quinta-feira, 26 de novembro de 2015

FLORES DE VERÃO...

Eu tenho mostrado  um belo campo de flores silvestres, u'a mata de tons diferentes
de verde,  casas de traços rústicos, barrocos e modernos, com os olhos da minha sacada e as vezes da janela envidraçada com que a transparência nos permite.  Dessa maneira eu posso, como você pode, vir a dama da noite desabrochar suas flores, todas de uma vez, no próprio nascedouro, ali, a passos do meu nariz. A magia se faz ao anoitecer concluindo a metamorfose no meio da madrugada. Alguns anos têm passando, mas desde a minha chegada à casa onde moro, em verão nenhum o cacto deixou de mandar convites para que eu assistisse o parto de suas filhas. Como que por encanto  o perfume da planta, depois de se arrastar por entre obstáculos de espinhos e esquivar-se das flechas das estrelas, ainda  permeia a redondeza, invade meu quarto e me leva para olhar a festa.  Em todos os verões a coisa se repete,  mas dessa vez tinha de ser diferente.  A planta que enfeitava a noite, os dias e as madrugadas, abortou uma de suas filhas. Talvez, quem sabe, se a sorte lhe aplaudisse a vida, viesse a ser ela a mais bela das que floriram.  Quem sabe não foi a mãe que, para contrariar a natureza, deu a luz da lua à suas filhas numa estação que não era a delas, época em que nascem as rosas e as tulipas, as orquídeas e as bromélias.  Agora, por mais claros que se tornem os dias e faça da minha vista a mais bela de todas as sacadas e janelas, os meus dias não terão a mesma cor, o mesmo perfume e a mesma alegria porque ela não vai ornamentar a vida de quem esperava naquela flor a humildade que falta ao mundo e mesmo habitando um castelo de sonhos, como se sabia, vivia debruçada no beiral de um vaso envidraçado, pelo menos em nossa imaginação.
Por muitos e muitos anos o jardineiro não precisará regar suas plantas, como nasceu para fazê-lo, já que todas vingarão com o orvalho que as viçarão, não criados pela madrugada como vem sendo feito desde o surgimento das espécies, mas do pranto que o jardim, por um todo,
 chorará com sua falta, ou com a incógnita que me atormenta desvendar.

sábado, 21 de novembro de 2015

MISTURANDO AS COISAS...

           
      Pare e limpe as lentes para que possas enxergar a natureza com o mesmo olhar dos  linces das montanhas. Sorria,  ofereça um abraço, demonstre estar em paz com a vida e com o que existe nela.  Faça perguntas, puxe assunto, e se não tiveres a quem dirigir a palavra fale com o primeiro animal que cruzar o teu caminho, porque, se ele não te entender, ninguém, jamais, te entenderá.  Fale com as plantas ou fale sozinho a respeito daquilo que veem os teus olhos.  Dê bom-dia ao dia antes que escureça para depois te empertigar na passagem das estrelas.  Tente lembrar o nome de alguém que um dia  te pediu ajuda, mas por falta de tempo ou por infantilidade, tu não o atendeste. Tenta te lembrar do dia em que, muitas vezes  tu choraste e das poucas vezes que sorriste. Faças um exame de consciência e vês se te lembras de um momento, no passado distante, quando alguém, mesmo sem se dar conta do que fazia te tirou do marasmo, do ócio, quem sabe, do vício.  E sem esperar por qualquer tipo de agradecimento, te ofereceu um trabalho, um abrigo, e depois de ter te dado a mão,  ofereceu para ti um abraço, um sorriso e o nome do qual tu tanto te orgulhas.  Portanto, meu caro, ria das piadas que te contarem, ria mais da vida se tiveres motivo ou gargalhe, mesmo que não os tenhas. Não te escondas nunca, nem mesmo quando tiveres medo. Enfrenta os teus fantasmas e chores se não der para segurar, já que o choro tem nas lágrimas o poder da cura.  Eu sei que o pranto que te incha os olhos, umedece a tua face, é o mesmo que cria em quem te pegar chorando a dúvida; se choras de tristeza ou de alegria. Viva a vida intensamente da maneira que tu quiseres, souberes ou puderes.  Dance a língua em torno da taça. Lambas os próprios lábios adormecidos pelo sabor gelado do creme de fruta madura, e antes que a língua perca a sensibilidade junto a essa guloseima, lamba as escorridas gotas para  não perdê-las ao vento.  E, na dúvida, se quiseres saber do que eu trato, lambas de vagar a vida, pelo meio, pelas bordas, por cima e por baixo, mas se, nem com isso te deres conta do que eu trato, vires a cabeça de lado e te delicies com as larvas escorridas no raso cone acasquinhado do melhor sabor com o qual te delicias, pois dele terás o melhor bocado.  Sintas, pois, o frescor das manhãs com os cabelos expostos à língua do vento, vivas  sem pressa, lambas as sobras adocicadas das madrugadas, já que o tempo com sua voracidade provoca tontura com o giro que dá ao mundo. Tires folga por um dia ou por duas, três vezes por semana. Pegue os velhos e as crianças e vai passear, vá à praia, corras na areia ou subas à serra para orvalhar tua alma por cima.  Só não te deixes ficar aonde o individualismo for lei, a indiferença for a ordem do dia e o preconceito fizer em ti sua morada.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

DEU RUIN!

