sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

ACIMA DOS SEUS OLHOS.

        -Disfarça, ergas o nariz para o céu e me verás brincando de roda por entre os falcões, em meio as águias, cercado de condores. Deixa a vaidade de lado e procure me vir desenhar seu nome a 200 km nesse céu de brigadeiro. Por detrás dos óculos embaçados da vertigem eu não distinguo se alguém, em especial está a minha espera, da mesma maneira que já não sinto o desprezível cheiro de querosene que até ha pouco nos sustentava os motores.  Durante a queda, bem que eu gostaria de dizer o que sinto por você, mas não posso. Aliás ninguém pode falar ou ouvir nada quando se despenca avião abaixo. Fora essa adrenalina pipocando com ameças de explodir as minhas veias.
Na altura aonde os condores esvoaçam, o medo não me mete medo, e nem que a minha falta de sorte me levasse à morte eu morreria, a não ser que não me fosse possível te ver roendo as unas de nervoso, temendo por minha vida. Despenco do pássaro de aço, como dizem os caiapós, dali, de bem pertinho da casa aonde as estrelas moram. Enquanto isso a pressão faz doer minha cabeça, mas a tua indiferença a tem feito doer muito mais.
       De repente o rádio nos avisa que estamos a 15 mil pés sobre um mar tão azul que parece espelhar o céu, porém a minha ansiedade me garante que estamos mais para o céu que para a terra.
      Do alto, nesse infinito tão bonito, não consigo, por mais que eu pretenda, ver a menina que se espreita atrás do amor que nega.  Nega até que um piloto venha cortar os motores por sobre sua cabeça e os seus olhos a desmintam procurando pelo meu velame. 
O nervosismo que dita ordem é o mesmo que esconde a coragem, arrepia a minha pele e num salto, não menos audacioso, me joga para o meu próprio interior, para dentro dos meus sonhos esperançosos.
      Um minuto de  queda livre para mim não é nada, mas representa uma eternidade para todo mundo já que pode me custar a vida, se valor ela tivesse. 
Momentos finais dessa loucura. Não o vento zunindo em meus ouvidos eu certamente perderia os sentidos. Fico alerta, vivo, fico esperto para aos 2.500 pés comandar as minhas nove células que se abrirão, pelo menos eu assim espero, como pétalas coloridas sobre mim.  Faço um giro sinuoso, abro  as pernas e ataco o vento. Avanço fechando o cone em direção do objetivo, mas quando os meus olhos a encontram afastada dos que me aplaudem, faço uma curva ligeira, puxo os batoques um pouco mais fundo e, como num passe de mágica, pairo no ar como os beija-flores, na sua frente, pronto para ganhar um abraço e os beijos que ela pudesse me dar.