sábado, 30 de janeiro de 2016

DO PALHAÇO À POESIA.


Eriçaram o meu espanto e a minha agonia.

Meus pelos, de pé, buscam por um momento teu, de libido e de tesão. Ficam em ponto de quebradura tal a rigidez da envergadura.
Dói de casmurro meu desejo. Tua boca vermelha molhada do gozo reprimido, tremula viva oferecida como cordeiro presenteado aos deuses descaídos do Olímpio, agarrados às sedas que tresmalham de Freya, deusa-mãe da dinastia, as pernas abertas pavonadas.
Não insista, não belisca, pois se durmo não sinto a vida e se não vivo não pretendo a lápide fria, mas  teu colo quente, com cheiro de gozo ardente aonde já me esvaí em sumo branco, seiva que procria.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

ORAR NEM SEMPRE É PRECISO.

     
        Não era uma tristeza causada pela partida de quem amava, como também não era a lembrança de uma vida boa que apertava sua garganta como se o quisesse sufocar, não.  Não era esse tipo de tristeza que o deixava nesse estado, mas a tristeza em não saber se os seus netos seriam educados como ele tentou educar seus pais para que não sofressem o que ele havia sofrido.  A tristeza a que ele se referia não doía em sua carne, mas na alma de quem deseja o melhor, não para facilitar  suas fraquezas, mas para os seus filhos que certamente haverão de querer o mesmo para os deles.  Esse desabafo não foi sobre o ombro de um amigo, mas por quem olha a linha do horizonte buscando pela paz e pela tranquilidade.   Será que alguém deseja um ombro melhor do que a introspecção se ele, mesmo se conhecendo como se conhece, se vê perdido no labirinto da dúvida e da incerteza?
     Essa pergunta poderia pertencer a quem  vive pensando na vida, não só na sua, como nas de quem o cerca, mesmo tendo partido da boca de quem não reza para Deus se uma prece for preciso para agradar aos seus contrários. Dessa maneira lhe surpreende a resignação já que a dúvida só existe quando a fé não é verdadeira, pois se fosse, tudo seria luz, paz e alegria, mesmo que para isso os inimigos se agregassem aos rivais e estes nos dessem as mãos.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

GRITO DE GUERRA.

     
        Quantas vezes você saiu em busca de um emprego e voltou sorrindo para retornar outras e outras vezes para não matar na família que depende do seu salário, a esperança?
           Quantas foram as preces que você fez ao Senhor e nem da seleção uma delas constou e nem por isso blasfemou contra o criador?
           De quantos  você escondeu a ferida das mãos quando reergueu  a parede que matou o seu ente querido?
          Essas perguntas a gente se faz a cada dia, a cada hora e a cada instante aqui perto ou além, distante.  Tem momento que a sorte nos prega uma peça ou seria uma pegadinha que Deus nos impõe para nos alertar? Seja lá isso o que for não importa, porque se a gente acredita no trabalho, na família que se tem, nos amigos que nos cercam e no cumprimento das nossas obrigações, nada existirá nesse mundo que nos ponha medo. Gente de vergonha na cara não senta para pensar no problema e muito menos se corrompe por soluções imediatas já que pessoas como nós não se escondem pelos cantos armando falcatruas, mas cai dentro, mesmo que as lágrimas lhes embacem as vistas, porque é arregaçando as mangas e suando o corpo que o sucesso, pode até demorar, mas com o tempo será conquistado.  Nada de pensar em soluções mascaradas, pois nenhum remédio com nome doce te cura se não amargar goela abaixo.  Muitas vezes meu pai chorou vendo a mesa vazia, mas em momento algum o velho descansou os braços ou aqui não se teria a lembrança do seu nome.  
          No Brasil os anos tem sido de muito trabalho e pouca esperança.  Quem tem condição de abrir novos caminhos não se permite calejar as mãos, enquanto os trabalhadores que ora lamentam o desemprego não sabem o que fazer com a energia que sua honra lhe depositou nos braços.
           Portanto, nem vou parar o meu trabalho para gritar;
          Arriba, Brasil!
         Avante, gente, porque chorar pode ser preciso, mas sorrir, com certeza, é muito melhor...

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

ETERNO ATÉ QUE DURE.

