segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

NO ALTO DA CAPELA.

       Com a correria no pátio da Igreja Santo Antônio, no Suspiro, quase jazeram as imagens que nada tinham com a chegada do rapaz. Uma das moças, não me lembro se a mais gordinha, mas com certeza a mais bela de todas, corria de braços abertos para o jovem recém-chegado do Rio, que a partir daquele momento se tornaria o homem da sua vida. A imagem criada no momento em questão deu a ele a certeza de que Deus, de fato, existia. Bela, como são as flores espreguiçando no alambrado dos jardins,  ela sorria se atirando nos braços do amado. Passado os festejos do primeiro encontro os dois, entre uma conversa e outras tantas, buscavam se conhecer.  E foi a partir daquele momento que o rapaz se propôs invadir a privacidade dos pensamentos da mulher.  Durante os primeiros meses batia, com os nós dos próprios dedos, àquela porta, mas ninguém, na consciência da jovem, se dignava abri-la. Nos primeiros anos tentou várias vezes adentrar os seus pensamentos, mas alma viva nenhuma, atrás da porta, se arriscou ajudá-lo.  O máximo que conseguiu, depois de várias tentativas, foi uma fresta por onde se podia enxergar várias portas, em ambos os lados, de um cumprido corredor cujo final não se tinha ideia de onde seria. No décimo ano o rapaz, hoje seu marido e fiel escudeiro, já tinha nas mãos o passaporte que lhe dava o restrito privilégio de acessar o corredor de onde se via através de pequenas aberturas nas portas o mínimo espaço de cada sala. Dentro de 20 ou talvez 30 anos quem sabe ele tenha a permissão de entrar nessas salas, acender aluz, mudar as coisas de lugar, mas mexer nos arquivos acredito que não. O mais próximo disso que chegaram foi através de um psicólogo que depois de estudar o mapa existente na cabeça de um ser humano, ter se casado com ele, ter tido filhos e netos e sofrido a dor da guerra que praticamente mutilou sua espécie, chegou finalmente a conclusão que o fichário existente no arquivo daquela sala tinha cor alaranjada. Portanto, considerando que 50 anos seria o tempo estimado para que vivêssemos lúcidos,  somente 40  deles seriam dedicados ao estudo daquilo que nos move os pensamentos.  Concluindo; seria necessário que os pesquisadores vivessem 500 anos, mais ou menos, para entender o que leva uma pessoa a tecer pensamentos a respeito de outra e de que forma faz isso, observando uma margem de erro que não excedesse os 50 por cento, para mais ou para menos.