sexta-feira, 30 de outubro de 2015

NÃO SE PERDE NADA QUANDO NADA SE TEM.

Eu não tinha feito nada para merecer aquela mão macia no meu ombro, mas entendia 
a intenção de quem tentava me consolar. Talvez aquele gesto fosse o mais importante dos votos que recebi naquele dia. Eram longos os dedos que apertavam o meu ombro e o fazia de uma forma tão suave que me lembrava um felino transportando a cria para socorrê-la. Nem uma palavra além do gesto, a não ser o olhar soturno por detrás dos óculos e o franzir dos lábios demonstrando o sentimento. Isso era tudo o que me permitia ficar sabendo. Nada eu fiz ou por mim fizeram para merecer a preocupação que tinham comigo.  O que a fatalidade estava me tomando, segundo muitos discordavam, não fez ou fará falta no futuro, até porque, eu nada tinha ou tive que não pudesse ser perdido. Portanto, quem nada tem, não tem o que perder. Vou tentar se mais explícito; eu vivi a metade da minha vida lutando pelo amor da minha família. Eu precisava que ela me amasse, me admirasse ou simplesmente me respeitasse. Era fundamental para mim, até aquela idade, que a minha presença fosse notada ou percebida se eu não estivesse com eles nos momentos cruciais. Só muitos anos depois eu percebi   que nada do que eu desejava acontecia. Aí, resolvi deixar a vida me levar. E foi assim, sendo eu mesmo, que as coisas, aos poucos, começaram a fluir.  Passei a ser olhado com olhos ardentes por quem me achava um garanhão. Fui respeitado como o Diabo e questionado como são os anjos. Fui senhor dos cacos que eu consegui juntar de mim, pastor, dos amigos desgarrados, padroeiro das mulheres crucificadas e fiel amigo daqueles que, por tantos anos, me traiam.  Eu não era desgraçado ou infeliz, mas alguém que não cheirava e não fedia. E foi assim, desse maneira, que eu vi a saudade ser trancada numa caixa, resguardada da chuva e dos olhos do mundo, menos dos que acham que não vão senti-la.
(Foto da Internet)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ÚLTIMA GARGALHADA.

No fim de cada espetáculo o teatro cerra as cortinas e depois de trocar comentários 
o povo segue seu caminho. Quando o contrato com a companhia chega ao fim, não só as cortinas como as portas se fecham por tempo indefinido até que uma nova proposta as abra à mídia impiedosa e à exigência do público de gosto duvidoso.  Com as mãos nas costa um impetuoso pseudo, mas vibrante,  diretor vasculha com seu olhar o teto e os arredores. O espaço parece bom, diz ele, franzindo o senho. De tudo, só o preço não me agrada - conclui o moço assinando a papelada.  Dias depois serão os ensaios varando a madrugada como vem acontecendo desde os templos romanos.  Mais tarde tudo volta a ser como era antes, como é agora, e como sempre haverá de ser por debaixo da lona de cada arena, por sobre a serragem dos improváveis picadeiros e dos ricos tablados mundo afora. Três espaçadas batidas serão dadas na madeira  e tão logo a terceira se ouça, as cortinas subirão.  Depois virão os abraços e os que buscam tirar uma Self, sem se importarem com os idiotas que vaiam sem saber por quê.
Hoje, do alto da minha ingenuidade me certifico de que jamais nos será dada a oportunidade de sorrir ou de chorar com novas cenas se ensurdecemos para o alvoroço dos ensaios, para os gritos de ordem dos diretores nervosos e à algazarra dos atores no final de cada dia, noite, madrugada. Os pitis dos atores que precocemente atingiram o estrelato e da banda que ao caírem as cortinas toca o seu último acorde, também a isso ensurdecemos.    Nenhum diretor, por mais genial ou maluco que tenha se tornado tentará decifrar os segredos da natureza escancarando as portas do templo para onde foi levado, no bojo do sarcófago dos imortais, alguém, cuja vida eternizou em nossas lembranças. Ela se foi levando consigo o sorriso do medo e da trágica comédia, só não levou os cartazes colados em nossas lembranças. 
M E R D A!
Mesmo que o teatro não mais nos abra as portas para o riso, por simples que seja.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUANTO TEMPO VIVE UMA FLOR?

