quarta-feira, 9 de novembro de 2016

BONS TEMPOS...

     Nas férias do colégio eu ia à casa do meu avô sempre que tivesse alguém para me levar.  O sítio ficava no norte do estado a cerca de 200 quilômetros de onde a gente morava. Minha mãe, no ímpeto de ajudar os seus pais, me embarcava num  trem pela manhã para, no final da tarde, chegar ao meu destino.    E lá ia eu na maria fumaça que além de cuspir fogo pelas ventas, soltava umas fagulhas que até já queimou um casaco que mamãe tanto recomendou que tivesse cuidado com ele. A paisagem era muito bonita.   A floresta ainda verde, a água cascateando nas pedras ladeira abaixo, os passarinhos voando sem rumo como crianças correndo umas atrás das outras e a saudade que não me largava, mesmo tendo o trem há cinco minutos deixado a primeira estação.  Na lavou eu era um desastre, porque a toda hora eu saía atrás das galinhas, subia em árvore para fugir do prego, cachorro do meu tio mais novo, a quem eu não dava sossego e dos porcos que sempre me derrubavam para pegar o inhame cozido que eu levava para eles numa grande bacia de alumínio.  Para não ser discriminado eu me enturmava com os moleques que usavam estilingue na caça aos passarinhos e muitas vezes eu tive tudo para provar que era melhor do que eles, não fossem as vezes que acertei o meu próprio dedo.  Doeu muito, mas nem cara feia eu deixei que me vissem fazer.  Só os diabinhos de lá tinham mira certeira.  Era uma estilingada e o petisco da tarde estava garantido.  Dos 14 anos para cá foi que eu percebi a covardia que era jogar pedra nos indefesos passarinhos.  E só de me lembrar que eu estive perto de fazer aquela maldade eu morro de vergonha de mim.   Minha mãe jamais soube dessa minha façanha ou no lugar da minha orelha, hoje, talvez, só restasse a cicatriz.  Vovó cuidava da horta e todas as manhãs me levava com ela como companhia. Lá minha avó me contava casos, falava de Deus, da vida e da morte enquanto eu, sem entender do que ela estava falando, jogava pedrinhas no pequeno riacho do outro lado da cerca de bambu que protegia as plantas. Hoje, pelo que fiquei sabendo, faz tempo o rio não corre mais.  As plantas acabaram e a cerca foi derrubada pela última enchente que teve por aqueles lados.  Eu gostava de ouvir o que ela falava, mesmo que não entendesse certas coisas, graças a voz gostosa com que minha avó contava suas histórias. Dos dois eu gostava mais das que o meu avô contava.  Aquela voz de barítono roncando no meu ouvido me dava certeza de que eu estava seguro.  E foi embaixo de um pé, não me lembro de que, que eu vi pela primeira vez a lua andando no céu por detrás de um montão de nuvens transparente. Meu avô riu muito quando me ouviu falando aquilo e ele, que mal sabia escrever o nome me afiançou que a lua não andava, mas as nuvens sim, é que fiquei sabendo o quanto inteligente era aquele homem.
Não estou morrendo de saudades dos meus tempos de menino e muito menos do amor com que meus avós me cercavam, mas estou, sim, com saudades dos tempos da simplicidade, como quando o meu avô cortava em pequenos pedaços com o canivete que levava consigo o fumo de rolo e, sentado debaixo daquela árvore que jamais me lembrei do nome, preparava seu cigarro com o mesmo papel de seda que hoje a juventude enrola o seu baseado. Vovô fumava a noite inteira olhando as estrelas enquanto eu, sentado em uma de suas pernas brincava com seu bigode e as vezes com o chapéu que ele, nem sempre, permitia que alguém tocasse.