domingo, 26 de junho de 2016

UM BELO DIA DE CÃO.


     
          Quando eu era menino gostava de passar as férias do colégio na casa do meu avô só pelas histórias que me contava na hora de dormir.  De todas a que eu mais gostei falava de uma menina que entrou num pet shop na  intenção de comprar um cachorrinho para ser seu amigo.  Assim que chegou se encantou com uma cadelinha que fez festa com a sua presença.  – Moço, quanto custa esse cachorrinho, perguntou ao dono da loja que se curvava para atendê-la.    Esta custa trezentos reais, também tem os filhotes, mas custam um pouquinho mais – disse-lhe ele.    Eu queria  muito poder comprá-la, mas só tenho dez reais...  O que o senhor pode fazer para eu realizar esse sonho?  Perguntou baixando os olhos.  Bem, respondeu o homem, além dela tem os filhotes, mas como eu lhe disse são mais caros e como são novos precisarão de mais cuidados.  Dois minutos levou para ele voltar com uma bola de pelo nas mãos e outras correndo atrás de si, mas um, no entanto, se arrastava até chegar junto do grupo.  – O que tem esse pretinho que não anda direito?,  perguntou a criança.  – Ele quebrou a bacia e pelo que disse o veterinário, jamais voltará a andar como os outros.  – Pois vou comprá-lo, respondeu enquanto se abaixava para pegá-lo  – Não, minha criança, este animal não está a venda, até porque ele não vale nada.  Não consegue anda direito, não brinca e muito menos tem condição de correr. Portanto, se você quiser, poderá levá-lo de graça, mas tem que me prometer que vai cuidar bem dele.  – Não senhor, respondeu a garota.  Eu não o quero de graça.  Eu faço questão de pagar uma vez que ele, aos meus olhos, é igual a qualquer outro, e não vai ser por causa de um problema insignificante que o pobre animalzinho perderá seu valor.  Enquanto falava a menina arregaçava a  calça deixando à mostra a perna mecânica que usava.  Olha moço.  Eu também não salto com facilidade, não ando como os outros, mas faço o que gosto dentro do possível. Ninguém, nem mesmo o médico que me socorreu, achava que eu pudesse andar de novo, mesmo assim jamais me considerou uma pessoa incapaz ou diferente.  Fique com esse dinheiro por favor e parcele, de forma que eu possa pagar dez reais por mês, o restante.       –Sempre que vovô terminava de contar uma história ele me envolvia naqueles braços de gigante e  com os olhos brilhando, talvez muito mais do que os meus, me levava para o quarto onde ele, nos meus sonhos, continuava contando histórias.