terça-feira, 26 de abril de 2016

VELHOS TEMPOS, VELHOS DIAS...

   
       
     Todas as noite eu refaço os caminhos que percorri durante o dia. Revejo as palavras que proferi, os conselhos que me atrevi a dar e até os que ouvi e me deixaram pensativo. De todas as lembranças a que mais me emociona é a que tenho das senhoras com quem deitei na minha juventude e olha que não foi só com as que dão o corpo em troca de dinheiro, mas também com artistas de teatro e algumas de tevê, com senhoras que se diziam bem casadas e com as carentes como as que eu espreitava nos melhores restaurantes, nos clubes da Barra e da zona sul enquanto seus maridos selecionavam os melhores vinhos da carta, jogavam tênis ou as esqueciam tomando drinque à beira da piscina.  Não era difícil despertar nessas mulheres o interesse pela fantasia. Muitas vezes me sentei a mesa dessa gente para comer da sua comida, beber da sua bebida e me deitar na cama que não era minha. Tantos foram os momentos que menti sobre a minha origem, o meu grau de parentesco com famosos e até quanto ao lugar em que eu morava. Jamais falei do salário de miséria que eu recebia no final de cada mês e do vômito que essas mentiras me causam.  Menti quanto a minha exiguidade por não procurá-las para chorar minhas pitangas, mas para lhes dar o apoio que eu fingia ser capaz.  No meu ombro várias choraram suas mazelas, xingaram os que as exploravam ao passo que outras agradeciam a sorte de me conhecer.  Ora, eu não era nada além de um jovem carente de companhia e de sexo, mas nada além disso,  e já que eu podia escolher o lugar onde procurar, por que não procurar por alguém na alta sociedade mesmo reconhecendo a maldade que eu fazia com isso? Nem sempre, como eu disse, tive alguém tão importante na cama comigo, mas depois de alguns goles, todas se pareciam.  Passei momentos deliciosos com mulheres que ostentavam e não tão ruins com as de poucos recursos. Para cada uma eu era o que buscavam. Para uma eu era um romântico ofertando flores e para outras um cafajeste de forte pegada. E por fim, o tempo e seus mistérios.  O tempo que de velhice nos mata a todos, menos as lembranças que deixa enquanto passa dizendo para eu viver o que resta da minha vida ou logo serei uma simples tatuagem na memória dos que me conhecem.