quinta-feira, 2 de junho de 2016

BALA PERDIDA.

                                     
            Marcelo ficava noite e mais noite se preparando para o concurso da polícia. Acordava cedo para o trabalho e sempre que tinha um momento de folga, estudava as apostilas que carregava consigo. Muitos foram os fins de semana que passou intocado nas salas de cursos preparatórios.  Quanto às disciplinas básicas, as específicas, as leis do código civil e tudo sobre a constituição, Marcelo trazia na ponta da língua. Na primeira vez que prestou concurso o rapaz festejou os 9,5 pontos conquistados, porém não suficientes para selecioná-lo, já que vários gabaritaram a mesma prova. Na última o rapaz fez parte da nata dos concursados, mas não teve êxito no psicotécnico. Marcelo não se deu por vencido. Leu tudo sobre a matéria, fez análise com os melhores profissionais para entender o que o impedia de ingressar na carreira.  Nesse meio tempo o rapaz perdeu o emprego por contenção de despesa. Dois anos sem trabalho e com as dívidas aumentando, Marcelo, resolveu se virar. Arranjou 20 reais emprestado com os quais comprou um quilo e duzentos de bala caramelada na intenção de vendê-las a cinco reais a embalagem com dez, e Marcelo embalou 223 desses saquinhos e os ajeitou na mochila. Uma semana o Rapaz, já não tão jovem, pelejou pelos colégios, porta de hospital e ponto de ônibus.  E foi em um desses lugares que Marcelo abordou uma senhora que lia a resenha de um matutino. – Desculpe senhora, mas, que tal adoçar a boca que, pelo que vejo,  a senhora azeda com o acre das notícias? – Meu senhor, respondeu a mulher tirando os óculos acavalados no nariz,  se eu comprar suas balinhas estarei colaborando com seu sucesso o que o impediria de deixar as ruas em busca de um emprego decente. Inclusive outros tentariam fazer o mesmo acarretando prejuízo aos lojistas. Portanto, meu senhor, em nome da minha família e do meu país a resposta é não, respondeu repondo os óculos.   A senhora está certa, mas também está errada, retrucou o vendedor. Se a senhora comprar minhas balas outras pessoas também as comprarão e isso vai, como a senhora bem disse, tirar de mim a vontade de procurar por um novo emprego, mas em compensação as fábricas de bala terão de contratar novos funcionários para atender a demanda ou, no mínimo, manter empregado os que, temerosos com o desemprego, pegarão mais cedo e largarão mais tarde nos seus serviços, produzindo, com isso, mais receita e divisas para o país.  A propósito, a senhora vai mesmo ficar com  os dez saquinhos  que está segurando ou pretende algum troco para essa nota que está me dando? 
- Marcelo jamais se esqueceu do emprego onde trabalhou por tantos anos e do desejo que tinha de ingressar na polícia que o rejeitava.  Foi graças a esses esbarrões que a vida nos dá que ele, hoje, é o dono da maior e mais bonita loja de doce de sua cidade.