Minha filha me acordou dizendo que o Papa Francisco seria o último depois de Pedro. Eu, sem me dar conta de quem proferia tais palavras, tentei rolar para o canto para dormir o sábado que amanhecia chuvoso e frio, mas não deu. Tive de abortar a ideia tão logo vi Baby soluçando com o celular na mão dizendo que desse ano, 2016, o mundo não passaria.  Suas palavras retumbavam em minha mente e ainda com o gosto da ponteira do guarda-chuva na boca tentei convencê-la de que tal fato não passava de especulação de proféticos descamisados que enlouquecem com o que o Google, de vez em quanto,  lança em suas redes. Gente, nós estamos viajando numa nave há séculos e no percurso que a terra faz, muitos acidentes têm acontecido e vão continuar acontecendo. Nessa caminhada tem buraco de todos os tamanhos e tipos que a gente precisa pular, tem pedras enormes, valas imensas e grandes despenhadeiros a serem contornados.  Antes da gente ter como vasculhar o espaço além dos nossos narizes a terra já se defendia desses perigos, e se a gente é o que é, é porque, te tudo, essa bagaça não foi assim tão mal dirigida. Hoje, que o ser humano armou uma trincheira contra tais eventualidades, não há porquê tanto desespero. Vamos levantar cedo, fazer o ritual que nos incutiram fazer nossos pais, respeitar as leis dos outros, inclusive as nossas e trabalhar. Se possível, estudemos para simplificar e melhorar o que fazemos, e se você acredita em algo além do que eu expus aqui, continue acreditando, mesmo que pensem diferente de você, porque, para nossa sorte, ainda somos uma nação livre.
"Durante o café eu pude ouvir minha filha falando com uma 
amiga sobre um barzinho que abriu aqui embaixo, no nosso prédio, onde uns colegas dela cantam, tocam violão e ainda se come uma pizza para ninguém botar defeito.  Eu, particularmente, gostei muito quando lá estive e pelo que conheço da minha menina o mundo poderá acabar em breve, mas essa noite, com certeza não será possível". 

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

QUANDO EU ERA GRANDE...

   
     A
h,  que saudade eu tenho da casa dos meus pais. Lá, se a política ia bem ou ia mal, não fazia para nós, crianças, a menor diferença. Principalmente se na hora do almoço e do jantar os pratos estivessem cheios, e quanto sobrava alguns trocados para o cinema nos finais de semana então, aí a gente agradecia a Deus e ao governo, mas do esforço dos nossos velhos ninguém se lembrava por acharmos que Deus e a política faziam dos pais da gente as pessoas maravilhosas  das quais tanto nos orgulhávamos.  Infelizmente só com o tempo a gente reconhece essas verdades.        Quando a dispensa da casa de uma família está completa as pessoas ignoram até o nome do presidente, que dirá o nome do ladrão que roubou os anéis de Saturno.    
   Quando se é adulto, tudo é problema da gente. Se o País vai mal, fui eu quem escolheu a corja para me governar. Se não tem comida suficiente nas minhas prateleiras,  se as minhas roupas e as da minha família estão surradas, não temos ido aos museus, aos teatros e ao cinema é porque me acomodei com o pouco que conseguia com o quase nada que eu aprendi fazer, mas ter um sol só para mim, meu Deus, isso jamais fez parte dos meus planos desde que meus pais se foram de nossas vidas.  Meus velhos queriam que eu estudasse para não cair na besteira de tentar a vida pública, mas estudar foi a maior mancada que eles me obrigaram a dar, pois, sem estudo, burro do jeito que eu era talvez eu conseguisse uma vaga na assembleia, na câmara ou no senado. Com certeza eu ia encher a burra de  arrogância e de dinheiro e para não demonstrar ser o que de verdade seria, eu distribuiria,  para os mais necessitados, um dedo do meu sorriso, uma nuvem de fumaça do meu charuto, um pouco de poeira levantada pela minha limusine e a musicalidades dos meus aviões passando por sobre suas cabeças sorridentes.
    Mas como nem tudo é como se almeja, vou vivendo a vida que Deus me permitiu.  Durante o dia eu pago os meus gastos para gastar a noite tudo aquilo que paguei. 
- Se papai estivesse vivo talvez me mandasse dormir mais cedo evitando  gastar o que choro na hora vou  pagar.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

POR QUE SERÁ?

Ele tem escrito sobre coisas e sobre gente. Tem  dito o que gosta e o que não gosta de um tema e o faz sem medo de represália.  Com veemência tem defendido o direito dos analfabetos, mas também já se calou para justificar o pão na mesa dos seus filhos. Já pagou  escola para filho de amigo, como já pegou  filhos de gostosas no colo para ver a mãe de perto.  Já levou flores ao cemitério na pretensão de pagar contas devidas mentindo que era por saudade.  Já se sentou em banco de igreja, não para rezar, mas para descansar as pernas. Já trabalhou em troca de nada e nada talvez ele tivesse feito para 
receber a graça que tem.
  
Talvez cansado de tudo isso ele quisesse dar outro sentido a sua vida.  Quem sabe quisesse ele dizer sim para o momento do sim, e não, para o momento da negação?  Também pretendesse se sentar sem ter que justificar seu gesto.  Quisesse chorar sem precisar dizer se é de felicidade ou de tristeza ou quisesse acordar em plena madrugada para abraçar o sol ou também sonhasse mudar o mundo achando que por menor que fosse esse gesto em prol de tamanho desejo, faria, para ele ao tomar essa atitude,  toda a diferença. 

sábado, 9 de janeiro de 2016

TEMPOS DUVIDOSOS.

