terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

VAI COMENDO RAIMUNDO...

Todas as viagens que não tivemos como fazer no ano passado, fizemos agora, com louvor. 
Não o louvor do pecador para com seu deus, mas como algo inspirador que nos põe ativos para um novo amanhecer. E foi assim que tudo correu às mil e uma maravilhas. Não fosse a majoração dos preços, tipo 60% mais ou menos, e nada teria mudado. Isso, aliás, antes mesmo de acontecer já não seria novidade para ninguém, pois assim que limparam o traseiro com o nosso voto se ficou sabendo que a partir dali, direitos a gente não teria mais. Portanto, nada de reclamação. Acontece que desta  vez gastamos com as mesmas coisas quase o dobro, só a alegria do passeio foi mantida no mesmo patamar, por isso esse sorriso me rasgando a boca como se engolir as duas orelhas ao mesmo tempo me fosse possível. No tocante a bebida e os tira gostos, eu fui a pessoa que mais exagerou e por castigo desse pecado eu engordei de dois e meio a três quilinhos. Coisa que eu, certamente, tirarei num piscar, rápido, de olhos. Das Minas Gerais a gente voltou no sábado, mas nem o trabalho para desarrumar as malas a gente teve, pois no dia seguinte seria o aniversário da minha mãe, e quando o relógio do Bento Carneiro cruzou os ponteiros para as 13 badaladas, lá na cidade maravilhosa estava eu no colo da minha mãe querida. Mãe que amamentou tão bem esse bezerro que ora vos fala que até me casei com uma bela jovem que também tem, entre outras magníficas qualidades, um lindo par de tetas, digo, de seios, onde me refujo  quando chego do trabalho ou volto de onde, talvez não tivesse ido sem a mulher que amo.
Agora eu olho a casa e vejo tudo aquietado no lugar. Até Babi que não sossega esmoreceu no próprio  canto. Nada mais se ouve além do carrilhão que, pendurado na parede, lá fora no corredor, me faz lembrar do bom e doce vampiro brasileiro.
Um beijo aos que conosco compartilharam  esses momentos. A Gabi, a quem exigimos tanto sem que nada tivéssemos para lhe dar além do nosso imenso e sincero amor, e também a Chico Anísio que se foi sem levar consigo os personagens que ora sim, ora não, nos levam sorrindo às lágrimas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

ÚLTIMOS SUSPIROS...

Cantando o samba enredo da Portela os últimos foliões seguiam a bateria pela 
Sapucaí que pouco tempo mais tarde se debruçava no silêncio da grande festa. Ela, no entanto, sabia que naquele momento o carnaval também acabava para quem não tinha outras pretensões senão a de ver o brilho das escolas  e a desenvoltura dos passistas. Só que não. Os tamborins ainda repicavam em seus ouvidos quando alguém, não se sabe se fruto do bem ou do mal, apareceu, do nada, sambando para ela.  Depois de vários giros e belo sapateado, movimentos quais nunca tinha visto, ele se curvou ajoelhando em sua frente. Beijou a rosa que trazia no chapéu e em movimento contínuo, sorrindo à  ela ofereceu. A moça surpresa não sabia como se comportar diante de tão belo gesto, mas num movimento que não acreditou que seria capaz, a recém chegada ao Rio na intenção de amenizar a dor que uma traição lhe causara, também beijou a flor antes de prendê-la no cabelo.  Mal tinha a flor entre o grampo e os curtos fios negros e o jovem, que não tinha a vivência, mas tinha o jeito de Carlinhos de Jesus, abraçou-a curvando o corpo junto ao corpo dela para beijá-la nos lábios de forma que jamais fora beijada.  Ela poderia estar pensando, caso não fosse carnaval, que tinha sido dopada, drogada, mas nada disso no momento acontecia. O surdo batia cadenciando os últimos passos da escola enquanto o coração da bela moça, enfeitiçada com o beijo que recebeu,  sambava no compasso dos orgasmos que num banheiro químico, ali, bem perto, ele nela provocou. 
Enfim, como diz o velho Palhaço Poeta, eram os últimos suspiros do carnaval.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

NÃO É SÓ BEIJO QUE MULHER CIUMENTA GOSTA.

      
     Eu não me lembro de ter comentado com vocês que já segui um grupo numa caminhada que pretendia nos levar ao topo de um monte de onde a vista era algo indescritível. Pelo menos foi o que os responsáveis pela façanha nos garantiam. A turma seguiria por uma picada no meio do matagal  com  incríveis despenhadeiros, rochas imensas, árvores de todos os tamanhos e espinhos, que justificavam as paradinhas porque ninguém era de ferro. Nem um de nós sucumbiria antes de alcançar o nosso intento, esta era a proposta. Para isso os caras levaram uma semana pesquisando o terreno e consultando o serviço de meteorologia até que o guia e um outro cara, que parecia a minha sogra dando palpites, encontraram o momento certo para a partida. Na hora marcada do dia H ou no dia H da hora marcado a gente se acotovelou numa Van que se arrastou até um lugarejo de onde partiríamos em direção ao cimo do famoso morro.  Isso tudo para mostrar para os amigos que a gente é foda e que ninguém do grupo conhece a palavra medo. Se eu falei sobre esse assunto devo também ter dito que fomos surpreendidos por uma forte chuva na metade do caminho e se não fossem duas fendas abertas na pedra que protegeu da morte os quatro mais sortudos do grupo e essa história não teria como ser contada por quem escapou da avalanche de lama e de pedra que levou morro abaixo o que via pela frente. Uma das das duas moças que se salvaram, por ciúmes da amiga com o violeiro, resolveu ficar comigo e a cada beijo que o músico ganhava eu era premiado com dois outros da rival. Mesmo assim a coisa estava feia e nem  o arco íris que eu via de onde estava melhorava aquela imagem; o morro tinha derretido como um sorvete na casquinha nos deixando preso dentro de uma loca de pedra enquanto lá fora restava um quintal com um palmo e  meio de extensão. Depois a gente foi encontrada pelos bombeiros que nos socorreram. Ao sair do hospital eu me dei conta que não é preciso um gigantesco diadema colorido com um pote de ouro em cada extremidade para me  fazer feliz, basta um dia simples como aquele, mesmo que ali não estivessem as lindas, porém bobas, moças que se apaixonavam com facilidade por qualquer coisa que tocasse violão.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

TEM ALGUÉM AI?


