terça-feira, 25 de outubro de 2016

LAVO AS MÃOS.

      Esse ano eu pretendia deitar-me com as galinhas e acordar com o galo cantando no meu ouvido, mas não consegui. Pretendia cuidar do que resta de mim, como cuida da horta o aguerrido plantador, mas também não encontrei tempo ou coragem.  Eu pretendia cuidar da pele, dos cabelos, das mãos, das pernas e dos pés, para que a mulher que escolhi com quem passar o resto da minha vida tivesse prazer de olhar para  seu homem.  Infelizmente ela me olha como a menina olha o pipoqueiro na praça. Se é doce ou salgada não importa, o que interessa é que estejam quentinhas. Queria parar com essa bobagem de pensar que homem que é homem não usa creme, não faz sobrancelha e não cuida das unhas. Talvez eu até conseguisse, mas o creme pode sujar as poltronas.  Os pelos das minhas sobrancelhas sairiam à base de sofrimento e as unhas, há muito eu as tenho aparadas rente ao "sabugo", principalmente quando o Mengão joga. Eu queria, pelo menos, ter as mãos bonitas para tocá-la quando chegasse à casa, e com elas fazer um coração no momento da despedida.   Só eu, pelo que tenho observado, não cuido da minha aparência como os amantes se cuidam para as suas mulheres.  Para que servem os banhos que tomo durante o dia se lavo tão somente o que acho que não está limpo?  Ninguém quer saber se o que é feio está perfumado.  O que querem saber, de fato, é que, não só o corpo do homem é limpo como a imagem, com a qual a natureza permite que ele se pinte, também o seja.  Mesmo assim eu me levanto nas manhãs de todos os dias para, antes do primeiro gole de café,  ir ao banheiro, tomar meu banho, escovar os dentes e aparar os cabelos que crescem onde eu acho que não seria necessário. Faço a barba, dou um sorriso para o espelho e saio em busca da beleza, que para minha felicidade, se encontra do outro lado da porta a minha espera.