Estava morto de vontade de falar sobre a tragédia que ocorreu na frança, 
mas achei melhor, não. Antes, talvez, eu devesse falar de Mariana, em Minas, mas também não seria justo com os que fogem de seus países por conta de uma guerra que os jornalistas teimam em chamar de santa.  Pensei muito antes de concluir que se eu pendurasse a bandeira do Brasil entre as de Minas Gerais e a da França estivesse agindo com o coração e com a razão, mas alguém, para me contrariar,  poderia perguntar por que pendurar três bandeiras se o Oriente médio e a África também choram o êxodo de sua gente? Então, quem sabe, não seria melhor, ao invés de pendurar essas bandeiras eu pusesse a foto de uma pomba branca  encabeçando um dos meus artigos que falasse de paz?  Fico triste só de imaginar que alguém poderia me questionar quanto a cor branca do bicho. Talvez se referindo a outras como cor de confusão e não de paz como a branca, que escolhemos.  E para evitar possíveis aborrecimentos, decidi por  colocar uma foto bem grande de um   urubu que, até onde eu sei, é favorável à raça humana e pode ser encontrado em qualquer parte do mundo.  Assim, penso eu, ninguém me acusaria de racismo, a não serem os vascaínos que podem até me taxarem de bairrista. E, por fim, achei melhor não falar nada durante esses dias conturbados, até porque, graças a Deus o pessoal que vem à minha página é laico e se pudesse aproveitar o termo eu também diria que não só de religião, mas também de clubes de futebol, de sexo e de poder aquisitivo, caso contrário eu nem explicação estaria dando aos amigos que de vez em quando esbarram comigo entre uma 
frase e outra no meu ou do blog deles.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DESCUIDO OU SACANAGEM?

Chegou arrastando pela mão o filho que chorava a morte de sua mãe enquanto ele 
chorava  a perda da companheira.  Fora ela uma boa filha, mas depois que se casou ficou melhor e ia melhorando a cada dia, não por mera vaidade, mas para se achar digna quando fosse  chamada de mãe. A moça era de uma doçura tão intensa que até nas santas causava inveja. 
Antes do homem chegar com seu filho, um forte tremor no solo jogara por terra a maior parte do que o ser humano havia construído. O fato teria acontecido num passado não muito distante e hoje, infelizmente, o pesadelo voltou a ser sonhado. Algumas cidades do Rio sofreram e ainda sofrem com a interferência da natureza e outras, em outro Estado, perderam parte de suas riquezas e dos seus moradores com o volume de chuva na cabeceira dos rios que fazia tempo vinham secando.  Primeiro foi Santa Catarina com um mar de lama descendo morro abaixo até destruir o que viu pela frente. Depois foi Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, e agora, com a ajuda da falta de sorte e do mal gerenciamento, Bento Rodrigues, um sub distrito de Mariana no sul de Minas, vê seu povo chorar a perda de parentes, amigos e vizinhos,  vitimados pelo rompimento das barragens do Fundão e de Santarém que deixaram sem teto e desprotegidos aqueles que sobreviveram. Entre os que nos deixaram estava Dorvê, como gostava de ser chamada.  Ela era uma bela mulher que nasceu para ser mãe e esposa amantíssima, porém partiu do nosso meio sem avisar ao marido a quem tanto amava e ao filho, razão da sua bondade.  Dorvê fez molhar os olhos da família e de quem tomou conhecimento de sua história. Os três não eram a santa trindade, mas também não deixavam de sofrer com a dor alheia e sorrirem quando a alegria era geral.  No momento  estamos nós  curtindo um luto que não era para ser curtido com o sofrimento e a morte prematura dessa gente, haja vista que alguns perderam a casa, outros perderam o trabalho, as referências ou  perderam tudo como se ficou sabendo.  Eu não tenho como deixar minha casa para oferecer ajuda além das preces que tem vez me pego rezando, caso contrário estaria agora em Mariana oferecendo minha mão, como a mim me ofereceram em 2011, na minha cidade.  Naquela oportunidade  eu fui um dos poucos que não precisou, até pelo contrário, eu, a minha mulher e a minha filha, deixamos a nossa cama, a nossa dispensa, a nossa luz e a nossa água a disposição dos mais necessitados e para minha alegria e a de  todos da minha família, a gente foi útil a quem precisou.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A SOGRA E O GENRO MALVADO.

