quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

SERPENTINA COLORIDA.

    Minhas lembranças estão cheias de confete. Na minha cabeça ecoa o bumbo da minha escola enquanto o meu coração cadencia o som da bateria no recuo. Essas coisas me levam a pensar que seria melhor, ao invés de nos darem a quarta-feira de cinzas para descansar, que nos oferecessem o resto da semana porque ninguém se refaz de uma festa daquela magnitude em vinte e poucas horas.  A Bahia saiu na frente acrescentando mais tempo ao carnaval enquanto a gente tenta afogar as mágoas, beijar as bocas que se pretende e paquerar as desinibidas num curto espaço de três dias. Lá, na Bahia, os conterrâneos conseguiram esse milagre, mas querem mais, enquanto em outros estados o povo se ajeita da maneira que pode, num Domingo e numa segunda-feira, e ainda aceita que chamem a terça-feira de gorda, no desmilinguir da festa.
É claro que o país precisa de mão de obra diversificada e de quem a execute com certa maestria ou jamais sairemos desse lamaçal em que nos meteram.  Quanto ao carnaval durar uma semana ou quinze dias não deve ser tão doloroso assim e quem sabe não custe tanto aqueles que vem brincando com o país desde a sua descoberta.  Certos europeus nos escravizaram, roubaram nossas pedras preciosas e as nossas mulatas, mas não nos furtaram o samba sincopado.  Os políticos nos roubaram a esperança, mas não nos levaram o samba de roda e o de enredo. Os estrangeiros nos saqueiam as florestas e delas furtam a biodiversidade, pintam e bordam com a gente, mas ninguém nos faz tanto mal como os que pintam na nossa cara a cara que o palhaço tem e diante de tamanho escalabros concluímos que  de palhaço a gente só tem a risada pelas coisas que fazem com quem não pode se defender.  Portanto, um mês ou dois de carnaval porque ninguém aqui é palhaço. De verdade.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

SENHOR SABE TUDO.

   
     Concluir os estudos de psicologia, fazer pós e mestrado era a intenção que eu tinha, pois assim eu saberia entender os fricotes dos que se dizem racionais.  Eu era um jovem ambicioso e mesmo que me sustentasse na classe média da sociedade, só isso não me bastava. Eu queria mais, queria ir além dos passos que as minhas pernas pudessem dar.  Eu  queria estudar, entender a crença dos povos, educar os que buscam saber além dos livros, enfim, eu queria desequilibrar o mundo. E foi assim, quando eu achava que sabia tudo,  entendia de tudo e nada mais podia confundir as cores do meu juízo que você me apareceu. Veio ligeiro como vem os ursos procurando o mel, e foi assim, chegou vazia de resposta, mas com um baú repleto de perguntas para me oferecer. Muito poucas ou quase nenhuma eu soube responder, principalmente quando quis saber de mim, e por que teria ela gostado de um cara tão estranho quanto eu? Ela jamais teve essa resposta.
    De todos os tiros que eu dei num alvo de madeira o que marcou mais na minha vida foi o que eu dei no pé. Não no pé de qualquer pessoa, mas no meu.
    Bastava deitar meu par de olhos caramelados sobre uma pessoa para que eu soubesse  quem ela era.  Não  precisava um dedo de prosa ou que me respondesse qualquer pergunta, e muito menos seria preciso me dizer qualquer palavra. Não, não havia a necessidade de conversar sobre coisa alguma ou mesmo ouvir-lhe a voz.  Bastava o jeito como se comportava, os gestos que fazia e a posição dos olhos com relação ao que via.  Depois era só eu olhar o jeito de como caminhava, falava e o que diziam as palavras proferidas.  Eu, definitivamente já não respondia as minhas próprias perguntas, não decifrava o que os meus olhos viam e muito menos distinguia o bem do péssimo, o morno do gelado e a noite das manhãs.  Tudo mudou com a chegada dessa pessoa que veio sem trazer nada que pudesse me oferecer.  Veio ansiando levar consigo o que eu levei tempo para aprender.  E conseguiu. Não só ficou sabendo de graça o que eu paguei com dinheiro e com tempo para aprender, como levou com ela a sede dos meus desejos.  Levou as minhas lembranças, os meus melhores sonhos e a saudade dos nossos momentos. E para não dizer que foi injusta com quem disse que gostou tanto, deixou comigo a saudade que eu tenho dela e os pesadelos que eu tinha até conhecê-la.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ACIMA DOS SEUS OLHOS.