Não é somente a natureza que se prepara à chegada das estações, mas também o 
comércio com seus fregueses renitentes e a indústria para dar suporte.  Em todo o mundo a coisa flui dessa maneira, menos no hemisfério em que vivemos.  Aqui a gente  sua no inverno e perde no outono a plantação.  Tem queimada no norte e no nordeste e no sul inundação.  Aqui também se morre sem ficar doente e ao ingerir o que garantem fazer bem para a saúde. Nas capitais não têm remédio quando adoecemos, mas se têm não há quem possa ministrá-lo.  Nos hospitais não existe leito para novos enfermos e médico para diagnosticar o mal que poderá matá-lo, e quando o sujeito insiste em querer morrer, aí, quem torce o rabo não é mais a porca, mas tu, que ficaste orando por sua melhora. É assim que as coisas têm sido nestas terras brasileiras onde se morre a todo instante; morre-se por falta disso ou por excesso daquilo. Morre-se por falta de água em São Paulo e por enchente em Porto Alegre. Morre-se pela doença contraída, pela indignação quanto a administração do país e também de tristeza ou de vergonha. Em um desses dias, por exemplo, eu movi o mundo sem que a mim fosse dado o direito de usar a hipotética alavanca e o tal ponto fixo no espaço. Mesmo assim não consegui falar com Deus, com os santos ou com qualquer anjo que me quisesse ouvir.  Desesperado arrisquei  fazer um  acordo com o diabo, mas infelizmente o PT não tinha espaço em sua agenda. Como nada mais tinha que eu pudesse fazer, arrebanhei meus amigos e fomos rezar na intenção de uma flor que há muitos e muitos anos teimou desabrochar no cair da noite por achar que agindo dessa maneira não perderia as suas pétalas o viço da bondade e o colorido da generosidade.  É bom que se frise que ela fez isso somente depois de de ter mostrado para quê e por quê veio, como se fosse preciso dizer ao sol que o dia sem ele é descolorido. Talvez esse detalhe tivesse criado naquela flor a essência com a qual perfumou o jardim onde viveu seu quase centenário.  Nossos amigos que ora lamentam a imagem do caule que antes vergava e não quebrava, umedecem seus olhos ao vê-la dobrar de dentro para fora num  jarro de vidro esquecido num canto de mesa, ao passo que pétalas, várias, diversas, milhares, lutam para não secar, não perder a cor o que as impossibilitaria de exalar o perfume que as manterão vivas, bem vivas em nossas lembranças. 
O dia, hoje, amanheceu sem sol. As flores caladas, sem um comentário, nem mesmo sobre a própria beleza como se de luto todas se vestissem.  No alto dos galhos, destoando da verdade, a brisa rege o balé das folhas e de vez em quando me traz o perfume de um botão desabrochando. Aroma esse que me fez lembrar de uma flor que continua linda no vaso das minhas memórias, por mais que o tempo venha a passar...

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VESTIDA DE BRANCO.

Talvez eu desejasse falar das flores atapetando o campo, do mar refletindo o azul do 
céu e da intenção da cascata em amolecer as pedras que a formam, mas não.  O que eu mais queria, na  verdade, era saber dizer o que eu sinto quando ela me vê chegando em casa. As vezes o cansaço me curva as costas e o suor me desfigura a cara, mas nem isso é suficiente para me prostrar se eu sei que ela entra em convulsão só de me ver na sua frente. Aí eu paro, respiro, boto nas fuças o melhor dos meus sorrisos e entro para abraçá-la.  Só de vê-la me arrepio de cabo a rabo enquanto ela, perdigueira como são as mulheres, se mexe, remexe, torce e contorce num branco de doer os olhos, só para me enfeitiçar.   Tem momento que a sua meiguice me leva a refletir sobre a humanidade. Meus Deus, como alguém pode amar dessa maneira num mundo hostil como esse? Eu não me refiro ao amor que ela demonstra ter a mim,  mas ao que ela dispensa aos que a cercam.  Nesse momento eu vejo como o ser humano é mesquinho com relação aos seus próprios sentimentos.  Ela, no entanto, em momento algum fez jogo para ter de mim algo que não fosse sentimental e quando eu me lembro disso, juro, me dá um vontade tão grande de chorar que só de falar me molham os olhos.  
Eu, como todos os homens, já tive amores relevantes e até um de verdade eu sei que morou no meu peito, mas igual ao que ela demonstra ter por mim, não. Não tive.  Não tive e sei que jamais terei depois desse. Talvez você já tenha sentido doer a boca por conta de um sorriso largo e demorado, mas só quem sorriu a ponto de perder o fôlego sabe do que estou falando. A gente fica com cara e jeito de bobo na frente de qualquer pessoa e nem nos tocamos do mico que a gente paga. Tem vez que eu penso que o amor, esse, cujo tamanho desconheço, ainda vai acabar comigo ou com ela, porque, como diz o ditado; água demais mata a planta.
São 17h e já me preparo para sair como tenho feito por conta dos compromissos, mas antes que eu pense em procurá-la para o beijo de até logo, lá está ela de branco no alto da escada achando que vai comigo. Aí não tem coração que aquenta. Pego algumas sacolas para possíveis eventualidades e entre várias guias escolho a mais bonita para os dois, eu e ela, sairmos ao encontro da mãe que jamais se envergonhou, até pelo contrário, se honra em ter uma poodle branquinha como filha. 

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

PONTO DE CRUZ.

