quarta-feira, 4 de maio de 2016

NÃO HÁ MAL QUE SEMPRE DURE...

      

      Pela janela, por onde vaza o frio que me faz agasalhar melhor o corpo, eu vejo o  tempo arrastando uma criança.  Esta pequena criatura não é outra senão o meu passado, ora envelhecido. Com eles também vejo outras pessoas que me lembram dos amigos pelos quais há muito  não tenho dormido uma noite toda. São pessoas amorosas, justas e apaixonantes que talvez já tenham se esquecido de mim.  Sempre que essas lembranças me vêm à cabeça eu chego à janela a espera de um deles tocar a campainha.  Mas qual. Jamais alguém tocou se não fosse por outros motivos.  Hoje, entretanto, depois que o tempo tentou levar, além da criança, a esperança, senti que um toque, não como um dedo no botão da campainha, mas u'a mão repousando no meu ombro, o que me fez voltar os olhos e chorar como menino.  No passado, eram esses caras a única coisa que eu tinha de valioso e agora, pelo que me parece, vinham me dar esporro pelo erro da partida.  – Não, cara – disse-me um deles – a gente não veio brigar com você porque motivos você nunca nos deu, mas para saber o por quê de ter sumido de nossa companhia.  A gente jamais aceitou a desculpa de ter dado um tempo para respirar novos ares e por mais que a gente o procurasse, encontrá-lo nos custou todos esses anos.   Não fosse a bendita Internet e estaríamos comemorando o seu aniversário a quilômetros desse lugar, como temos feito. Afinal, o que deu em você para sumir daqueles com quem você chorou algumas vezes dizendo que jamais nos deixaria? Você já respirou o ar que disse que precisava ou a nossa presença ainda o incomoda? Pelo menos posso ver que o ar da serra melhorou a sua pele, a cor do seu rosto ficou mais viva e até mais forte eu noto que você ficou.  Quando entrei eu achei que você não nos queria por aqui e se não fosse eu tê-lo tocado no ombro você nem nos olharia.  – Não amigos.  Eu não seria tão insensível a esse ponto, até porque, a porta da minha casa, como vocês podem ver, jamais deixei que se fechasse. Era como se eu soubesse que um dia vocês me encontrariam para que eu pudesse me desculpar.  Todos os dias eu olho através da janela para ver se o barco de velas brancas, que a gente comprou com tanto sacrifício, ancorava com vocês abordo, no deque, ali, de onde os barcos cheios de saudade que tenho de vocês, partem a cada instante.  
     Agora vocês me dão licença porque eu preciso fechar a casa ou vou me constipar, aliás, desde o dia em que o médico, a quem Deus confiou a minha vida, descobriu essa doença que veio na intenção de me matar, só agora, desde quando morava com vocês por perto, o santo homem me deu alta. E, se não for pedir de mais, amanhã eu desço o rio com vocês, e juntos, como há cinco anos não fazemos,  brindarei o meu aniversário com vocês.  Desta vez, com bolo, risos e guaraná.