segunda-feira, 29 de agosto de 2016

VIAGEM AO PAÍS DA INFÂNCIA.

        O dia amanhecia perfumado de café e pão torrado. A bata era branca e as tranças longas. A escola, do outro lado da vila. No largo da escola cresciam as azedas, os pequenos malmequeres.
Era bom molhar os pés no orvalho matinal, correr entre os bancos vermelhos, respirar o cheiro da urze que ardia nos fornos e nas lareiras.
A escola era enorme. Ou não era? Que medida para a memória?
As carteiras tinham espaço para a fraterna comunhão dos lápis, das ardósias, das caixas de fósforos onde se guardavam os pequenos mistérios: joaninhas encarnadas, uma formiga com asas, uma borboleta adormecida.
Nas paredes havia mapas, mapas velhos, amarelados, que era preciso e fácil saber de cor.
Viajava-se nesses mapas das linhas-férreas, dos rios e das serras, em frágeis comboios, em barcos maravilhosos, de norte a sul. Parava-se em pequenos apeadeiros onde nunca ninguém fora, atravessavam-se os mares e ia-se com os Reis às cinco partes do mundo.
A minha professora era alta e forte. Ou eu era muito pequena? Vestia luto carregado pelo marido, pelo filho, pela vida. Chamava-se Maria Rosa Lopes e tinha dois canários e um canteiro de morangos junto à casa. Não a consigo dissociar destes elementos, talvez porque fossem os únicos pássaros engaiolados da vila e os únicos morangos que eu vi, até muito tarde.
Às vezes, deixava-nos nos barcos dessas viagens ao fim da terra e ia a casa, que era mesmo ao lado, num breve instante, adiantar o almoço dos filhos ou buscar brasas para uma bacia de cobre com que aquecia a sala, no Inverno.
Junto com os parágrafos, as conjunções, as dinastias, havia poemas, o cheiro da cebola refogada e, às vezes, um morango vermelho que era prémio.
Penso agora, ao ver tantos estudantes angustiados, tantos professores preocupados com os insucessos escolares, tantas greves, tanto desencontro nesse espaço que devia ser a grande festa da aprendizagem e do ensino, como seria bom existir ainda esta ligação telúrica casa-escola-terra-ervas-poemas-mapas-cães-gente que guardo em mim numa linha de continuidade terna e ininterrupta. Sem meatos entre a Família-raiz e a Escola, que deve ser a continuação de um espaço em que a criança se desenvolve, ilhada de serenidade e sabedoria. Porque tenho a certeza de que foi lá, na minha escola primeira, que bebi e mastiguei com olhos imensos para a vida tudo o que até hoje me foi válido. Vêm ainda aqueles dias em que se revolviam os canteiros frente à entrada, com pequenos sachos, para depois se assistir ao milagre dos goivos e dos lírios; das rosas e das malvas-amor, na Primavera.
E, mesmo sem os modernos clubes, pela Páscoa fazíamos o teatro, as saias bordadas e compridas, a alegria do primeiro bâton, os olhos amigos que nos vigiavam expectantes, à espera do engano, da falha. E também havia a exaltação da Pátria, a discreta iniciação à resistência de tudo o que representasse tirania e opressão. Festejava- se o 1° de Dezembro com tanto sentido de amor à liberdade que ainda hoje estremeço quando recordo a Banda e os discursos, os poemas, os foguetes que acordavam a madrugada como um sinal.
No centro de tudo isto: perfumes, bichos, terra, flores, canções, mapas, morangos, canários, aquela mulher era uma catedral negra, tranquila, protectora, ímpar: Inesquecível.
Na minha escola descobri a força e a magia das estações do ano e aprendi que é feia a denúncia e boa a Amizade. E a minha infância foi assim, pelas mãos dessa professora tão poderosa e discreta, um receptáculo magnífico de vivências, de aprendizagens do que é essencial e perpétuo para se caminhar na vida.
E apetece-me deixar aqui um desafio: quem quer experimentar na sua escola esta cabala de ternura e simplicidade; esta vontade de chegar ao fim acreditando?
Quem quer trabalhar, assim, para ficar para sempre no coração comovido de quem vos recordar? Que professor, hoje, não terá medo de uma qualquer viagem que os seus alunos um dia fizerem ao país da infância?
Maria Rosa Colaço
Não quero ser grande
Lisboa, Editorial Escritor, 1996