sexta-feira, 29 de maio de 2015

HOJE É DIA DE ROCK.

       Certa vez entrei num site musical na intenção de ouvir Elvis cantar, mas, ao invés do rei eu dei de cara com o Willian, não o Bonner, mas o Marks. Willian Marks é o nome dele, e como eu estava num momento de total benevolência, eu o deixei  soltar a voz. Só que vocês não fazem ideia do que isso resultou. Eu jurava que era Elvis Presley num dos seus melhores momentos. Aí, aumentei o volume e prestei mais atenção.  Eu queria algum defeito por menor que fosse, mas que nada.  O rapaz cantou e me encantou, e se eu não sou uma pessoa equilibrada me derretia em lágrimas. - Saudades do Élvis.  Willian Markes, um jovem, também caminhoneiro como foi o ídolo, tem o timbre e a mesma doçura do cantor, e não precisa cantar LOVE ME TENDER pra gente perceber a semelhança, bastava cantar, cantar e cantar.  A pessoa de quem eu falo faz isso com tamanha naturalidade que a gente até pode pensar que certas pessoas não morrem, mas transcendem a vida.  Hoje eu tirei a manhã para ouvi-lo como venho fazendo há dias. Eu me recosto num canto da varando e deixo a vista se perder na paisagem, lá embaixo, aonde vivem os normais.  Enquanto rola a música eu me recordo de papai arredando os móveis da sala para dançar com a minha mãe. Era um tal de roda pra cá, roda pra lá, mamãe pulando dos ombros do meu pai e o velho passando a perna sobre a cabeça dela e tudo no compasso, sem perder o ritmo. Quando termina a música eu fico sem noção e começo a bater palmas, como fazia antigamente ao passo que os velhos, rindo, me abraçavam com seus corpos suados.
Acho que valeu a tentativa de cortar caminho, pelo menos cheguei do sonho antes do amanhecer.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

SERÁ QUE VAI DAR SOL?

      Ontem foi um dos piores dias para aquele casal que resolveu passar o fim de semana no chalé da família da namorada no alto da serra.  Sem dar bolas para a moça do tempo encararam a estrada. Quando tinham percorrido a maior parte da viagem o tempo virou  a cara e ficou com ela feia até o  anoitecer do dia seguinte quando São Pedro, num gesto de loucura, decidiu jogar toda a água que tinha no céu aqui para baixo como se quisesse afogar o mundo.  Presos num quarto e sala à luz de vela os dois não tinham o que fazer a não ser  olhar o temporal através da janela. Os dois concordaram que foi loucura sair pensando que o tempo fosse melhorar, porém loucos, de verdade, eram os que forçavam a porta do casebre. Serginho calou a boca da mulher com a mão enquanto com o dedo na própria boca pedia silêncio. Temia que fosse um animal, mas também poderia ser algo pior.  Ouvindo mais atentamente perceberam que não se tratava de nenhum bicho, mas de umas pessoas buscando abrigo. -A gente percebeu movimento na casa aí resolvemos chegar e pedir ajuda. Não precisamos de luxo, mas de um canto onde eu e a sobrinha pudéssemos passar a noite, disse o visitante que mais parecia ser pai da garota do que tio.    Claro, respondeu Margot. O espeço não é lá essas coisas, mas ajuda, e muito num momento desses. Ricardo tinha uma casa no outro lado da serra, mas como a possibilidade de atolar o carro era maior do que o risco de não serem recebidos, decidiram pela segundo ideia.  Nós temos algumas cervejas, mas estão quentes. Temos café, mas não temos filtro para coá-lo, disse Paulinho sem olhá-los. Bebida gelada nós temos no carro e como já estou molhado posso buscá-la pra gente queimar o pé e, concluiu o visitante; isso se vocês não se importarem.  Antes de ouvir o sim, Ricardo se enfiou na chuva, desceu a rua até onde havia parado o carro, colocou o isopor na cabeça, pegou alguma coisa na mala, jogou numa bolsa e, ajudado por Serginho descarregou sobre a mesa. Duas horas mais tarde a chuva ainda botava medo, ao passo que a turma se divertia como se há muito se conhecesse. A cada beijo que Margot deixava na boca do marido, Sandrinha olhava para o tio. A certa altura Morgot gritou alto e em bom tom; beija ela também, tio. A gente aqui não tem essa de achar que um cara da sua idade não tem direito de namorar uma garota mais nova. Vai fundo, beija ela que eu faço um brinde ao amor de vocês dois.  Uma gargalhada grupal e o som dos copos se tocando foram ouvidos enquanto, de um só gole, a turma esvaziou seus copos para reabastecê-los depois.
      Eram dez horas da manhã de domingo quando o primeiro se levantou. Cada um olhava e era olhado como  se perguntasse; por que me deixou beber tudo o que bebi? 
      Enfim o domingo chegou e foi embora levando com ele um sol lindo que brilhou o dia inteiro num céu tão azul que ninguém acreditaria se dissessem que o tempo fechou ali.

quinta-feira, 21 de maio de 2015

SÓ DEUS...