Clodovil Ernandes apresentou ao público brasileiro um jovem
cantor americano de voz  aveludada e que no futuro, a partir daquele momento, iria comover os mais apaixonados. Foi Clodovil, a primeira pessoa de quem ouvi falar de Groban, um cantor que tinha na voz o compromisso das cigarras e na interpretação a beleza dos rouxinóis.  Mal  terminara o programa que Clodovil mantinha na TV e  seus telespectadores, uma legião de admiradores e amigos, fazia fila em busca do CD que por sinal ainda não tinha chegado às lojas. Outras filas se formariam diante da bilheteria dos cinemas para ver em "Cinema Paradiso" Groban cantar a beleza de que Clodovil tanto falava. Depois do que  disse o apresentador daquele intérprete, o mundo nunca mais foi o mesmo. O amor se esparramou por entre nós e a vida se tornou melhor.    Josh Groban foi o melhor presente que Clodovil nos deixou depois da coragem que teve ao declinar sobre a sua homossexualidade, segredo guardado até quase completar sessenta anos de idade.  Ninguém tinha dúvidas quando a sua orientação sexual, mas esse gesto fez dele porta-bandeira da militância. Um homem de vida pública com passaporte à mídia a qualquer tempo poderia ter erguido essa bandeira  bem antes em defesa dos seus iguais e como homem de imprensa podia ter aberto um espaço no seu programa para dar voz aos que não tinham como têm agora. Mas ele não o fez.  Talvez por conta dos seus fantasmas que arrastavam pesadas correntes por sobre um assoalho corroído pelo tempo e também por medo de perder o público que amava, o que foi provado, jamais aconteceria.    Hoje em dia as revistas e os jornais, volta e meia, homenageiam o apresentador e artista da costura, o polêmico político que se foi faz tempo, deixando o seu lugar para que outros tentassem fazer melhor enquanto em mim ele deixa  saudade. Saudade do irreverente mágico da costura que também era o mais belo político. Um muso das passarelas.    Descanse em paz, costureiro da fama, apresentador da gama, político da controvérsia.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

DORMIR PARA QUÊ?

      Eram da suite ao lado os gemidos que me tiravam o sono, e entre sussurros e risos nervosos eu tentava dormir  sem conseguir.  Tá certo que eu cheguei um dia antes do acordado com um casal que alugava quartos para turistas.  Ele, um jovem americano da Califórnia e ela, uma linda holandesa que, depois de conhecer o cara com quem se casou veio morar no Brasil.  Já era alta madrugada quando o barulho dos beijos se sobrepuseram aos dos copos e garrafas no quarto ao lado. Eu, que fazia tempo tinha perdido o sono, tentava adivinhar o que os levava a produzir tanta bagunça. O casal ocupava a maior suíte e as outras foram alugadas, uma para mim e a outra seria ocupada por uns portugueses  na outra semana. 
   O barulho que a porta da geladeira fazia ao ser fechada me dava a certeza de ter gente no outro lado, na cozinha. Um cheiro conhecido tomou o corredor e adentrou minhas narinas. Era um cheiro conhecido que eu, particularmente gostava muito, embora nunca o tivesse apertado e acendido entre os meus dedos. Apaguei a luz e fui ao quarto deles e como a porta não estava trancada pude vê-los dançando sem uma gota de roupa no corpo, cada um no seu tempo, ao som de um batidão. Ela tinha em uma das mãos um copo de uísque praticamente vazio enquanto ele, tragando fundo a fumaça, oferecia à parceira o que acabara de acender.  Ela tentou aspirar o resto do cigarro de uma só vez e o fez com tamanha envergadura que a brasa acendeu de vermelho a sala inteira. Como se aguardasse pelas consequências do seu gesto, apoiou-se de costas no balcão da pia da cozinha e sem tirar os pés do chão se permitiu deitar sobre ele. Esse gesto criava na moça a imagem do arco retesado pronto a disparar a flecha. Ele afastou com um braço tudo o que havia na bancada ao lado dela, abriu-lhe as pernas e entre elas se enfiou. Beijou-lhe embaixo do queixo, desceu esse beijo através dos seios onde mordiscou cada bico dos seus mamilos. Lambeu-lhe os seios como se fora um louco para depois escoar a língua através do seu ventre e de suas coxas curtindo com ela tudo o que faziam.Tive ímpetos de surgir de entre aquela fumaceira como se eu fosse o gênio da garrafa. Das garrafas que vazias iam se amontoando.  Enfim nada de errado eu vi além de um casal que, por se achar sozinho bebia e transava da maneira que faziam, por isso achei melhor voltar aos meus aposentos e fechar a porta dos caras que eu tinha deixado aberta.  Só que a droga da porta fez um baita barrulhão. Peter, segurando no gargalo da garrafa para usá-la como como arama, perguntou quem estava ali. E eu, com jeito de quem chegava de viagem, me apresentei fingindo não notar que ambos estavam nus, mesmo sabendo que disso nem eles mesmos se lembravam. A mulher que me olhava de cima a baixo disse, com voz embaraçada, que o chuveiro do meu quarto tinha pifado e que eu podia usar o deles, e como seu marido não deu pinta de querer contrariá-la eu acabei por aceitar o convite. Tomei com eles um gole, depois outro e mais outro. Quando a gente achou que não dava mais decidimos ir dormir e só acordamos no dia seguinte com o sol lambendo a cara de cada um que dormia naquela cama.