quarta-feira, 25 de maio de 2016

SÓ PARA MULHERES

             
         Da relação de um proeminente advogado com uma professora universitária nascia, há oito anos, um menino que mais tarde cobriria os pais do mais profundo orgulho.  Por sua bondade e respeito para com os mais velhos o menino se tornou querido e admirado por todos, principalmente pelos que viviam e trabalhavam em sua casa onde a comida era motivo de orgulho dos seus pais. Nunca, em tempo nenhum, tais elogios chegaram aos ouvidos de quem os merecia; a cozinheira.  Desta vez, no entanto, o menino tomou coragem e desceu à cozinha para deixar a "dona das panelas" com o queixo no chão.  A ela o menino confidenciou o desejo de aprender a fazer os quitutes que só ela sabia fazer. Emocionada com os elogios de tão ilustre criatura a cozinheira, uma negra de meia idade, alta e magricela, prometeu contar-lhe todos os segredos de uma boa cozinha.  Não precisou muito tempo para a criança aprender a preparar, com o amparo de sua amiga, um big filé de costela com batata raspada que a turma comeu de doer a barriga achando ser obra dela. Outros pratos como uma plancha de grelhados do mar com aspargos frescos, cogumelos e batatinhas na manteiga de limão com alho crocante também já fizeram parte do cardápio. A cavaquinha por ele grelhada com molho de escargot que a sorridente cozinheira serviu aos nobres convidados também foi de lamber os beiços. Ninguém, além de sua fiel protetora, sabia do autor de tal façanha.  Tudo isso sem falar nos pratos simples do dia a dia que já não precisava de ajuda para fazê-los.
 Aos 10 anos o menino viu sua comida ser servida, comida e elogiada. Momento próprio para revelar ao mundo o seu segredo. Ao notar que já tinham raspado o prato o menino se levantou, pigarreou, para chamar a atenção dos que ali estavam, e perguntou que nota davam ao que lhes fora servido. Diante da nota máxima o menino, agora no ponta dos pés e sem nenhuma modéstia retrucou – gente, fui eu quem preparou essa comida.  É claro que sem a ajuda dessa mulher eu mal saberia como  ferver a água - falou olhando para a cozinheira que por detrás do avental cumprido que ia até o meio das canelas, tentava se esconder.  A mesa ficou calada por alguns instantes, motivo suficiente para o menino, sem graça, correr para o quarto onde o pai o alcançou para cingir-lhe nas pernas com sua cinta que usava enquanto gritava a todo pulmão que não criava filho para viver enfurnado numa cozinha como  mulherzinha que parecia que era. - Você é homem, não é, ou eu estou enganado? Soluçando a pobre criança se desculpou com seu pai a quem jurou não voltar mais a bulir nas panelas daquela casa.   E assim ele fez.  Uma semana se passou sem que o menino pudesse ir à cozinha ou soubesse notícias da amiga uma vez que a comida passou a ser servida antes dele chegar.  Ao terminar uma de suas refeições o rapazinho decidiu voltar à cozinha, contrariando as ordens recebida, mas, infelizmente, não encontrou quem procurava.   – Cadê a cozinheira?, e a senhora, o que faz aqui?, perguntou à gorda que secava as mãos num avental que mal cobria a barriga. – Ela foi mandada embora, por isso seus pais me contrataram.
Com o tempo o rapazinho saiu de casa. Alugou no ponto mais chique da cidade um espaço onde ele e sua sócia, uma negra alta e magricela, inauguraram o melhor e o mais concorrido restaurante de que se teve notícia.