     Eu não questionaria a cor da sua pele porque não participei do plebiscito para escolher a minha. Aliás, pouco importa a cor do barco quando um náufrago é socorrido desse mar revolto, e menos ainda me importa se azuis são ou não são seus olhos, se você gosta de menino, de menina ou quem sabe dos dois  se assexuados são os anjos.  Não me interessa, aliás, interessa sim, a pobreza em que vivem os seus pais e seus irmãos, a dificuldade que a maior parte de nossa gente tem para estudar e com certeza afirmar que a capital dos Estados Unidos não é  Nova York.  Não me importa saber se no time de basquete da escola, aluno da sua estatura não tem vez.  Não, não me importa, pois o mundo pode até ser uma bola, mas os seus caminhos são cumpridos e sinuosos.  Eu também não quero saber se a sua namorada é bonita, rica, se concluiu os estudos ou trabalha numa casa de família.  O que eu quero saber é da sua dignidade, do respeito com que trata os pais, as crianças, os mais velhos e a força de vontade demonstrada na conquista do impossível. No meu caso que sou de cor branca, de classe média, tenho boa saúde e ninguém tentou interromper a trajetória, fica a ideia de ser mais simples que a dos outros, já que tenho tudo ou o suficiente fazendo exatamente como todo mundo.  Mas se você me perguntar por que eu vivo a vida boa que aparento ter se nada fiz para merecê-la, eu, sinceramente, sem pretensão alguma afirmo que viveria qualquer vida que tivesse, mas trabalhando sempre, como fazem os nobres, para melhorá-la, mesmo que não conseguisse. Nasci com a cor escolhida pela sorte enquanto a minha saúde é resultado do gene da minha família e se estudei em boas escolas foi porque meus pais me puseram lá, era a mais próxima da minha casa ou por não ter encontrado amigos indesejáveis para entortar o meu caminho.  Todos somos iguais perante às leis de Deus e dos homens, por isso deveríamos ser tratados com respeito e à nós ser dado a mesma oportunidade que alguns têm como a saudade e o sofrimento, sem nos esquecermos da felicidade que a vida impinge.

domingo, 17 de maio de 2015

DÓI QUANDO NÃO É POR AMOR.

  Ela me disse, meio sem graça, que a dor que lhe causei foi a maior que qualquer homem poderia impor a ela. Acontece que, desde os meus 20 anos venho praticando o mesmo ato na intenção de ser o melhor ou, se possível, um cara para morar nas lembranças de qualquer mulher, principalmente nas que exigem o máximo de um tipo igual a mim. Este ato só deve ser feito por quem tem fala macia, bom porte físico, mantém o próprio corpo sempre asseado e traz consigo as ferramentas do prazer. Ninguém, diga-se de passagem, resiste a um homem bonito e educado, cuja fala macia ao pé do ouvido arrepia os pelos até de quem os mandou raspar. Mas como eu ia dizendo; fiquei fora de mim quando aquele mulherão, com sorriso de criança iluminando o rosto, correu em minha direção pelas areias brancas da praia de Ipanema.  Teria de fazer um grande sacrifício para esquecer que por uns dias essa menina, na época com 19 anos, se entregou aos meus cuidados numa casa onde eu morava fora da cidade. Ela, tão logo me viu chegar disse qualquer coisa à pessoa que estava embaixo da sua barraca e saiu ao meu encontro como se algo de sério existisse entre nós. Sob a barraca ela deixou um jovem talvez da sua idade que nos observava com um par de olhos curiosos. Ela está nua, pensei comigo. Ou melhor, ela pensa que veste um biquíni que nada esconde enquanto eu me resguardava dentro de uma sunga que há muito não vestia, e uma camiseta branca que ficou com a imagem dela marcada pelo óleo bronzeador que usava.  Você ainda se lembra de mim? Arrisquei lhe perguntar. Mais é claro, respondeu trepando nos meus pés para não queimar os seus. Tem momento que eu me entrego aos pensamentos e acabo chorando com algumas lembranças.  Aí eu me pergunto; o que teria aquele homem de especial que talvez outro não tivesse para me fazer acompanhá-lo à sua casa?  Talvez a experiência que eu adquiri com isso já me tivesse tirado de muitas enrascadas, até porque, você me fez sofrer, principalmente nos momentos em que eu mais precisava de você.  Felizmente não perdi a razão e muito menos a vida nas mãos de outros homens que têm um pouco de você, mas que são inescrupulosos ou sádicos, eu poderia dizer, concluiu ela. 
      Como eu morava ali perto, na Vinícius de Moraes, peguei-a pelo braço, cruzei a Vieira Souto e subi ao segundo andar para um suco como havia prometido.  A minha intenção era tomar a bebida, mostrar meu novo apartamento e voltar à praia,  mas a saudade nos prendeu por tanto tempos que as luzes da Rua acendiam quando eu a coloquei, com o mesmo sorriso de menina, num táxi de volta às velhas lembranças.
Subi os dois lances de escada num fôlego só, guardei as tralhas novas com as quais trabalho e aproveitei para consultar a minha agente aonde, felizmente, muitas clientes bonitas e gostosa se deixarão nas minhas mãos para uma massagem de perder o fôlego, mas que as deixarão felizes e apaixonadas com o que eu faço.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

