domingo, 29 de maio de 2016

SEMPRE ELA.

   
   Ontem, na estação do metrô da Carioca eu vi um jovem guitarrista que tocava para três ou quatro pessoas com o mesmo entusiasmo de quem toca para cinco mil, e pelo que fiquei sabendo já estava ali fazia horas sem que lhe dessem nada além de seis moedas. Eu tinha pressa de ir embora, mas o músico e as suas melodias não me permitiam. Então fiquei e me encantei com o seu rock, seu jazz e os outros ritmos que de tão bem executados  me reportavam aos melhores momentos de Jimmy Hendrix.  Mesmo assim ninguém dos que passavam se prestou parar para escutá-lo.  Quando chegou a vez dos boleros uma idosa,  junto a uma banca de jornal, passou a acompanhá-los batendo com o pé no chão, até que uma valsa a levou à dançar. Vendo os primeiros passos da mulher o rapaz aumentou o tom e quanto mais ele tocava, mais a mulher dançava. De olhos fechados rodopiava pela praça que já não cabia com tanta gente parando para vê-la.  Quando a guitarra calou foi que a senhora se deu conta do que fazia. Pegou a bolsa que deixara no chão e vazou por entre os que a aplaudiam pelo show que dera.  O músico fez reverência dizendo que os aplausos não eram para ele, mas para a mulher a quem, mesmo ela já indo longe, agradeceu. Perguntado se ele conhecia a dançarina o rapaz respondeu: – é minha mãe. Mesmo a gente tendo brigado ela não deixa de dar força quando mais preciso.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

SÓ PARA MULHERES

             
         Da relação de um proeminente advogado com uma professora universitária nascia, há oito anos, um menino que mais tarde cobriria os pais do mais profundo orgulho.  Por sua bondade e respeito para com os mais velhos o menino se tornou querido e admirado por todos, principalmente pelos que viviam e trabalhavam em sua casa onde a comida era motivo de orgulho dos seus pais. Nunca, em tempo nenhum, tais elogios chegaram aos ouvidos de quem os merecia; a cozinheira.  Desta vez, no entanto, o menino tomou coragem e desceu à cozinha para deixar a "dona das panelas" com o queixo no chão.  A ela o menino confidenciou o desejo de aprender a fazer os quitutes que só ela sabia fazer. Emocionada com os elogios de tão ilustre criatura a cozinheira, uma negra de meia idade, alta e magricela, prometeu contar-lhe todos os segredos de uma boa cozinha.  Não precisou muito tempo para a criança aprender a preparar, com o amparo de sua amiga, um big filé de costela com batata raspada que a turma comeu de doer a barriga achando ser obra dela. Outros pratos como uma plancha de grelhados do mar com aspargos frescos, cogumelos e batatinhas na manteiga de limão com alho crocante também já fizeram parte do cardápio. A cavaquinha por ele grelhada com molho de escargot que a sorridente cozinheira serviu aos nobres convidados também foi de lamber os beiços. Ninguém, além de sua fiel protetora, sabia do autor de tal façanha.  Tudo isso sem falar nos pratos simples do dia a dia que já não precisava de ajuda para fazê-los.
 Aos 10 anos o menino viu sua comida ser servida, comida e elogiada. Momento próprio para revelar ao mundo o seu segredo. Ao notar que já tinham raspado o prato o menino se levantou, pigarreou, para chamar a atenção dos que ali estavam, e perguntou que nota davam ao que lhes fora servido. Diante da nota máxima o menino, agora no ponta dos pés e sem nenhuma modéstia retrucou – gente, fui eu quem preparou essa comida.  É claro que sem a ajuda dessa mulher eu mal saberia como  ferver a água - falou olhando para a cozinheira que por detrás do avental cumprido que ia até o meio das canelas, tentava se esconder.  A mesa ficou calada por alguns instantes, motivo suficiente para o menino, sem graça, correr para o quarto onde o pai o alcançou para cingir-lhe nas pernas com sua cinta que usava enquanto gritava a todo pulmão que não criava filho para viver enfurnado numa cozinha como  mulherzinha que parecia que era. - Você é homem, não é, ou eu estou enganado? Soluçando a pobre criança se desculpou com seu pai a quem jurou não voltar mais a bulir nas panelas daquela casa.   E assim ele fez.  Uma semana se passou sem que o menino pudesse ir à cozinha ou soubesse notícias da amiga uma vez que a comida passou a ser servida antes dele chegar.  Ao terminar uma de suas refeições o rapazinho decidiu voltar à cozinha, contrariando as ordens recebida, mas, infelizmente, não encontrou quem procurava.   – Cadê a cozinheira?, e a senhora, o que faz aqui?, perguntou à gorda que secava as mãos num avental que mal cobria a barriga. – Ela foi mandada embora, por isso seus pais me contrataram.
Com o tempo o rapazinho saiu de casa. Alugou no ponto mais chique da cidade um espaço onde ele e sua sócia, uma negra alta e magricela, inauguraram o melhor e o mais concorrido restaurante de que se teve notícia.  

domingo, 22 de maio de 2016

À FLOR DA PELE.