Tudo é tão recente que para mim nem o tempo dá pistas que está passando, em 
contrapartida o dos outros meninos, aqueles que cresceram, namoraram, se casaram, tiveram filhos e agora curtem a felicidade ao lado de suas famílias, passa naturalmente como as águas de um riacho sob a pinguela. O meu, no entanto, passa empoeirando os meus olhos enquanto causa na velhice que faz tossir a pessoa prostrada numa cadeira diante da janela distante da beleza do mundo que faz tempo se calou e mais ainda não escuta o que eu resmungo.  O arrastar daqueles que apressados passam pela minha calçada me lembra o Rio Doce com suas águas barrentas varrendo margem afora as casas, o  futuro e a vida dos ribeirinhos. Para eles e os que falam, riem e se divertem sob a minha janela a vida passa com a velocidade das tartarugas, mas pra mim que envelheci sem que me desse conta e o povo de Mariana pego de surpresa já não sabemos quando é noite ou quando é dias, tal a morosidade que o cometa  risca os céus das vidas iguais a minha. Olhando com mais cuidado para os passantes eu diria, se pudesse, que eu também já tive a sua impetuosidade. Já joguei bola na rua por entre os automóveis, nadei em rios perigosos, estudei o que eu quis e até no que eu não queria me atrevi. Trabalhei naquilo que me refastelou a vida e até no que não me rendeu fruto algumas vezes trabalhei.  Namorei moças direitas e garotas melhores do que eu era. Permiti que uma se casasse comigo, mas não permiti que me cerceasse o privilégio da separação. Depois eu perdi a cabeça e me casei com a mais bela de todas, uma jovem que enxergava com a esmeralda dos seus olhos. Talvez esse amaranhado de coisas não me permitisse entender que tudo nessa vida é passageiro. Eu, você, eles e todos já fomos ou serão o que eu fui, mas, certamente não se darão conta que chegarão ao estágio de vida que eu me encontro  agora.
Gente, dá licença que eu preciso me recolher.  Vou fechar a janela para não ver o sol morrer, ou 
será que é ele que vem nascendo?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

DE VOLTA PRA CASA...

    As festas de fim de ano acabaram e como do carnaval ainda não se ouve o som da bateria, é preciso que esqueçamos tudo e voltemos ao dia a dia de nossas casas.  As malas já estão no carro. No rosto da tia a tristeza da despedida e no da sobrinha a lágrima ligeira do adeus. Depois de haver-se acomodado a mocinha acenou à sua tia até que o táxi sumisse às suas vistas. A senhora deixou o corpo arriar na poltrona mais próxima e entre lágrimas e soluços se entregou às lembranças do quão importante foi a presença da garota na história de sua vida.  Será que ela se esquecerá dos riscos que corremos quando, numa noite chuvosa, a gente se enfurnou na mesma cama para fugir ao ronco do trovão e aos perigos que os raios nos ofereciam? E do amor que eu dei a ela, dos beijos no canto da boca, dos carinhos no botão dos seus sentidos sobre a blusa fina de dormir. Será que disso também ela se esqueceria? Pode ser que sim, como pode ser que não, mas no meu caso eu jamais deixaria de me lembrar. Bastará o céu se cobrir de pesadas nuvens, talvez nem precisem ser tão escuras, para eu me jogar na cama e chorar a dúvida de não saber o que faz essa mulher, que tem jeito e cheiro de menina, longe dos meus olhos, dos meus toques e dos meus desejos. Assim concluiu uma belíssima mulher que na flor dos seus 30 anos foi morar numa casa debruçada sobre o mar para chorar a morte prematura do marido. Jamais ela pensou que pudesse sentir por uma mulher o amor que sentia agora e logo por uma adolescente e o pior é que ela é filha do seu irmão. 
Para aliviar um pouco a sua angústia e provar que Deus existe, sua cunhada ligou dizendo que a filha chegou muito bem e que não falava em outra coisa senão passar o carnaval na casa da tia. Demonstrando um certo constrangimento a cunhada perguntou se tinha importância mandar a menina de volta no mês seguinte para curtir as festas de momo, pelo menos serviria de companhia a quem se entregou a solidão depois da morte do marido.

sábado, 2 de janeiro de 2016

HOJE É OU FOI NATAL?


Mal os cantos natalinos fugiram ao deleite dos meus ouvidos e uma rolha de 
champanhe desperta a  minha atenção. Um brinde, dois goles e o céu se cobre colorido de flores chamejantes, ao passo que um batalhão de tambores arrasta um certo ano novo pela mão.  Lágrimas de quem não se desapega e festa e riso dos que há horas se desapegaram. 
Eu juro que nem me dei conta da chegada do ano novo e tão poucas horas depois eu o chamo de velho e até pulo sete vezes a mesma marola, que teimam dizer que são ondas, em 
comemoração à triste despedida.
Os amigos que vieram buscar o meu beijo já se foram e do lugar que eu vim, faz tempo, de lá eu voltei. Na boca eu tenho o sabor da festa e no corpo o cansaço de ter festejado tantos réveillons que até os meus ombros se curvam de felicidade ou, quem sabe,  de  teimosia. 
Agora é voltar com tudo a seus lugares e dar continuidade, dentro de uma nova proposta, a vida que se leva desde que se descobriu que se bebe e se come na chegada de um novo ano e se 
come e se bebe pelo ano que findou. 
Feliz Ano Novo, gente! 
Eu sei que o mundo nada fará pela paz, mas, se eu estiver certo, por favor, nada faça, também, 
pela guerra.