UM MANTO PARA A VIDA
E PARA A MORTE.

      Sabe quando um manto negro cai por sobre o seu corpo e você não vê outra saída senão pensar na morte? Pois é. Foi o que Armando me contou ter acontecido com ele anos depois de se mudar com a mãe para o Canadá aonde deu um jeito em sua vida. Foi no dia de ação de graças, que é considerado como o dia da gratidão e por isso se reza e faz festa pelo que de bom tenha acontecido durante o ano, que Armando apareceu na intenção de agradecer a Deus por ter lhe dado força, boas ideias e coragem para enfrentar a vida longe de sua terra como fez. Já eu achava que o cara tinha tomado tal atitude por achar que tudo o que estava acontecendo não passava de um sonho ruim, um pesadelo e que sua mãe na verdade não vegetaria pelo resto da vida como adiantou o neurologista ou partiria de braços com a morte para não prender ninguém ao sofrimento como deixava acreditar o pregador e o próprio Armando confirmou ao celular. Sozinho entre tantos ele rezou, não para agradecer o sucesso da jornada, mas para pedir ajuda aquele que sofrer sem razão não permitia que filho algum sofresse. No dia seguinte Armando era outra pessoa.  Passou a se calar no momento da dúvida e a rezar no instante da dor. Antes, numa situação igual a essa, Armando blasfemava contra Deus e sua criação, mas agora, pouco tempo depois, já demonstrava entender que ao nascer assumimos um compromisso com a volta, e morrendo cumprimos com a promessa.  Armando continua morando fora. Talvez já não sorria por qualquer motivo ou razão, mas continua sorrindo quando tem chance e chorando quando a saudade vem.
      Dias desses eu fiquei sabendo que o mesmo Deus que tirou o sorriso dos seus lábios, do qual eu tanto gostava, também secou dos olhos dele as lágrimas que eu jamais pensei que alguém chorasse, e fez isso ao permitir que Armando encontrasse o tesouro que encontrou nas escavações que fizera pela vida afora. Ele, o tesouro, traz nos olhos o doce da bondade e no sorriso a alegria das crianças.  Talvez não tenha ele a idade que teria sua filha se ele a tivesse, mas também não tem a idade da sua mãe, mesmo se ainda a tivesse ao seu lado. O tesouro é de fato um tesouro em sua vida e será em agradecimento a Deus por sua condescendência que ele irá à festa da ação de graças este ano e a todas as outras que virão, se ele assim o permitir.

domingo, 10 de maio de 2015

UM ANJO QUE TOCAVA CRAVO.

