quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

SENHOR SABE TUDO.

   
     Concluir os estudos de psicologia, fazer pós e mestrado era a intenção que eu tinha, pois assim eu saberia entender os fricotes dos que se dizem racionais.  Eu era um jovem ambicioso e mesmo que me sustentasse na classe média da sociedade, só isso não me bastava. Eu queria mais, queria ir além dos passos que as minhas pernas pudessem dar.  Eu  queria estudar, entender a crença dos povos, educar os que buscam saber além dos livros, enfim, eu queria desequilibrar o mundo. E foi assim, quando eu achava que sabia tudo,  entendia de tudo e nada mais podia confundir as cores do meu juízo que você me apareceu. Veio ligeiro como vem os ursos procurando o mel, e foi assim, chegou vazia de resposta, mas com um baú repleto de perguntas para me oferecer. Muito poucas ou quase nenhuma eu soube responder, principalmente quando quis saber de mim, e por que teria ela gostado de um cara tão estranho quanto eu? Ela jamais teve essa resposta.
    De todos os tiros que eu dei num alvo de madeira o que marcou mais na minha vida foi o que eu dei no pé. Não no pé de qualquer pessoa, mas no meu.
    Bastava deitar meu par de olhos caramelados sobre uma pessoa para que eu soubesse  quem ela era.  Não  precisava um dedo de prosa ou que me respondesse qualquer pergunta, e muito menos seria preciso me dizer qualquer palavra. Não, não havia a necessidade de conversar sobre coisa alguma ou mesmo ouvir-lhe a voz.  Bastava o jeito como se comportava, os gestos que fazia e a posição dos olhos com relação ao que via.  Depois era só eu olhar o jeito de como caminhava, falava e o que diziam as palavras proferidas.  Eu, definitivamente já não respondia as minhas próprias perguntas, não decifrava o que os meus olhos viam e muito menos distinguia o bem do péssimo, o morno do gelado e a noite das manhãs.  Tudo mudou com a chegada dessa pessoa que veio sem trazer nada que pudesse me oferecer.  Veio ansiando levar consigo o que eu levei tempo para aprender.  E conseguiu. Não só ficou sabendo de graça o que eu paguei com dinheiro e com tempo para aprender, como levou com ela a sede dos meus desejos.  Levou as minhas lembranças, os meus melhores sonhos e a saudade dos nossos momentos. E para não dizer que foi injusta com quem disse que gostou tanto, deixou comigo a saudade que eu tenho dela e os pesadelos que eu tinha até conhecê-la.