terça-feira, 28 de julho de 2015

EU JÁ QUIS UMA DESSAS PRA MIM.

Nenhum cara deseja uma mulher para sua dona, sua mãe, irmã ou patroa, mas 
também  não quer ninguém para transformá-la em boneca inflável como acreditam os puritanos.  A mulher que se deseja precisa ter as qualidades que você desenha. Precisa ser simpática, sem a necessidade de ter sido rainha da primavera. Precisa ser organizada, mas que não infarte se encontrar uma das minhas cuecas de florzinha na gaveta das de palhacinho. Que lave as mãos para temperar a carne, mas que não deixe de falar comigo se eu cato na bandeja uma batata frita sem lavar as minhas. Que tome banho e se deite antes de mim, mas que não me deixe ficar sozinho se eu me deitar primeiro. Que não finja na hora do gozo, mas se isso não for possível, então finja, mas só uma vez a cada dia. Que não reclame da cor das flores, da altura dos saltos dos sapatos, da sutileza do costureiro ou você me encabula cada vez que lhe der presente. Que você não se zangue se suas piadas me matarem de rir e se as minhas não riscarem nos seus lábios a graça que pretendo. Esta, enfim,  é a mulher que, talvez, eu buscasse em uma festa, em uma viagem de férias, no réveillon de Copacabana ou nos bailes de carnaval dos clubes cariocas, porque a mulher que um cara equilibrado quer e precisa não tem o dever de ser santa, mas também não precisa ter chifres, rabo com ponta de flecha e tridente entre os dedos porque ela não estará a sua espera na igreja sob as ordens de quem reza o credo ou num convento longe das tentações do dia a dia, mas na vida se defendendo das ofensas, dos assédios e do pecado, mesmo que na cama ela faça arder as suas chamas devoradoras. Essa é a mulher que se busca em cada lugar aonde os brutamontes e aqueles que se acham os mais inteligentes dos mortais, como também os puros e sensatos, se rendem a uma, nem sempre, tão frágil mulher.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

TEM ALGUÉM AÍ?

Bateu palmas chamando pelo morador, mas como ninguém o 
atendia empurrou o portão e foi até a janela da casa buscando se anunciar. Choro, resmungos e gritinhos abafados pelo travesseiro era só o que podia ouvir. Depois de olhar para os lados e ter a certeza de que ninguém o observava empinou o nariz e na ponta dos pés atirou a curiosidade através daquele espaço para ver o que acontecia. Era um pequeno quarto aonde a dona, uma senhora beirando 60 anos, se achava deitada e sob um lençol amarelado e que mal lhe cobria as pernas se contorcia entre gritinhos e resmungos sem tirar os olhos da tevê. Parecia ser um filme proibido, pensava o gajo, para mexer com a curiosidade e aflorar a libido estimulando o que se poderia chamar de desejos adormecidos daquela pobre mulher. O som dos gemidos que pareciam vir da telinha era a razão da dona não  escutar as palmas e ouvir o chamado do rapaz. Aliás, nem ela e nem ninguém deixaria de fazer o que parecia estar fazendo para atender um cara que talvez até resolvesse o seu problema desde que ela confiasse a ele as suas necessidades.  Também podia ser que o jovem nem estivesse a altura de apagar tão altas labaredas. Acho que foi melhor assim, pois vai que os atributos dele não fossem parecidos com os do protagonista que por sua vez, garboso e cheio de vaidade, exibia aquelas coisas para quem talvez nem acreditasse no que estava vendo. Como agiria essa criatura se confiasse a um estranho com tão pouca idade toda a sua intimidade, suas carências e o calor dos seus desejos, como ficaria essa mulher? 
Ainda pensando nisso o jovem, não mais que de repente, levou um baita susto quando procurando por detrás das cortinas vir o que rolava na tevê, ouviu um berro que, caso ele estivesse subido numa escada teria levado um baita tombo e se estatelado todo no chão àquela hora; a mulher rolava em convulsão. Parecia uma serpente cuja espinha fora quebrada, pensava o moço. Mexia e remexia entre gritos e soluços, choros e risos. Coisa de doido. Ele não esperou para ver se ela ficara nua naquele mexe, mexe e nem que fim levou a coisa. Saiu dali do mesmo jeito que entrou. Bateu atrás de si o portão que enferrujado gemeu quando foi fechado causando nele a certeza de que tudo por ali chorava ou gemia, de ferrugem ou de prazer.

terça-feira, 21 de julho de 2015

BUMBUM DE OURO.