        -Disfarça, ergas o nariz para o céu e me verás brincando de roda por entre os falcões, em meio as águias, cercado de condores. Deixa a vaidade de lado e procure me vir desenhar seu nome a 200 km nesse céu de brigadeiro. Por detrás dos óculos embaçados da vertigem eu não distinguo se alguém, em especial está a minha espera, da mesma maneira que já não sinto o desprezível cheiro de querosene que até ha pouco nos sustentava os motores.  Durante a queda, bem que eu gostaria de dizer o que sinto por você, mas não posso. Aliás ninguém pode falar ou ouvir nada quando se despenca avião abaixo. Fora essa adrenalina pipocando com ameças de explodir as minhas veias.
Na altura aonde os condores esvoaçam, o medo não me mete medo, e nem que a minha falta de sorte me levasse à morte eu morreria, a não ser que não me fosse possível te ver roendo as unas de nervoso, temendo por minha vida. Despenco do pássaro de aço, como dizem os caiapós, dali, de bem pertinho da casa aonde as estrelas moram. Enquanto isso a pressão faz doer minha cabeça, mas a tua indiferença a tem feito doer muito mais.
       De repente o rádio nos avisa que estamos a 15 mil pés sobre um mar tão azul que parece espelhar o céu, porém a minha ansiedade me garante que estamos mais para o céu que para a terra.
      Do alto, nesse infinito tão bonito, não consigo, por mais que eu pretenda, ver a menina que se espreita atrás do amor que nega.  Nega até que um piloto venha cortar os motores por sobre sua cabeça e os seus olhos a desmintam procurando pelo meu velame. 
O nervosismo que dita ordem é o mesmo que esconde a coragem, arrepia a minha pele e num salto, não menos audacioso, me joga para o meu próprio interior, para dentro dos meus sonhos esperançosos.
      Um minuto de  queda livre para mim não é nada, mas representa uma eternidade para todo mundo já que pode me custar a vida, se valor ela tivesse. 
Momentos finais dessa loucura. Não o vento zunindo em meus ouvidos eu certamente perderia os sentidos. Fico alerta, vivo, fico esperto para aos 2.500 pés comandar as minhas nove células que se abrirão, pelo menos eu assim espero, como pétalas coloridas sobre mim.  Faço um giro sinuoso, abro  as pernas e ataco o vento. Avanço fechando o cone em direção do objetivo, mas quando os meus olhos a encontram afastada dos que me aplaudem, faço uma curva ligeira, puxo os batoques um pouco mais fundo e, como num passe de mágica, pairo no ar como os beija-flores, na sua frente, pronto para ganhar um abraço e os beijos que ela pudesse me dar.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

PASSADO E FUTURO.

– Como voa o tempo, meu Deus! O que teria dado nele para correr assim?  Na semana passada eu brincava de bola de gude, soltava pipa na rua, rodava peão e detestava ir à escola.  Para ficar mais tempo na rua eu mentia dizendo que não tinha aula, mas mamãe, ligeira como Deus a fez, me pegava pelas orelhas até que da minha boca ouvisse a verdade.  Ontem era eu quem tentava fugir dela para brincar com os amigos.  Hoje são seus netos que escapam de mim para ficar com ela.
 Quanto aos amigos que não desgrudavam de mim quando moleque, ainda pulam corda, jogam bola em frente lá de casa, isso sem falar na  farra que fazem nos arredores da minha memória.  Quanto aos amigos atuais, esses, que a vida mantém a minha volta, estão, neste momento, vestindo a mais provocante minissaia da filha e passando na boca o batom vermelho da mulher. Esses caras, por quem tenho tão grande amor, sofrem vestidos de mulher da vida para arrasar no bloco das piranhas durante os quadro dias, enquanto eu, bobinho como sou, fico tomando cerveja com aquelas que batem palma para o marido requebrar na passarela. 
Antigamente a coisa era de um jeito, mas hoje já é de outro, bem diferente. O importante é o que se faz no intervalo entre o ontem e o futuro.  O resto é pintar a cara, beber cerveja e curtira as boas amizades para que no futuro nos lembremos do hoje, como me lembro do ontem agora.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

HOJE É CARNAVAL, GENTE!

