sexta-feira, 18 de novembro de 2016

MEU CAJUEIRO...

       Na casa onde eu cresci com minhas irmãs havia um cajueiro.  Um enorme pau de frutas onde eu me escondi algumas vezes na esperança de fugir à vara de goiabeira com a qual mamãe riscava as nossas bundas. Aliás, eu não me lembro de ter chupado um só caju daquele pé. Talvez só estivesse ali para me proteger.  Tinha também a jaqueira que aos meus olhos era uma árvore imensa, mas tão grande que as jacas quando amadureciam caiam fazendo barulho e sujando o quinta da gente.  Os amigos do meu pai escalavam-na para pegá-las antes da queda, mas nem sempre chegavam a tempo.  Muitas vezes mamãe e algumas vizinhas pegavam, num lenços seguro pelas pontas, as que eles arremessavam do alto dos galhos. No fundo do quintal tinha um pé de abacate, mas como o leite não conhecia o endereço do pobre a gente só fez vitaminas com essa fruta adoçada com banana alguns anos depois.  Na amoreira, junto a parede da sala onde eu e as meninas dormíamos e que era o point dos azulões durante as manhãs, um passarinho de porte médio fazia, com aquelas frutinhas, a sua primeira refeição.  E era bicando as amoras enquanto cantava que sua silhueta refletia através dos furos do zinco que cobria a nossa casa, na parede interna de nossa casa e mesmo em posição invertida, sabia-se que era ele que vinha acordar a gente. Eu também não me lembro o sabor das bananas que mamãe cultivava nos fundos de nossa casa, mas lembro que tinha uma touceira com pelo menos uns cinco pés dessa fruta.  Papai dizia que elas estavam ali para decantar o esgoto da casa.  Coisas que o meu pai aprendia na obra onde trabalhava. Na casa do meu avô tinha um espaço tão grande para o plantio de qualquer tipo de planta, mas eu, que poca afinidade com o trabalho, que tinha, plantei um pé de mamão.  Nas férias do ano seguinte lá estava ele. Imponente, carregadinho de pequenos frutos ao sabor do vento. Fiquei tão feliz que mal cabia em mim.  Corri para os braços dos velhos que pareciam estar mais feliz do que eu com a minha alegria.Hoje, já crescido e sabedor da bondade dos avós que eu tive, arrisco dizer que a minha tentativa deve ter dado errada, mas os meus bondosos avós, com certeza, refizeram o plantio até que vingasse, como vingou, aquele majestoso pé de mamão que eu teria plantado. 
- Coisas de criança...