    
             Estava tão entretido com o desfile do mais perfeito bumbum do ano para o qual fui 
convidado que nem me dei conta da presença de uma garota com quem troquei uns olhares na saída de um baile à caipira. A gente não chegou marcar encontro, aliás, a gente mal se conhecia, mas por achar que eu babava com aquelas bundas bem feitas e apetitosas desfilando a três palmos do meu nariz, não teria como a jovem não desatinar se fosse ela alguma coisa minha. Revoltada ela saiu batendo os pés e resmungando palavrões. Ficara puta quando reparou no meu olhar guloso que eu, mesmo sem notar, deitava sobre cada uma das concorrentes. Tal fato retorcia o nariz de quem não disfarçava a cara feia ao se lembrar que eu  só agia assim para dizer que sou machão, segundo me confessou.  Pensando bem eu acredito que ela tinha razão porque aquelas bundas bem trabalhadas  me tiravam o fôlego e até me peguei suspirando por uma das que eu achava que levaria o prêmio, mas terminou ficando em último. Enquanto ela falava se referindo aos meus defeitos eu olhava as qualidades das garotas  e em cada uma eu via  a perfeição das suas curvas.  Sim, eu via, porque a perfeição está para os olhos como a poeira para os móveis; a gente só enxerga passando o dedo. Talvez isso tenha despertado a atenção de quem debulhava um rosário de queixas contra um cara simples e puro, mas que fica bobo quando vê uma bela bunda. Um sujeito trabalhador, simples e de bom caráter, que respeita qualquer mulher, inclusive a dele, merecia ser perdoado pelo que confessa gostar tanto.  E a moça, aos trancos e barrancos acabou tirando a minha concentração, e receoso da gente atrapalhar a festa fui com ela até o bar anexo, aonde depois de dois uísques duplos concordou em ir embora. Foi, mas foi berrando a minha traição. Berrando com aquela boca vermelha, carnuda e gostosa que me levou à loucura depois do baile no momento em que lhe dei carona.    - Ah, desculpem, eu não queria falar da boca, mas da dona da boca. Mulher bonita de corpo perfeito, cujo defeito, que sorte a minha, é achar que eu tenho tudo que tem os cafajestes. Segundo ela  eu sou dono de uma boa  pegada e que, no momento em que revirou os olhos, permiti-lhe que visse estrelas faiscantes e borboletas coloridas num orgasmo que jurou jamais ter tido. Quando dei por mim eu já estava em sua casa pronto, como sempre estou, para lhe dar carona.
    

terça-feira, 14 de julho de 2015

SEM COMENTÁRIO...

    Talvez por covardia ou vaidade, como disseram, eu tivesse bloqueado os comentários do meu blog. Será que alguém acreditaria se eu dissesse que não foi por uma coisa nem por outra que me dispus silenciá-los? Tomar uma decisão dessa envergadura é o mesmo que fazer roleta russa com uma arma na cabeça, principalmente nos momentos quando, sozinho em minha casa,  me presto aguçar os sentidos e  não percebo  passos, não escuto vozes e muito menos sinto a presença de um amigo.  Assim tenho vivido; calado diante de vultos emudecidos. Algumas pessoas, inclusive a que sustenta o meu nariz erguido, me aconselham repensar a decisão, mas eu não quero. Sempre que a mim for imposto tomar certas decisões, por melhor que possam parecer, eu irei atrás de tempo para que eu possa entendê-la, aí, quem sabe, eu não projete  algumas ideias opacas da minha autoria numa tela pintada na mesma cor?  Só assim, então, poderão comentar sobre as minhas decisões, mesmo que me vejam coçando a cabeça depois de ter falado e de vê-los indecisos com o que os fiz entender. O melhor, mesmo, é deixar do jeito que eu acho ser melhor pra gente.  Pois assim, quieto no meu canto, eu não grito o gol do meu time, mas também ninguém me sacaneia se ele perder de goleada.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

CORAÇÃO FRÁGIL EM PEITO ERGUIDO.

Dizem que as porradas que o mar dá no rochedo é que 
forma as belas esculturas. Quem fala também garante que o diamante e outras pedras preciosas só têm justificado o seu valor depois que o esmeril lhes puxa a alma aos nossos olhos. O mesmo não acontece na relação homem mulher.  O atrito que a discórdia cria em suas vidas  em nada melhora a convivência e se antes um achava o nariz do outro uma beleza logo refaz sua maneira de gostar.  No princípio os bíceps  e o peitoral definido eram aconchegantes e protetores na concepção da companheira ao passo que os cabelos corridos que emolduravam o belo sorriso, assim como  as pernas bem torneadas  e o par de peito rijo apontando a lua, eram, às vistas dela, os motivos que o mantinha preso, ajoelhado.  Eram, talvez não sejam mais, já que o constante atrito entre as partes acaba desmistificando essas belezas, ao contrário do esmeril que busca a gema na alma do rubi, taxando como tolas as qualidades que cada um achava existir no outro. Se precisarem encontrar na rua a qualidade de vida que tinham no princípio, eu aconselho a separação e que busquem, da melhor forma possível, a paz, os  carinhos e a compreensão nos braços de quem talvez nem saiba o que amor próprio venha a ser, pois viverá a vida que a ele for indicada.  Assim ninguém perderá a credibilidade do respeito e da honra que lhe sustentam o queixo. Nada melhor que pedir desculpas, dizer que errou na escolha, que a flecha foi disparada na intenção do alvo, mas passou longe da mosca e foi matar a triste borboleta que se aconselhava numa flor.  Agindo assim ambos poderão sofrer por vinte dias, duas semanas ou vinte e quatro horas. Cada um, diferentemente do outro, reagirá 
à sua maneira. Não espero que paguem para ver, mas se o pagamento 
for inevitável, que não se esqueçam de pedir o troco ou 
doá-lo como gorjeta, se isso lhes der prazer.

terça-feira, 7 de julho de 2015

BOM DE CAMA...

