quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

O MENINO E O BOM VELHINHO.

     
     Ele já tinha 14 anos e ainda acreditava em Papai Noel.  Ninguém desconfiava do segredo de quem tinha plena certeza que um dia seria lembrado e não importava o tempo que passasse.  Talvez o fizesse por acreditar em Deus, mesmo jamais tendo ganhado qualquer coisas naquela data. E foi assim que na noite anterior a do nascimento do menino Jesus que o nosso jovem se entregou aos pensamentos que não eram outros senão acordar na manhã seguinte e encontrar no surrado sapato junto a janela aquele que seria o seu tão esperado presente, e não importava quem o tivesse dado. Cinquenta anos mais tarde e aquela lembrança ainda povoava seus pensamentos. 
- Meu Deus, como tudo era difícil naqueles dias - pensava com os olhos avermelhados.  A família mal tinha o que vestir e o que comer e mesmo assim vivia uma vida honrada.  Caso a crise que o país atravessa no momento tivesse ocorrido naquele tempo nem escola pública ele teria tido e no entanto o colegial ele concluiu  numa escola do governo e aos 15 anos cruzou às portas da faculdade onde se formou na pessoa que é.  
    Já eu, do alpendre da minha residência, posso ver um punhado de pequenas lâmpadas piscando no entorno das casas. Talvez porque seja véspera de natal, e a essa altura o menino, que há cinquenta anos sonhava com o presente do velhinho de barba branca, já esteja vestido, como tem feito nas vésperas de todos os Natais, com aquelas roupas largas e as botas apertadas.  O menino, hoje burro velho e até um pouco cansado, entra num macacão vermelho com enchimento para disfarçar seu corpo esguio, põe algodão na barba e óculos transparentes de aro arredondado sobre o nariz, enche de brinquedo a caçamba da sua Hilux zero quilômetro e vai às favelas entregar o pedido que a criançada fez através dos correios.  É festa no morro, na periferia e no coração daqueles que acreditam que papai Noel até existe, se você puder acreditar.