                                                     
            No momento em que os olhos de Richard detectaram a beleza de Amy  o jovem se deu conta de que o seu coração lhe pregaria uma grande peça.  Ele tinha 25 anos e ela não mais que 16.  Enquanto o rapaz evitava namoros levianos,  ela, espevitada, namorava o que aparecia.  A primeira oportunidade para Richard declarar a ela o que sentia foi no elevador do prédio onde moravam.  Richard falou sobre o que sua presença causava nele e antes que a moça pudesse se recompor da surpresa o rapaz a pediu em namoro.  Achando que o cara queria brincar com a sua cara, Amy,  mudou de assunto, depois de calçada e por fim já não queria ouvir sua voz. Para justificar sua atitude, Amy, dizia que assumindo tal compromisso perderia a liberdade de sair com os amigos. Amy não era adepta da bebida, mas gostava das festas onde nada fosse proibido. Para ela Richard era muito careta. Só pensava em estudar e trabalhar ao invés de aproveitar o dinheiro do pai para se divertir. Ela, no entanto, ficava mais na casa dos amigos em busca de diversão do que na sua propriamente dito.  Enquanto o rapaz saía para o trabalho e a faculdade a garota se divertia com rapazes assim como através da internet fazia novas amizades.  Muitas vezes Richard  chegava  da faculdade na hora em que Amy saía para as noitadas das quais só voltava no dia seguinte, sempre   acompanhada por  um parente ou um amigo, como dizia, mesmo que os cabelos molhados dissessem que tinha ido ao motel. Essa certeza machucava Richard e quanto mais a moça aprontava, mais o jovem  se apaixonava. Amy nasceu na Sardenha e já viajara para mais de vinte países.  Era filha de brasileira e de um cônsul italiano. Amigas a moça teve poucas, mas namorados já tinha perdido a conta. Já teve momento em que Amy foi vista saindo com vários rapazes na mesma noite o que transformava seu porte de menina num histórico de mulher vivida. Certa vez Richard a interpelou na garagem do condomínio. Falou do seu amor e sem que ele se desse conta uma lágrima escorreu-lhe na face comovendo a moça que não tendo como fugir daquela situação acabou por confessar. Disse que não gostava das coisas erradas que fazia, mas não sabendo como refrear seus desejos acabava se entregando ao primeiro que lhe aparecia.  Tinha momento que o corpo dava sinal de fadiga, mas uma força estranha a conduzia  aos caprichos da carne. Tudo o que a cercava tinha cheiro de sexo e até nos sonhos seu nome era pecado.  Tinha vez que a relação com vários homens a maltratava de tal forma que ao voltar à casa se sentia extenuada, machucada, mas nunca saciada.  Não existia nada que Richard pudesse fazer para impedi-la de se jogar nos braços dos amantes cujo número era cada vez maior. Antes de beijar a face de Richard para ir embora, Amy se deixou chorando entre seus braços. Com a face molhada de lágrimas jurou que o amava, mas precisa ficar longe  para não desonrá-lo.
    Aquela afirmação encheu  Richard de esperança e na primeira oportunidade se atirou de joelhos e a pediu em casamento. Disse a ela que não sairia do seu lado e isso a ajudaria a esquecer os outros homens. A moça aceitou, mas nada mudou entre eles, já que saíam juntos todas as manhãs. Ele para o trabalho e ela para o pecado. Essa atitude matava as esperanças do casal. Richard sabia que na sua ausência rapazes frequentavam a sua casa, mas nada podia ele fazer a não ser rezar ou perdê-la. Uma luz, no entanto, iluminou seus pensamentos. Um psicólogo! Isso. Um tratamento talvez fosse o melhor remédio por isso se dignaram consultar Armando, professor de psicologia da USP, com pós graduação, mestrado e doutorado na matéria. Nas primeiras consultas Armando se viu perturbado com a beleza da paciente embora respeitasse a ética. Durante os primeiros meses era difícil não olhar para o seu decote e as cruzadas de pernas que a moça dava, mas com o passar do tempo tudo foi se resolvendo. Num certo dia o consultório foi preparado com música ambiente enquanto flores silvestres se espalhavam por cada canto. Na chegada à terapia, Amy  percebeu que o ambiente estava fora dos costumes, principalmente na hora da despedida quando Armando lhe entregou uma rosa amarela e um convite para jantar que Amy, meio sem jeito, recusou. O profissional deu-lhe um beijo na face e através de um telefonema fez o marido ciente da mudança de comportamento de sua mulher durante esses últimos anos o que lhe dava a certeza de tê-la curado ou, no mínimo, amenizara em muito o seu desejo pelo pecado. Feliz com o sucesso do tratamento Richard preparou uma grande festa deixando a cargo da esposa o cansativo trabalho de convidar os amigos.