Talvez alguém já tenha tido vontade de ficar deitado o dia inteiro e se não encontrasse resistência,  de permanecer calado o resto da vida.  Isso é o que eu mais queria no momento. Sabe quando você acorda achando que colocaram o planeta terra sobre o seu estômago?, pois foi isso que aconteceu comigo a partir do instante em que, pela manhã, eu abri os olhos e  tentei tirar meu corpo de cima da cama.  Continuar deitado olhando o teto como se quisesse contar os caquinhos de vidro que simetricamente ornam o lustre talvez não fosse um meio,  muito menos seria isso uma saída. Resmungar o passado ou lastimar o leite escorrido também não deveria ajudar tanto.  Portanto, ficar olhando para cima na busca do sono que você dormiu, certamente não faria algum sentido. O que poderia uma pessoa que demonstra retidão de caráter fazer se no momento estivesse prestes a  ter seus valores questionados? Essa pergunta deve debitar do meu ativo uma bela parcela da minha credibilidade e se eu fosse um cara que pregasse a coerência pelos quatro cantos, redondos, do mundo teria preferido a morte ao invés de alardear tamanha vergonha aos meus amigos. Quero muito que o dia acabe, que a semana passe logo e que o fim do mês não se arraste para chegar. Quero ou pelo menos desejaria ficar algum tempo sozinho para ver se encontro a ponta do retrós que alinhava a vida serena e tranquila que eu vinha tendo para que de pé eu possa olhar por sobre o meu próprio nariz e vislumbrar o caminho que, com um ótimo humor, eu tinha traçado e se assim não fosse, certamente dele questão eu não faria. 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

DESCE UMA CERVEJA...

   
           Carlos Ernandes tomava umas Bramas  no bar de um hotel a beira do cais em  Vitória, no Espírito Santo.  Enchia a cara na esperança de esvaziar a alma até que flagrou um sujeito aos berros com a namorada.  Essa talvez fosse a forma encontrada por esse animal para discutir a relação. Letícia também não se calava e de babaca e corno cansou de chamar o namorado que parecia querer esmurrá-la. Carlos Ernandes foi pego olhando a confusão e talvez por vê-lo sozinho, Letícia, que fugia em direção ao toalete, pegou de sobre o balcão as chaves do rapaz como se pretendesse decorar o número do seu apartamento e mais tarde, quem sabe, visitá-lo como vingança à truculência do companheiro. Quando Letícia voltou do lavabo escutou Carlos Ernandes dizer entre os dentes que esperaria por ela no quarto dele.  
   _O que você falou para aquele cara?, perguntou o namorado enfurecido.   –Eu só disse alô, que é  o mínimo que um amigo diz ao outro. Letícia pegou a bolsa e retornou para o seu quarto, mas ao cruzar com seu provável futuro amante ela voltou a cochichar; _pode me esperar.  
Carlos Ernandes já traçava planos para o seu primeiro encontro, por isso decidiu aguardá-la como  veio ao mundo; completamente pelado. Nesse ínterim alguém batia levemente na porta com os nós dos próprios dedos.  Era ela!, pensou enquanto caminhava para recebê-la. Letícia passou por ele e foi à janela de onde vislumbrou a rua e nela o povo e seus mistérios. Perguntou o que tinha para beber, mas antes de ouvir a resposta já tinha aberto uma lata de brahma e enchido o copo que passou ao amigo enquanto ela tomava, de um só gole, o restante da lata. _Você tem camisinha?, perguntou Letícia sem olhar para a cara dele. Não, não tenho, respondeu enfiando a cara entre os seios da moça.  Os dois se beijaram enquanto a mão de um acariciava partes do corpo do outro até que repondo os seios dentro da blusa de onde os tinha tirado o cara sugeriu que se encontrassem no outro dia quando teria as benditas camisinhas. O medo da AIDS os cegava.  
   No café da manhã e no resto do tempo que passou lá Carlos Ernandes não viu a pequena. Naquele momento  o jovem se lembrou que conhecia a moça de algum lugar, só não se lembrava de onde. 
      Dias mais tarde no Rio ao assistir “Vale a pena ver de novo”,   foi que se lembrou de que Letícia era coadjuvante na trama; “Salve Jorge”, da globo. 
   Carlos Ernandes desceu a escadaria do prédio,  onde morava, entrou no primeiro bar que encontrou e pediu uma Brahma.  O sujeito bebeu cerveja até que ele e a globo saíssem do ar.