito poder comprá-la, mas só tenho dez reais...  O que o senhor pode fazer para eu realizar esse sonho?  Perguntou baixando os olhos.  Bem, respondeu o homem, além dela tem os filhotes, mas como eu lhe disse são mais caros e como são novos precisarão de mais cuidados.  Dois minutos levou para ele voltar com uma bola de pelo nas mãos e outras correndo atrás de si, mas um, no entanto, se arrastava até chegar junto do grupo.  – O que tem esse pretinho que não anda direito?,  perguntou a criança.  – Ele quebrou a bacia e pelo que disse o veterinário, jamais voltará a andar como os outros.  – Pois vou comprá-lo, respondeu enquanto se abaixava para pegá-lo  – Não, minha criança, este animal não está a venda, até porque ele não vale nada.  Não consegue anda direito, não brinca e muito menos tem condição de correr. Portanto, se você quiser, poderá levá-lo de graça, mas tem que me prometer que vai cuidar bem dele.  – Não senhor, respondeu a garota.  Eu não o quero de graça.  Eu faço questão de pagar uma vez que ele, aos meus olhos, é igual a qualquer outro, e não vai ser por causa de um problema insignificante que o pobre animalzinho perderá seu valor.  Enquanto falava a menina arregaçava a  calça deixando à mostra a perna mecânica que usava.  Olha moço.  Eu também não salto com facilidade, não ando como os outros, mas faço o que gosto dentro do possível. Ninguém, nem mesmo o médico que me socorreu, achava que eu pudesse andar de novo, mesmo assim jamais me considerou uma pessoa incapaz ou diferente.  Fique com esse dinheiro por favor e parcele, de forma que eu possa pagar dez reais por mês, o restante.       –Sempre que vovô terminava de contar uma história ele me envolvia naqueles braços de gigante e  com os olhos brilhando, talvez muito mais do que os meus, me levava para o quarto onde ele, nos meus sonhos, continuava contando histórias.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

AO MESTRE, COM O MESMO CARINHO.

    Quantas vezes ele parou na porta da sala onde Thomaz dava aula aos alunos do terceiro período de jornalismo? Quantas outras ele desejou pertencer ao grupo que aplaudia o mestre no encerramento de cada matéria? Quantas vezes mais ele quis fazer mestrado para ficar um pouco parecido com o professor Thomaz que tinha o respeito e o reconhecimento daqueles que seriam no futuro referência na arte da escrita? O tempo passou e os alunos se formaram, alguns se empregaram enquanto ele e o resto decidiram por continuar estudando.  Após se graduar a maioria resolveu concorrer à cargos públicos enquanto ele e os que sobraram retornavam à faculdade onde fizeram mestrado e, por incrível que pareça, ele, pela qualidade do trabalho elaborado era convidado a fazer parte daquela instituição.  No dia da posse a maioria dos professores cumprimentou os recém-chegados, porém Thomaz não estava ali. Como o tempo passa ligeiro, talvez Thomaz  também tivesse passado – pensou com  certa tristeza.  Dois meses mais tarde sua mãe veio a falecer.  O fato tirava do professor a vontade de trabalhar e talvez de viver, mas seus alunos nada tinham a ver com isso, portanto, lá foi o mestre cumprir com o seu dever na certeza de não falar com ninguém sobre o acontecido até porque o tempo urgia e a mensalidade que cada um pagava não era nada barata, e assim ele fez. Querendo ganhar tempo para se recompor, resolveu entrar pelo corredor onde ficavam os alunos do terceiro período, mas, há meses a sala estava vazia.  Dois minutos, talvez, nem tanto se deixou ficar lembrando o mestre.  -  Thomaz, quanto orgulho eu tenho em poder estar fazendo o que só você sabia e de forma tão humana e bonita  – pensou enquanto seguia para os seus alunos.  Em uma das aulas do dia seguinte ele viu um aluno parado por um bom tempo do outro lado da porta, quem sabe, se deleitando com a aula que assistia. Aquela imagem o deixou arrepiado, mas continuou com a palestra cada vez mais inspirado empolgando a classe, inclusive aquele, que do outro lado da porta se comportava como ele quando assistia, também do lado de fora, as aulas do professor Thomaz.  

sábado, 18 de junho de 2016

NO BALANÇO DAS HORAS.