quarta-feira, 18 de maio de 2016

AO MESTRE COM CARINHO.

     Bom dia, professora. Eu sou Marcela, mãe de um dos seus alunos. A gente não se conhece porque meu filho estuda num horário incompatível com o do meu trabalho. Foi minha mãe quem o matriculou sobrando à empregada o trabalho de levá-lo e de trazê-lo do colégio. Meu filho é aquele loirinho que está mexendo nas tranças da menina sentada a sua frente.   Mas como eu ia dizendo, não é de hoje que procuro um tempo para agradecê-la por cuidar dessa criança como se fosse mãe, não só dele, mas de cada um dos que aqui estão. É um privilégio ter um filho sob a responsabilidade de alguém tão bonita e dona de um belo par de seios que até dá água na boca que quem os vê. (Risos) Até na minha se você quer saber. (Mais risos).  Desculpa, professora. Estou brincando.  Até porque, se eu sentisse alguma coisa fora do normal por uma mulher como a senhora eu ficaria na minha, não ia me declarar dessa maneira, não é mesmo?  De qualquer forma você é muito bonita e chega a causar na gente uma coisa que nem eu saberia dizer o quê. Mas deixa isso prá lá. Eu só vim mesmo para conhecê-la e dizer que assim que eu soube que meu filho seria aluno da coisinha mais linda dessa escola foi que embarquei nesse desejo incontrolável de conhecê-la. Eu precisava vê-la, tocá-la e falar com a senhora.  Muitas foram as vezes que eu parei meu carro na frente do seu colégio na intenção de vê-la, mesmo que distanteDe toda maneira eu gostaria de agradecê-la pelo carinho com que trata meu filho. Talvez, quem sabe, a senhora não arranje um tempo para um café, um chá ou um refresco em minha casa onde a gente pudesse falar sem que nos interrompessem.  Quando achar conveniente me telefone e a gente marca uma hora para conversar. Certamente eu falarei das minhas venturas e desventura e você me contará o que achar que pode, mas com certeza deverá me dizer o porquê desses lindos olhinhos verdes brilharem quando chegam ao trabalho. Professora, eu, como falei, fui  casada durante cinco dos meus 32 anos. Fui feliz até que o meu marido, primeiro e único amor veio a falecer.  Foi um baque, um vácuo em minha vida. Agora, conhecendo a senhora como venho tentando desde fevereiro, sinto que a minha nave estabiliza o voo.  Ser mãe de um dos seus alunos  já é um grande presente, mais ser sua amiga seria um sonho, mesmo que utópico.  A partir de hoje meus sonhos voltam à nave onde voarão tranquilo e confortavelmente como com o meu marido. Você, que eu trato por senhora, mesmo tendo idade de menina, não deve recusar o meu convite. É preciso dividir com alguém as nossas alegrias e as nossas mazelas por maiores ou menores que possam ser. Quanto ao que venha acontecer daqui para frente, não importa se o respeito e a verdade ditarem as regras.  O amor nos prega peças e é do amor e das peças que ele prega que a gente vive a vida que o mundo inveja. E então, professora. A senhora aceita jantar comigo hoje a noite?
- Sabe o que é, Dona Marcela. Eu tinha mesmo que falar com a senhora sobre seu filho, mas já que me fez esse convite não vejo motivo para não aceitá-lo. A que horas a senhora pretende me receber em sua casa? 

