terça-feira, 10 de maio de 2016

Y NO CREO EM BRUJAS, EMPERO QUE LAS HAY, LAS HAY.

                                                       
     No leito de morte vovó exigiu que o marido não sofresse com a sua passagem. Que ele não deixasse de ir ao cinema e ao futebol de que tanto gostava ou jamais teria paz se fosse contrariada. Também obrigou o velho a jurar que arranjaria uma pessoa com quem dividisse o resto de sua vida e caso a escolhida fosse como a "falecida" ele deveria se casar com ela.  Com tudo vovô concordou, só não quis discutir a possibilidade de um novo casamento. Dois anos o velho vestiu luto pela única mulher com  quem vivera tantos anos até que um dia resolveu ir à casa do filho onde ficou até tarde da noite.  Não era desejo de ninguém ver o velho voltando sozinho àquela hora, até porque a PM costumava fazer blitz por ali e isso talvez o assustasse. Parecia que a gente estava adivinhando. Dez minutos depois uma delas fez vovô encostar o carro.  – Seus documentos, por favor.  – Disse a tenente enfiando a cabeça dentro do carro que examinou com sua lanterna.  Como a Sra. Pode ver eu não estou fazendo nada errado – disse vovô olhando a mulher grandona que a esta altura revirava o porta-luvas pelo lado do carona. – Saia do carro e abra a mala, por gentileza – disse a tenente sem olhar para quem babava com as ordens que recebia. Alguns minutos, não mais do que isso,  trocaram palavras. Uma ditando ordens enquanto o outro se enrolava todo para cumpri-las. – Tá tudo certo, senhor. Pegue seus documentos e boa-viagem – disse a tenente virando-lhe as costa no momento em que outro carro por ela era parado.  Talvez poucos notaram que o meu avô não tinha ido embora. Ficou ali por um bom tempo olhando aquela mulher de ar sério, voz rouca e de ordens na ponta da língua.  Ela lembrava alguém de quem o velho já não se lembrava. No outro dia, pela manhã, vovô foi ao batalhão onde certamente encontraria os policiais que tinham feito blitz na noite passada.  Queria falar com a tenente que aquela hora já estaria deixado o serviço.
       – Senhor, eu já disse e vou repetir novamente - gritou o comandante encostando o nariz no dele - aqui não tem mulher com essa patente e muito menos mulher que faz blitz de noite - e concluiu -  volte para para casa e esqueça o que me disse, porque ontem, batalhão nenhum fez blitz nessa cidade.