quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

DE VOLTA PRA CASA...

    As festas de fim de ano acabaram e como do carnaval ainda não se ouve o som da bateria, é preciso que esqueçamos tudo e voltemos ao dia a dia de nossas casas.  As malas já estão no carro. No rosto da tia a tristeza da despedida e no da sobrinha a lágrima ligeira do adeus. Depois de haver-se acomodado a mocinha acenou à sua tia até que o táxi sumisse às suas vistas. A senhora deixou o corpo arriar na poltrona mais próxima e entre lágrimas e soluços se entregou às lembranças do quão importante foi a presença da garota na história de sua vida.  Será que ela se esquecerá dos riscos que corremos quando, numa noite chuvosa, a gente se enfurnou na mesma cama para fugir ao ronco do trovão e aos perigos que os raios nos ofereciam? E do amor que eu dei a ela, dos beijos no canto da boca, dos carinhos no botão dos seus sentidos sobre a blusa fina de dormir. Será que disso também ela se esqueceria? Pode ser que sim, como pode ser que não, mas no meu caso eu jamais deixaria de me lembrar. Bastará o céu se cobrir de pesadas nuvens, talvez nem precisem ser tão escuras, para eu me jogar na cama e chorar a dúvida de não saber o que faz essa mulher, que tem jeito e cheiro de menina, longe dos meus olhos, dos meus toques e dos meus desejos. Assim concluiu uma belíssima mulher que na flor dos seus 30 anos foi morar numa casa debruçada sobre o mar para chorar a morte prematura do marido. Jamais ela pensou que pudesse sentir por uma mulher o amor que sentia agora e logo por uma adolescente e o pior é que ela é filha do seu irmão. 
Para aliviar um pouco a sua angústia e provar que Deus existe, sua cunhada ligou dizendo que a filha chegou muito bem e que não falava em outra coisa senão passar o carnaval na casa da tia. Demonstrando um certo constrangimento a cunhada perguntou se tinha importância mandar a menina de volta no mês seguinte para curtir as festas de momo, pelo menos serviria de companhia a quem se entregou a solidão depois da morte do marido.