sexta-feira, 13 de maio de 2016

AGNES DE MIM

      Quando a ovelha se perde do rebanho um pastor sai  para resgatá-la. Dificilmente outras seguem o seu caminho a não ser que o rebanho venha a estourar.  Normalmente uma voz de comando as mantém juntas às vistas do líder.  Ficam agrupadas a espera daquele que as conquista a cada dia e que venha a guiá-las. Das arredias  o pastor reconhece os detalhes, como o tamanho das unhas,  falha no pelo e o tipo de lã que produz. E foi pensando no manejo com esses animais  que eu me lembrei de um acontecimento, não muito recente, mas que perdura nas minhas lembranças. Trata-se de um amigo querido muitas vezes mencionado nesta página e por quem chorei por sua dor.     Esse jovem amigo era usuário de drogas e como essa desgraça não tem cura eu afirmo que ele continua dependente.  Sua luta é grande para manter-se distante do perigo e tem conseguido,  talvez por ter aceitado a ideia de se deixar internar numa clínica especializada onde se desintoxicou. Essa gratidão ele deve aos verdadeiros amigos e alguns familiares que concorreram para tal.  Antes, quando eu buscava por suas notícias a família e os que o conheciam falavam horrores a seu respeito. Os sogros brigavam com a filha que não o deixava  se entregar à própria sorte. Seus amigos o desprezavam enquanto os demais discriminavam-no e a ele acrescentavam alcunha de drogado, fraco, vagabundo, que no fundo a gente sabe que não é. Em tempo algum eu deixei de acreditar na sua recuperação. Em nenhum momento eu deixei de pedir a todos que reconhecessem naquele amigo a doença que flagela, degrada e mata ou pelo menos o enxergassem com os olhos do pastor quando vê uma ovelha desgarrar do bando. Pedi aos seus sogros, a sua mãe e a seus outros amigos, inclusive a sua esposa e filho que tivessem dó de sua dor. Pedi que o ajudassem de alguma forma, pois fazer o que se pode não seria suficiente.  Divino é fazer o que ninguém acredita que é  possível. O tempo passou sem que eu me desse conta e se não fosse o alarme de um carro disparando e eu ainda estaria pensando nas ovelhas e no meu amigo, antes, desgarrados.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Y NO CREO EM BRUJAS, EMPERO QUE LAS HAY, LAS HAY.

                                                       
     No leito de morte vovó exigiu que o marido não sofresse com a sua passagem. Que ele não deixasse de ir ao cinema e ao futebol de que tanto gostava ou jamais teria paz se fosse contrariada. Também obrigou o velho a jurar que arranjaria uma pessoa com quem dividisse o resto de sua vida e caso a escolhida fosse como a "falecida" ele deveria se casar com ela.  Com tudo vovô concordou, só não quis discutir a possibilidade de um novo casamento. Dois anos o velho vestiu luto pela única mulher com  quem vivera tantos anos até que um dia resolveu ir à casa do filho onde ficou até tarde da noite.  Não era desejo de ninguém ver o velho voltando sozinho àquela hora, até porque a PM costumava fazer blitz por ali e isso talvez o assustasse. Parecia que a gente estava adivinhando. Dez minutos depois uma delas fez vovô encostar o carro.  – Seus documentos, por favor.  – Disse a tenente enfiando a cabeça dentro do carro que examinou com sua lanterna.  Como a Sra. Pode ver eu não estou fazendo nada errado – disse vovô olhando a mulher grandona que a esta altura revirava o porta-luvas pelo lado do carona. – Saia do carro e abra a mala, por gentileza – disse a tenente sem olhar para quem babava com as ordens que recebia. Alguns minutos, não mais do que isso,  trocaram palavras. Uma ditando ordens enquanto o outro se enrolava todo para cumpri-las. – Tá tudo certo, senhor. Pegue seus documentos e boa-viagem – disse a tenente virando-lhe as costa no momento em que outro carro por ela era parado.  Talvez poucos notaram que o meu avô não tinha ido embora. Ficou ali por um bom tempo olhando aquela mulher de ar sério, voz rouca e de ordens na ponta da língua.  Ela lembrava alguém de quem o velho já não se lembrava. No outro dia, pela manhã, vovô foi ao batalhão onde certamente encontraria os policiais que tinham feito blitz na noite passada.  Queria falar com a tenente que aquela hora já estaria deixado o serviço.
       – Senhor, eu já disse e vou repetir novamente - gritou o comandante encostando o nariz no dele - aqui não tem mulher com essa patente e muito menos mulher que faz blitz de noite - e concluiu -  volte para para casa e esqueça o que me disse, porque ontem, batalhão nenhum fez blitz nessa cidade.  

domingo, 8 de maio de 2016

TEREZINHA, MÃE DE TODOS.