    Eu não sei se você se lembra de como era a sua vida na juventude, mas com certeza há de se lembrar de como usava os cabelos, dos presentes preferidos e do belo corpo rígido e bonito  que às amigas causava inveja. Hoje, dez anos depois, tudo ou quase tudo mudou na sua vida, inclusive a cama.  Seus desejos, sua ousadia, desempenho de mulher fogosa e o gozo que conquistava, já não são os mesmos.
É claro que algumas coisas não mudaram como seu caráter e a fidelidade para com os outros e para com você mesma. Outras, no entanto, querendo você ou não, mudam a cada década vivida e o sexo, então, nem se fala. A propósito; como será você daqui a 30 ou 40, cinquenta anos, quem sabe? Como estará sua libido com relação ao marido ou aos seus companheiros?
Quando se tem 20 anos a animação é grande. As mulheres querem preliminares enormes e não se importam com a hora ou o lugar onde possam fazê-las, se durante a noite ou em pleno meio-dia,  se no capô de um carro, no escritório do namorado, no escurinho do cinema, numa rua ou  na praia deserta. Transam na escadaria do prédio onde moram e sem pudor nenhum contam às amigas do escritório ou do colégio cada detalhe do que fizeram. Com o tempo essas coisas vão mudando e o que se fazia durante um dia inteiro, por achar que o tempo voava hoje são feitas em duas horas e muito mais bem feito. O prazer de uma relação a dois é imensa e nem o arrastar das horas lhes parece que o tempo voa. Foi assim com uma amiga que tinha um namorado e jurava ser ele o cara de sua vida. Ficou três meses com o sujeito. Mais tarde ficou com o amigo dele que frequentava a mesma igreja. Ele não foi o primeiro com quem transei, mas tem tudo a ver comigo –  introspectiva me dizia. Na última vez em que nos vimos ela jurou ter encontrado a sua verdadeira cara metade. Eu e o meu namorado fazemos coisas que eu repudiava nas prostitutas, mas com ele é maravilhoso e eu me perco fazendo isso, mesmo que eu continue achando que não é coisa de mulher direita - afirmou baixando os olhos. 
O tempo muda as pessoas no decorrer da vida. Muitas mudam para melhor, outras se acovardam na mesmice, mas de certa forma também mudam, porque basta perder o medo do que possam falar ou possam dizer para o corpo responder positivamente a novos e múltiplos orgasmos que seu companheiro ou companheira de qualquer um ou qualquer uma lhe possa dar. Carinhos atrevidos, sussurros ao pé do ouvido, além da janela mal trancada que o vento abre à luz. Às cores da vida. Ao caminho dos lobos e ao grito choramingado da fêmea no cio, que no fundo, você é. 

terça-feira, 14 de junho de 2016

VINTE OU TRINTA POR CENTO?

 
    Cansada de ver o companheiro se humilhar por um aumento, Dandara, sua mulher, decidiu tomar as dores do marido.  Arrumada com a melhor roupa que tinha adentrou ao escritório na intenção de discutir o assunto com quem devia. - O senhor sabia que meu marido vive mais tempo dentro da sua empresa do que na casa onde moramos e nem por isso seu sacrifício é, pelo senhor, reconhecido?  Lá em casa só falta a gente passar fome, porque, nada se tem além do essencial para viver.  Dandara aceitou o café, mas não as justificativas que ouvia, por isso tinha certeza de ter perdido seu tempo com um sujeito tão pão-duro, como aquele.   No dia do pagamento a mulher quase implorou ao marido que voltasse a tocar no assunto com o patrão, pois sonhara que tudo tinha se resolvido a partir de então. 
E o marido cumpriu com o prometido. Durante o expediente subiu ao escritório na certeza de ouvir um talvez ou algo parecido.  Na saída passou pelo banco onde, todo feliz, constatou que seu salário fora reajustado em 20% naquele mês, mas decidiu mentir para a mulher dizendo que nada tinha conseguido.  -  Sim, meu amor, eu fiz o que pediu, mas como era de se esperar o avarento nem quis me receber em sua sala. Vendo a tristeza da mulher o marido a abraçou e aos risos disse que ela se vestisse bem bonita porque, naquela noite, os dois jantariam no melhor restaurante da cidade.  -Mentira, meu amor - disse ele abraçado a companheira.  O patrão me deu 20% de aumento e tudo graças à força que você vem me dando. 
 No outro dia, durante o expediente do companheiro, a esposa foi ao Motel e antes que o patrão do marido dissesse alguma coisa ela esbravejou: pô, Dr. Alexandre. A gente combinou 30 e não os 20% que o senhor deu a ele!
 Dr. Alexandre deitou, cuidadosamente  o pesado corpo  sobre aquele a quem deu o que certamente  vinha procurando.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

A FUXIQUEIRA.

