quinta-feira, 14 de julho de 2016

JOGO DA VIDA.

     Fred deve ter tossido quando a bola de Marcelo explodiu no seu peito e foi cair no pé do Neymar que marcou o mais bonito gol da rodada.  Deve ter doído, mas certamente doeu mais no coração dos japoneses com o arremate que culminou numa bela pintura.  Aí, duzentos milhões de brasileiros gritavam de alegria enquanto outros dois milhões de japoneses que aqui trabalham e criam seus filhos  lamentavam seu próprio fracasso.  Os comentaristas vibravam narrando os lances, mas como não se vestir com as cores da bandeira para alegrar aqueles que os ouvem se são pagos para isso?   Antes de ganhar de presente o celular de última geração que sua mãe lhe dera, minha filha também era assim.  Sabia o nome dos jogadores e suas posições no campo e não importava a seleção que pertencia.  Assim foi com o jogo, Itália e México.  Espanha e Uruguai e Nigéria e Taiti.  O Taiti,  que perdeu para a Nigéria por seis a um, nos levou às lágrimas quando marcou o seu gol, coisa que a minha filha e o resto do mundo achavam impossível, a não ser que um milagre acontecesse, mas de repente, eis que o milagre acontece.  Aos nove minutos do segundo tempo, Jonathan Tehau - um jovem que trabalha como entregador em seu pais - escorou de cabeça um cruzamento vindo da batida de um escanteio e marcou o gol do Taiti.  Do seu Taiti. Do seu país, quiçá da sua vida.  Este gol não abalou os nigerianos que venceram a partida, mas a vibração que causou nas arquibancadas e a comemoração entre os seus jogadores que simulavam remar um barco aludindo o esporte mais popular do seu país – a canoa polinésia – foram estes o motivo do choro da minha pequena e do meu.  Nesse mesmo momento o técnico taitiano, Eddy Etaeta, que não se continha, tamanha a sua felicidade,  corria, dava pulos esmurrando o ar como se aquele gol desse à sua pátria a vitória que a humildade e a gentileza do plantel tanto merecia.