Sobre a cama um par de sapatilhas prateadas,  luvas brancas,  uma calça de 
cetim perolada  e uma bata larga de golas sobreposta.  Pinceis, muitos, diversos e tinta de cores mil pintará a cara do mais alegre dos tristes arlequins. 
Essa, com certeza, seria a primeira vez que eu saio num bloco pelas ruas. São muitos, são vários os que se atrevem num calor sufocante que nem todas as cervejas do mundo, por mais geladas que estivessem, daria conta do sufoco gostoso que é brincar o carnaval no Rio. Outras vezes me aventurei nos baile do Bola Preta, do Flamengo, do Monte Líbano, Minas Tênis Clube e outros que já não me lembro. Eu chegava de cara limpa e aos poucos ia me enturmando com outros foliões. Bebia, e se fumava era quando me ofereciam, para dividir o estado que eu me encontrava com a primeira garota que se deixasse cativar.  Nela eu sapecava uns amassos e mais beijos do que ela poderia imaginar. Mas era quando eu falava ao pé do seu ouvido, mesmo que fosse as mesmas coisas que eu dizia às outras, que ela se prestava ouvir. –Ah, você diz isso para todas. Dizia ela. Nessas horas eu tentava fazer cara de bom moço; – você tem toda  razão, mas falar com sinceridade eu só falo pra você, meu anjo. Enquanto no salão rolava o baile eu lhe tascava uns beijos dos quais só eu sabia dar.  Também lhe acariciava os seios e outros lugares menos visíveis por baixo da fantasia. Moças e rapazes. Senhoras e cavalheiros davam tudo o que podiam como se em três ou quatro dias o mundo fosse se acabar e o pior é que acabava mesmo ou a quarta-feira não seria de cinzas com um bando de gente suada, cansada, arrependida do que fez ou de não ter se permitido fazer, largadas descalças das sandálias e dos medos pelos bancos das praças e seus arredores.  Carnaval é fantasia. É máscara, é viver em menos de uma semana o que não se permiti viver no dia a dia a vida inteira. É fazer coisas para negar depois.  É dizer sim na hora do não e dizer não quando tudo já aconteceu. Mas se você se cala é porque a cabeça ainda está cheia de fumaça, a alma vibrando nua e o corpo cansado, mas feliz, com com os  orgasmos miúdos que jamais pensou que sentiria. 
Sempre, nessas horas, aparece uma pessoa  sem cara, endereço e nome para desenhar na face da mulher a marca do seu beijo enquanto mascarado vai sambando porta afora sem, nem mesmo a ela dizer adeus.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

DA COR DO AMOR...

Entre os desejos que eu mais respeito estão o arrebatamento 
e a escravidão, mas o amor é o que me põe de joelhos.  Não me refiro ao amor de uma deusa ou de uma princesa que aplaudisse meus gestos ou as palavras que eu dissesse, mas de um amor que transcende a singularidade da alma. Um amor inteligente que distingue o choro, do pranto.  E o sorriso, da felicidade. Um amor que discerne entre o rico de bens e o pobre de espírito. Que enxerga a distância entre a misericórdia divina e a  misericórdia de um golpe desferido. Isso porque o amor não é o sentimento que caminha sobre as águas de um riacho, mas pelos labirintos da alma como os  mineiros na escuridão das minas de carvão aonde vivem, trabalham e morrem.  Se eu pudesse amaria como amam os passarinhos, despidos de todas e quaisquer maldades, cantando em bando para quando chegar a  hora morrer com os olhos fixos nas estrelas, mesmo que, como os outros animais não soubesse que passarinho que canta também morre, não de saudade, mas por ter cumprido o legado que recebeu. 
Eu queria viver uma vida como a deles alegrando e esverdeando  as matas, os oceanos e descansar o meu coração transbordante de amor com os olhos fixados nas estrelas.