       Marta caminhava de cabeça baixa quando um grito de mulher a roubou dos pensamentos. Uma garota de presumidos 19 anos empurrava um velho para dentro de um casebre a beira de um caminho onde nem uma viva alma se via por ali. Martha, curiosa como  a maioria das mulheres, escondeu-se atrás de um arvoredo na esperança de saber o por quê da garota gritar com quem, aparentemente, nem forças parecia ter para fugir. Mas a garota não parava de gritar:  - porra, cara! Tu é homem ou não é? – Essas foram as últimas palavras que Martha ouviu até que um silêncio sepulcral tomasse conta do lugar. Nem o zumbido das asas de um mosquito se ouvia mais. 
O dia afinava os últimos acordes quando Martha decidiu olhar pela janela.  Do lugar em que se encontrava, Martha ouvia alguns gemidos.  Na ponta dos pés a enxerida viu o velho transando com a garota, a mesma que antes o humilhara.  A jovem parecia ter um adestrador de xucro sobre ela. Agora era o velho quem dava as ordens.  – Então, não era isso o que tu querias? Então tome! – Dizia sem demonstrar qualquer cansaço enquanto a pequena se mexia, gemia, xingava e ria ao mesmo tempo. Já Martha, que tinha esquecido do tempo e da vida, estava bastante excitada com o que acabara de presenciar.  Agora era ela quem tinha o corpo ardendo de desejos, não pelo velho, mas pelo que vira ao vivo e a cores. 
– Meu Deus - pensava ela, como pude invadir a privacidade dessa gente, mesmo que as minhas  intenções fossem as melhores? – Antes que Martha se desse conta um mulato alto e forte apareceu não se sabe de onde e falou junto ao ouvido dela.  – O que você está vendo é o que vem acontecendo  ultimamente.  Na mesma hora a garota que transava com o coroa pediu ao mulato, a quem chamou pelo nome, que levasse a namorada, como se Martha fosse alguma coisa dele,  para que pudessem conhecê-la. Martha sem saber como explicar sua presença ali, decidiu entrar na casa e dependendo do que rolasse talvez tirasse algum proveito. Sua calcinha era a última peça que ela tinha para ser tirada quando viu a exuberância do mulato. Era uma coisa que a garota só vira em sonhos e principalmente nos pesadelos. Martha mal comia, mal dormia, pensando num sujeito igual a esse. E foi sem pensar no que pudesse acontecer que se atirou de joelhos aos seus pés suplicando que exorcizasse  os pecados do seu corpo. Sem se preocupar com o que o idoso e a companheira pensassem a seu respeito, ordenou, com olhos de santa e de louca, que o cara jazesse de costas e sobre sua virilha  assentou a pureza que trazia.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

É SÓ UM BEIJO, GENTE.