No dia dos pais eu abracei Terezinha, minha mãe  com quem chorei a sua solidão.
Por mais que nós, seus filhos,  dela nos aproximamos, mais vazia ficava a sua vida. Todo mundo sabe que amor de filhos é coisa especial, mas  que não substitui o amor que existe entre o marido e a mulher, já que nasce, cresce e fortifica com o passar do tempo, com palavras carinhosas e o interesse dele por ela.  Assim foi a vida da mulher que me pariu. Talvez o dia de hoje fosse de festa se nada tivesse acontecido, mesmo que algumas dores, naturais da sua idade, lhe dobrassem as pernas e a esculpisse em nossas lembranças.  Entretanto ninguém preenche a falta dos beijos e do pecado senão o marido que a santifica.   Quanto mais passava o tempo, maior era a indiferença provocava.
Meu pai  causou naquela criatura u'a mudança ilógica, porém radical. Deu a Terezinha a esperança de um futuro feliz e colorido. Jamais a ela garantiu uma casa simplesmente, mas um lar com respeito e filhos e ele os deu a ela.  Hoje é o dia da mãe -  e do pai - como afirmei na abertura deste texto, e Terezinha, no entanto, acordou, se acordou, sozinha, como vem acontecendo há meses. Abriu a janela dos nossos olhos e ao sol fez reverência. Colocou água de café no fogo, como sempre fez, e foi ao banheiro se lavar. Recebeu os filhos, ou nós a recebemos, como aos parentes e alguns amigos fizeram, não para chorar o vazio que abriu em nosso peito, mas para certificar aqueles que a amam que a vida continua com ou sem a sua presença por mais dias das mães e dos pais que o calendário possa nos oferecer. 
 - Bendita sejas tu, Terezinha, mãe de Maria e de todos aqueles que de ti nasceram, como eu.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE...

      

      Pela janela, por onde vaza o frio que me faz agasalhar melhor o corpo, eu vejo o  tempo arrastando uma criança.  Esta pequena criatura não é outra senão o meu passado, ora envelhecido. Com eles também vejo outras pessoas que me lembram dos amigos pelos quais há muito  não tenho dormido uma noite toda. São pessoas amorosas, justas e apaixonantes que talvez já tenham se esquecido de mim.  Sempre que essas lembranças me vêm à cabeça eu chego à janela a espera de um deles tocar a campainha.  Mas qual. Jamais alguém tocou se não fosse por outros motivos.  Hoje, entretanto, depois que o tempo tentou levar, além da criança, a esperança, senti que um toque, não como um dedo no botão da campainha, mas u'a mão repousando no meu ombro, o que me fez voltar os olhos e chorar como menino.  No passado, eram esses caras a única coisa que eu tinha de valioso e agora, pelo que me parece, vinham me dar esporro pelo erro da partida.  – Não, cara – disse-me um deles – a gente não veio brigar com você porque motivos você nunca nos deu, mas para saber o por quê de ter sumido de nossa companhia.  A gente jamais aceitou a desculpa de ter dado um tempo para respirar novos ares e por mais que a gente o procurasse, encontrá-lo nos custou todos esses anos.   Não fosse a bendita Internet e estaríamos comemorando o seu aniversário a quilômetros desse lugar, como temos feito. Afinal, o que deu em você para sumir daqueles com quem você chorou algumas vezes dizendo que jamais nos deixaria? Você já respirou o ar que disse que precisava ou a nossa presença ainda o incomoda? Pelo menos posso ver que o ar da serra melhorou a sua pele, a cor do seu rosto ficou mais viva e até mais forte eu noto que você ficou.  Quando entrei eu achei que você não nos queria por aqui e se não fosse eu tê-lo tocado no ombro você nem nos olharia.  – Não amigos.  Eu não seria tão insensível a esse ponto, até porque, a porta da minha casa, como vocês podem ver, jamais deixei que se fechasse. Era como se eu soubesse que um dia vocês me encontrariam para que eu pudesse me desculpar.  Todos os dias eu olho através da janela para ver se o barco de velas brancas, que a gente comprou com tanto sacrifício, ancorava com vocês abordo, no deque, ali, de onde os barcos cheios de saudade que tenho de vocês, partem a cada instante.  
     Agora vocês me dão licença porque eu preciso fechar a casa ou vou me constipar, aliás, desde o dia em que o médico, a quem Deus confiou a minha vida, descobriu essa doença que veio na intenção de me matar, só agora, desde quando morava com vocês por perto, o santo homem me deu alta. E, se não for pedir de mais, amanhã eu desço o rio com vocês, e juntos, como há cinco anos não fazemos,  brindarei o meu aniversário com vocês.  Desta vez, com bolo, risos e guaraná.