    O meu time ganhou do time de um amigo que apostou que o seu não perde quando joga com time pequeno, como ele queria que eu acreditasse que fosse o meu. No primeiro tempo as coisas, de fato, pareciam melhores para o dele, mas no início do segundo a gente fez um gol, depois mais um e o terceiro não tardou. Foi um chocolate que o meu time, tido como pequeno na concepção do amigo, deu no time dele. Na intenção de esquecer o sucedido ou melhor, que eu não o sacaneasse mais do que o meu time já havia conseguido, sugeriu que jantássemos no shopping daquela avenida. Aceito o convite partimos rumo à praça de alimentação.  As lojas tinham se preparado para as vendas do dia das mães, mas ninguém queria antecipar a compra dos presentes, por isso os vendedores abordavam os que arriscavam olhar para as vitrines.  O balcão de uma loja de discos quase escondeu de mim a vendedora que trazia no rosto as feições da Gisele. Olhando melhor eu concluí que Gisele é que tinha as suas feições tamanha era sua beleza.  Era linda, esguia e gentil. Comprei um CD para mim e um para minha mãe. Depois que o meu amigo, torcedor do imbatível time, se despediu eu voltei à loja em busca de um título do qual não me lembrava o nome. Fingindo procurá-lo entre tantos tive da Gisele o socorro que eu tanto precisava. Infelizmente foi por pouco tempo que ela me enfeitiçou com seu perfume, pois num golpe certeiro, como a cobra dando um bote, ela sacou o disco de uma estante no alto de nossas cabeças, e o entregou a mim. O toque de leve na sua mão quando peguei o disco e a presença do seu corpo assim, tão pertinho de mim, foi tudo o que eu precisava para me sentir vivo como todo mundo. Pena que foi tudo muito rápido. Aí eu fui ao caixa fazer o pagamento. Guardei o troco, sorri para Gisele em agradecimento e contra a minha vontade fui embora, mas esqueci de levar o disco que comprei. No outro dia antes da loja abrir eu já estava de pé na porta para pegar o que havia esquecido, só que era folga de Gisele. Comprei discos durante todos os dias daquele mês e para ser sincero, jamais ouvi uma só de suas faixas. Eu, tímido que sou, não queria ouvir os arranjos dos grandes maestros, a belíssima voz dos seus contraltos ou viajar nas emoções de suas melodias, mas receber de Gisele aquele olhar triste que se escondia por trás de um sorriso tão puro que parecia me fazer flutuar.  Era isso o que eu queria e fiz assim até que certo dia ela pediu as contas e foi embora. Ninguém jamais soube do seu paradeiro e eu morri com aquela possibilidade.  Morri porque nasci no dia em que o meu time ganhou de um tão grande que ninguém acreditava que vencê-lo o meu fosse capaz. Foi no mesmo dia que um balcão, pretensioso, quis esconder Gisele dos meus olhos e coincidentemente eu nasci no mesmo instante em que percebi que me olhava e sorria para mim. Só para mim. Nesse momento eu sentia que bailava sobre as nuvens, sem pisá-las.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

LOUCURA, LOUCURA,
LOUCURA...

    
     A cada esbarrão um sofrimento, uma vontade de voar com unhas e dentes no pescoço dela. Não seria prova de coragem tal atrevimento, mas algo muito próximo da loucura, do desejo ou do tesão. Ontem, mais uma vez ela ultrapassou os limites que me mantém longe do desatino. Tem vez  que nem eu mesmo acredito que tenha me controlado diante a tanta provocação e o pior é que eu não sei se é de propósito ou por inocência. Certa vez ela calçava um par de sandálias de couro com tiras finas  que realçava  um par de pés que mais parecia os da santa que MiguelÂngelo foi pago para pintar no teto da Capela Sistina. O longo vestido branco solto sobre a pele arrastava o resto da seda como a calda de um cometa. Os passos pareciam que eram dados no ar, tal sua beleza e a plasticidade com que eram dados talvez nem um flamingo diante da fêmea fosse capaz para impressioná-la. Enquanto isso o calor que tomava meu corpo de tão intenso me sufocava, mas era prazeroso. Era uma febre delirante como o sofrimento que antecede a morte, e mesmo estando neste estado consegui me controlar. Pelo menos eu achava que mantinha os meus alucinantes desejos sob controle. Assim fiquei até que ela, dois dedos diante da pessoa controlada que eu fingia ser, desandei a massa ao perceber que o giro nos calcanhares demonstrava que ela ia embora pressionando o gatilho da incoerência que matou o medo, o respeito e a razão de um pobre diabo testado muito além dos seus limites. Como acima eu disse, voei na goela dela, mas não mordi, beijei. Cravei nas suas carnes as minhas unhas, mas por tê-las cortado rente não a feri além de lamber naquele corpo o fogo que eu pensava só querer queimar a mim. Ali eu perdi o que não tinha enquanto ela desmistificava a inocência para descobrir o gozo incontrolável que pode ter uma pessoa ao se descobrir mulher.

terça-feira, 5 de maio de 2015

QUEM GARANTE SER VERDADE?