                                  
     se uma mulher lhe beijar a boca não quer dizer que você vai parar de comer, parar de beber ou até perder a vida por causa de uma bobagem como esta, até porque, beijo é carinho e não uma ofensaQuando se é criança ou se tem a idade da adolescência, é possível correr esse tipo de risco, principalmente se os amiguinhos tiverem a mente aberta e o medo não fizer fronteira. Já os meninos, sempre dão uns pegas nas garotas, mas tem vez que permitem que outros meninos também os peguem, ou, pelo menos, tentem pegá-los.  O cigarro a eles também é permitido conhecer, assim como a bebida se algum amigo se atrever a tomar um brinque. Já o beijo entre jovens do mesmo sexo, há muito já não é visto como coisa do outro mundo. Certas estudantes, principalmente as do ensino fundamental, se beijam na maior tranquilidade como se com isso pudessem relaxar, ao passo que você, nervosa como está, me traz o fato como como uma doença. Nenhuma delas, pelo menos que eu tenha conhecimento, é ou tenha se tornado gay, se você quer saber. Ninguém se torna gay porque foi beijado, porque acha bonito ou porque o ambiente o induzia.  Quem é gay não precisou de ajuda, pois já nasceu assim.  Ninguém, nasce uma coisa e de uma hora para outra se torna outra.  A mulher, por exemplo,  teria muito mais oportunidade de se descobrir na adolescência do que o homem. Já que os encontros entre elas não chamam tanto a atenção como aconteceria com os dos meninos que nem andar de mãos dadas, como elas fazem, eles são capazes. Poucos são os garotos que se abraçam, que se tocam, mas se beijar, são poucos dos quais eu ouvi falar, ao passo que as meninas se atrevem muito mais e para que saibamos quem é quem há de se esperar pois a resposta só o tempo tem. 
Enquanto esse mesmo tempo não passa eu vergo o arco e disparo as perguntas como se fossem flechas de ponta adoçada com mel;  quem é que gostaria de trocar o respeito  conquistado  pelo escárnio de alguns e a intolerância de outros? 
Quem teria coragem de se deixar afrontar por uma sociedade homofóbica que não aceita que outras cores, além da branca e da preta, pintem a beleza da vida?  Ninguém se torna ou deixa de ser gay porque quer. Só a genética decide.
Quanto ao seu caso eu não vejo nada de estranho ou anormal você achar que perderá o rumo se tal fato acontecer entre você e uma amiga, até porque eu mesmo não saberia como reagiriam os meus hormônios  se fosse osculado  por um homem.
Uma coisa, no entanto, eu posso garantir. Ninguém se arriscaria beijar um animal selvagem como eu sei que me tornaria em troca de uma descoberta que nunca me interessou.
                                                   (Foto da Internet)

quinta-feira, 2 de junho de 2016

BALA PERDIDA.

                                     
            Marcelo ficava noite e mais noite se preparando para o concurso da polícia. Acordava cedo para o trabalho e sempre que tinha um momento de folga, estudava as apostilas que carregava consigo. Muitos foram os fins de semana que passou intocado nas salas de cursos preparatórios.  Quanto às disciplinas básicas, as específicas, as leis do código civil e tudo sobre a constituição, Marcelo trazia na ponta da língua. Na primeira vez que prestou concurso o rapaz festejou os 9,5 pontos conquistados, porém não suficientes para selecioná-lo, já que vários gabaritaram a mesma prova. Na última o rapaz fez parte da nata dos concursados, mas não teve êxito no psicotécnico. Marcelo não se deu por vencido. Leu tudo sobre a matéria, fez análise com os melhores profissionais para entender o que o impedia de ingressar na carreira.  Nesse meio tempo o rapaz perdeu o emprego por contenção de despesa. Dois anos sem trabalho e com as dívidas aumentando, Marcelo, resolveu se virar. Arranjou 20 reais emprestado com os quais comprou um quilo e duzentos de bala caramelada na intenção de vendê-las a cinco reais a embalagem com dez, e Marcelo embalou 223 desses saquinhos e os ajeitou na mochila. Uma semana o Rapaz, já não tão jovem, pelejou pelos colégios, porta de hospital e ponto de ônibus.  E foi em um desses lugares que Marcelo abordou uma senhora que lia a resenha de um matutino. – Desculpe senhora, mas, que tal adoçar a boca que, pelo que vejo,  a senhora azeda com o acre das notícias? – Meu senhor, respondeu a mulher tirando os óculos acavalados no nariz,  se eu comprar suas balinhas estarei colaborando com seu sucesso o que o impediria de deixar as ruas em busca de um emprego decente. Inclusive outros tentariam fazer o mesmo acarretando prejuízo aos lojistas. Portanto, meu senhor, em nome da minha família e do meu país a resposta é não, respondeu repondo os óculos.   A senhora está certa, mas também está errada, retrucou o vendedor. Se a senhora comprar minhas balas outras pessoas também as comprarão e isso vai, como a senhora bem disse, tirar de mim a vontade de procurar por um novo emprego, mas em compensação as fábricas de bala terão de contratar novos funcionários para atender a demanda ou, no mínimo, manter empregado os que, temerosos com o desemprego, pegarão mais cedo e largarão mais tarde nos seus serviços, produzindo, com isso, mais receita e divisas para o país.  A propósito, a senhora vai mesmo ficar com  os dez saquinhos  que está segurando ou pretende algum troco para essa nota que está me dando? 
- Marcelo jamais se esqueceu do emprego onde trabalhou por tantos anos e do desejo que tinha de ingressar na polícia que o rejeitava.  Foi graças a esses esbarrões que a vida nos dá que ele, hoje, é o dono da maior e mais bonita loja de doce de sua cidade.