      Alessandra viajou para ver a mãe galgar seu último degrau de vida.   A moça, sem poder se afastar do serviço, deu seu jeito e zarpou para São Paulo. Levava com ela perguntas com as quais viveu a vida inteira se questionando. Infelizmente a velha foi cremada para evitar contágio da doença. Fora de si e blasfemando contra o criador, Alessandra voltou à casa antes do previsto. Atordoada mal percebia que fios de cabelo, não os seus, impediam o escoamento da água no ralo do banheiro. Eram longos fios loiros longe de serem os seus.  Correu ao quarto onde encontrou outros na cabeceira da cama. Com a mesma facilidade com que trocava um vestido a mulher trocou a tristeza pelo ódio do seu marido. Ficou brava, zangada, desesperada, com a traição.  Foi ao quarto da empregada que tinha sido dispensada em função da crise e ali ficou até que ele voltasse.  Chegou com uma garrafa de champanhe e um largo sorriso como quem chega à uma festa.
     Ela desesperada com a perda da mãe e o marido festejando sabe-se lá o quê!
     Se ela não tivesse esquecido a bolsa na sala o cara não teria dado sua presença.  Ao vê-la o cara empalideceu, parecia que ia ter um troço.  Ela, por sua vez, não estava nem aí para o estado do sujeito. Meteu o dedo na cara dele e foi gritando; - qual a piranha que você trouxe pra minha casa e que usou e abusou das minhas coisas e ainda por cima deixou na minha cama seus cabelos nojentos? Quem foi que se lavou no meu banheiro e entupiu o ralo de pentelho louro, hein, seu canalha, fala! - Ninguém, meu amor, respondeu na mesma hora que soava a campainha.  Alessandra empurrou o marido para o lado e correu para ver quem era.  Era o porteiro que não conseguindo falar com o morador, subiu para saber se a loira que procurava por ele podia subir ou não.  - Mas é claro que pode!, gritou Alessandra empertigada.  Só não diga que estou aqui ou ela não sobe - concluiu Alessandra. O marido queria morrer ao ver as duas cara a cara, e quase conseguiu de tanto que chorava ao passo que Alessandra parecia pronta para receber a tal piranha que, por acaso,  não deu as caras. Na certeza de que o porteiro havia contornado a situação, o marido mudando de estratégia partiu para a ignorância. Chamou a mulher de fria, de má companheira e que  não prestava para nada além do emprego que tinha. Nem para visitar sua mãe doente você achava tempo - disse olhando dentro dos olhos daquela que fora de si respondeu com uma certeira bofetada.  O covarde  retrucou com outra e mais outra e outras tantas até que a mulher desfaleceu.
Anos mais tarde Alessandra, que deixou o apartamento e foi morar na casa que sua mãe deixou, leu numa coluna que um rapaz com a mesma idade e nome do seu ex-marido era candidatando a prefeitura da cidade em que antes moraram. O tipo não era estranho, mas o nome e a idade davam a ela a certeza de que o candidato em questão era mesmo o seu antigo marido. As dores que sofreu com os socos, os pontapés e a traição agora doíam na sua alma. Refeita do golpe que recebeu com a notícia trocou de roupa, muniu-se do exame de corpo de delito de quando foi agredida e partiu para o jornal  onde fez seu desabafo. Assim que a sua história e a imagem do seu rosto deformado foram publicadas foi que Alessandra teve a certeza que a ferida que tinha no corpo e na alma finalmente iam cicatrizar.
A propósito; o candidato recebeu os votos necessários para ficar em último lugar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

O ÚLTIMO SOLUÇO.

     
      Fechado no quarto escuro da solidão eu nem me dei conta da algazarra das crianças no quintal da minha casa, dos passarinhos em revoada em torno da amoreira e do sol escancarando aquele sorrisão aos súditos de pele bronzeada.  Tem coisa que a gente faz sem pensar nas consequências, já que a gente vive a vida que a gente quer e quando não se quer nada, nada se faz ou deixa alguém fazer para mudar.  O sujeito que deseja um braço forte precisa trabalhá-lo para tê-lo próximo do ideal. Se deseja uma saúde invejável precisa se resguardar das intempéries e tratar o corpo como quem trata uma criança.  Mas se queres mantê-lo do jeito que o vens mantendo, então não faças nada, senta-te a bunda na beirada do caminho em que estás andando e esperes a banda do Chico passar porque com ela os teus sonhos certamente passarão. Foi com este pensamento que eu escancarei as janelas da minha tristeza e abri as portas à nova vida. A vida do riso e da boa companhia, da alegria e do bom papo.  E fiz tudo isso sem culpa e sem remorso, sem pena, medo ou receio.  Hoje o meu time voltou a perder como vem perdendo ao longos dos últimos cinco jogos, mas tu queres saber de uma coisa; que se dane, porque a vaidade da vitória não vai me levar a lugar nenhum, como a derrota, que além da incarnação que sofrerei dos torcedores adversários cujos times também não estão lá essas coisas, nada acontecerá contra ou a meu favor. Portanto, fod#a-se o mundo porque não me chamo Raimundo.  Agora me dão licença porque vou passar um espanador na minha cara, escovar os macacos que andam soltos por aí e se a vizinha me permitir eu vou lavar o seu cachorro. Tudo isso sem uma gota de remorso, um pingo de choro ou um toco de vela.
    Bola pra frente que a manhã tem jogo de bola na televisão e a buludinha não dorme sem a minha companhia.
Beijos.