   
       Eu acredito que você já tenha ouvido falar ou lido que por volta do século XIX, Lucrécia Borgia teria sido, segundo o historiador Jules Michelet afirmava sem deixar transparecer um pingo de dúvida,  a verdadeira imagem da messalina incestuosa e intrigante. Teria tido ela vários homens  aos quais se entregava como uma cadela no cio às loucuras que porventura  quisessem fazer com ela, como ele também garante.  Mas, por ter tido vários abortos e assistido a morte dos que a cercavam, Lucrécia teve sua saúde enfraquecida de tal forma  que sua morte foi triste e dolorida.  Tais fatos devem ter inspirado de certa maneira os românticos  que ela acabou por se tornar a heroína de uma das tragédias de Victor Hugo e objeto de um conto de Mérimée, inclusive figurou como um belo destaque em Les crimes célèbres de Alexandre Dumas.  Assim pelo menos me garantem os livros.  Isso por volta  de l.480, pouco tempo antes da descoberta da América e do Brasil.  Seu padrasto, cujo nome não me recordo por mais esforço que eu faça, deu a ela a refinada educação da aristocracia.  Aprendeu línguas antigas, conviveu com a poesia, interagiu com a música, estudou filosofia e letras latinas.  Salústio, Aristóteles, Tito Lívio, Virgílio e outros garantiram sua formação que de certa maneira se revelaria útil para um destino igual ao dela.  Fruto de uma relação entre um cardeal e sua preferida, como a história conta, Lúcrécia foi uma mulher que a memória faz questão de mascarar. 
     A imagem que se tem dessa mulher é a de uma pessoa manipuladora, sem escrúpulos e de costumes depravados.  Eu mesmo já narrei fatos que faziam de Lucrécia uma doente, sexualmente falando.  Já contei que ela escondia sua identidade e pagando às prostitutas tomava-lhes o lugar  aonde se oferecia a todos e quaisquer homens que se dispusessem a transar com uma mulher fogosa, jovem e bonita.  Nem bem Roma tinha acordado e lá estava ela se oferecendo aos pretendentes. Lucrécia só voltava à casa quando se sentia extenuada, machucada, porém nunca saciada. É claro que nada disso era verdade por mais que nos forçasse acreditar os vendedores de mentira.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A FRIAGEM DE PENEDO.

O frio que fazia em Penedo não me deixava conciliar o sono, diferentemente dos
meus amigos no quarto ao lado, por isso revolvi, de fininho, deixar a cama e sair para ver a lua se isso a mim fosse possível. Vesti um casaco grosso de lã que jazia sobre uma cadeira e fui à sacada do hotel como se convidado pelo improvável eu fosse. Nada ou quase nada eu podia enxergar depois do meu nariz. Algumas luzes piscavam para vencer a cortina da noite até que um vulto ou melhor, duas pessoas cochichando debaixo  da marquise da minha sacada e um cheiro de cigarro diferente do tradicional despertaram minha atenção. Uma voz soturna pedia que a dona de uma voz fina e suave aceitasse o que ele a ela oferecia, só que ela relutava dizendo não. A brasa do cigarro avermelhava em cada tragada iluminando a cara dele que assoprava de volta no rosto dela enquanto, aos tapas, tentava se livrar do risco que corria.  Você já fez isso que eu sei e por que não quer fazer agora, hein? Disse-lhe já sem paciência enquanto enfiava na boca da garota o que ela não queria. Se eu soubesse que era para isso eu não teria vindo te ver, resmungou a garota quase chorando. 
Diante daquele quadro eu me perguntei; o que eu faço numa situação dessa, meu Deus? E se a garota fosse minha filha, de que maneira eu gostaria que a socorressem?  Voltei ao quarto e liguei para a recepção que prontamente enviou um segurança muito cauteloso que chegou sem se deixar notar. Para não dizer que eu tinha alguma coisa haver com aquilo me tranquei no quarto e só voltei à sacada por causa da confusão que se formou lá embaixo. O jovem era filho de um delegado que sempre se hospedava com a família naquele hotel enquanto a menina vinha a ser uma das filhas do dono.