sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

QUANDO EU ERA GRANDE...

   
     A
h,  que saudade eu tenho da casa dos meus pais. Lá, se a política ia bem ou ia mal, não fazia para nós, crianças, a menor diferença. Principalmente se na hora do almoço e do jantar os pratos estivessem cheios, e quanto sobrava alguns trocados para o cinema nos finais de semana então, aí a gente agradecia a Deus e ao governo, mas do esforço dos nossos velhos ninguém se lembrava por acharmos que Deus e a política faziam dos pais da gente as pessoas maravilhosas  das quais tanto nos orgulhávamos.  Infelizmente só com o tempo a gente reconhece essas verdades.        Quando a dispensa da casa de uma família está completa as pessoas ignoram até o nome do presidente, que dirá o nome do ladrão que roubou os anéis de Saturno.    
   Quando se é adulto, tudo é problema da gente. Se o País vai mal, fui eu quem escolheu a corja para me governar. Se não tem comida suficiente nas minhas prateleiras,  se as minhas roupas e as da minha família estão surradas, não temos ido aos museus, aos teatros e ao cinema é porque me acomodei com o pouco que conseguia com o quase nada que eu aprendi fazer, mas ter um sol só para mim, meu Deus, isso jamais fez parte dos meus planos desde que meus pais se foram de nossas vidas.  Meus velhos queriam que eu estudasse para não cair na besteira de tentar a vida pública, mas estudar foi a maior mancada que eles me obrigaram a dar, pois, sem estudo, burro do jeito que eu era talvez eu conseguisse uma vaga na assembleia, na câmara ou no senado. Com certeza eu ia encher a burra de  arrogância e de dinheiro e para não demonstrar ser o que de verdade seria, eu distribuiria,  para os mais necessitados, um dedo do meu sorriso, uma nuvem de fumaça do meu charuto, um pouco de poeira levantada pela minha limusine e a musicalidades dos meus aviões passando por sobre suas cabeças sorridentes.
    Mas como nem tudo é como se almeja, vou vivendo a vida que Deus me permitiu.  Durante o dia eu pago os meus gastos para gastar a noite tudo aquilo que paguei. 
- Se papai estivesse vivo talvez me mandasse dormir mais cedo evitando  gastar o que choro na hora vou  pagar.