sexta-feira, 13 de maio de 2016

AGNES DE MIM

      Quando a ovelha se perde do rebanho um pastor sai  para resgatá-la. Dificilmente outras a seguem a não ser que o rebanho estoure.  Normalmente a voz de comando as mantém juntas às vistas do líder.  Ficam agrupadas a espera daquele que todos os dias as conquista e a elas dá o caminho que seguem. Das arredias  o pastor reconhece cada detalhe, como tamanho das unhas,  falha no pelo e o tipo de lã que produz. E foi pensando no manejo com tais animais  que eu me lembrei de um acontecimento não tão recente, mas que perdura nas minhas lembranças. Trata-se de um amigo querido muitas vezes mencionado nesta página e por quem chorei sua dor.   Esse jovem amigo era usuário de drogas e como essa desgraça não tem cura eu sei que dependente ele continuará sendo a vida toda.  A luta que esse cara trava para manter-se longe do perigo é imensa e talvez por sua bravura e garra nessa batalha ele tenha se permitido internar numa clínica especializada onde se desintoxicou num espaço de seis meses. Essa gratidão ele tem para com os verdadeiros amigos e alguns familiares que sofreram com ele cada dor que sentiu.  Muitas vezes quando busquei por notícias dele a família e os que o conheciam falavam horrores a seu respeito. Os sogros brigavam com a filha para que abandonasse o marido viciado, mas ela jamais se dobrou aos pais. A sua fidelidade ajudou em muito na cura que a gente espera. Enquanto isso aqueles que se diziam amigos o desprezavam e alguns passaram a discriminá-lo apontando o dedo. Fraco, viciado e vagabundo eram os títulos a ele atribuídos, mesmo sabendo que isso ele não era além de doente. Em tempo algum eu deixei de acreditar na recuperação desse menino. Em nenhum momento eu deixei de pedir que reconhecessem naquele amigo a doença que tem.  flagela, degrada e mata ou pelo menos o enxergassem com os olhos do pastor quando vê uma ovelha desgarrar do bando. Pedi aos seus sogros, a sua mãe e a seus outros amigos, inclusive a sua esposa e filho que tivessem dó de sua dor. Pedi que o ajudassem de alguma forma, pois fazer o que se pode não seria suficiente.  Divino é fazer o que ninguém acredita que é  possível. O tempo passou sem que eu me desse conta e se não fosse o alarme de um carro disparando e eu ainda estaria pensando nas ovelhas e no meu amigo, antes, desgarrados.