      É uma chuva passageira, garantiu-nos o guia com quem há meses combinamos um passeio que consistia numa caminhada através da mata por entre pedras, árvores e pirambeira camuflada na vegetação.  O destino era o cume de onde, me garantiram os que lá foram, não existia no mundo visão mais gratificante. Essa chuva, que chamavam passageira, há horas nos prendia na base como se tentasse nos remover da ideia de ter sob os pés a razão desse desafio. Como eu disse, a chuva é passageira e logo o sol vem dar as caras, portanto não há o que temer, garantiu o guia vasculhando o céu. Em pouco tempo as nuvens ameaçadoras tinham sumido confirmando as palavras do guia. E foi com esta esperança que abrimos mão de uma pousada aconchegante aonde degustamos vinhos de boa safra ao pé de um fumegante fogão de lenha. Ali cantamos diversas cações antigas ao som do violão bem tocado de Wallace, um dos integrantes do grupo.  Partimos e depois de duas horas, já dentro da mata, estancamos com um trovão que mais parecia uma onda gigante explodindo no rochedo.  Fujam todos!, gritou o guia correndo morro abaixo enquanto dizia que uma tromba d'água devia ter desabado na cabeceira do rio e se tal fato se confirmasse uma avalanche de pedra e de lama desceria por ali. Foi exatamente como o guia previu, parecia coisa de cinema. Meia hora mais tarde o silêncio era a resposta às perguntas que não fiz. O que teria acontecido ao grupo?  Creusa, a única pessoa que eu não tinha conversado, por estar enrabichada com o músico, ficou estática com os gritos que ouviu. Eu, no entanto, corri para o primeiro buraco que encontrei na rocha, mas antes puxei a garota que mais branca do que paina, não movia um músculo além dos que a deixavam tremer e chorar. Algumas bananeiras caíram sobre a entrada do buraco nos protegendo da chuva de vento que nos obrigava a adentrar cada vez mais fundo naquela escuridão.  O mundo parecia desabar ali, a dois passos diante da gente.  A quantidade de lama e pedra que passava no entorno do nosso abrigo era coisa de louco. Parecia que a montanha derretia e logo nos levaria com ela.   Passado o pesadelo andei para fora uns dois metros que o precipício me permitia. Acima de nossas cabeças havia outra fenda na rocha  semelhante a nossa. Resolvi gritar. Felizmente havia alguém por lá, aliás, mais de uma pessoa. Uma das pedras tinha atingido Wallace que desmaiou, mas graças ao bom Deus foi resgatado por Amanda e pelo primo dela que infelizmente foi arrastado para baixo no lamaçal dentro do rio. Eu queria subir até lá, mas como descer era mais fácil fizemos uma corda com as nossas roupas e com a nossa ajuda eles vieram ter com a gente. Amanda não descuidou dos ferimentos do rapaz nem por um instante, deixando Creusa tão enciumada que pra fazer pirraça não me largou mais. O silêncio da noite poderia ter sido muito pior não fosse Amanda estar cuidando do companheiro. Esse fato permitiu a minha companheira aquecer seu corpo no calor do meu enquanto os outros, certamente fazia o mesmo.  Ali ficamos por dez horas.  A nossa respiração mudava de frequência enquanto os nossos ferimentos nos levavam a gemer, tinha momento.  Quando finalmente o cansaço nos queria fechar os olhos, eis que o sol resolveu abrir os dele e graças aos gritos de; tem alguém aí?, a gente correu à entrada da gruta para que o pessoal do resgate soubesse que tudo ia bem.  Quanto a  nossa história, mais tarde contaríamos uma parte dela.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

LEMBRANÇAS DE CRIANÇA.

Segurei seu rosto, envergonhado, para nele
 deixar um beijo. Porém meus olhos, coitados, despreparados como nem eu sabia que eram, escorregaram decote abaixo num abismo aonde dois lindos botões de rosa se entregavam ao desabroche. Toda a pureza daquele beijo deu vez à febre que enrubesceu a cara imberbe que era a minha. Fiquei zonzo, fiquei tonto, fiquei bobo. Pedi água,  e no  colo aonde meu corpo de menino costumava se aninhar, mamãe me deixou sonhar sem saber ela, que há pouco eu tinha visto ao alcance das minhas mãos pequenas, a possibilidade de colher as mais lindas de todas as flores, enclausuradas cada uma em seus botões.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

VIDA QUE SEGUE...

No passado ele até entendia que a vida se leva com alegria e um pouco de sofrimento.
 Muito se tem feito pela manutenção da cordialidade, mas as baterias continuam viradas na direção das possíveis tristezas no intuito de abatê-las assim que despontem no radar.  Mesmo com esses cuidados a coisa vem mudando de tal maneira que em dado momento se viu acuado como as raposas ficam em época de caça. Era de seu conhecimento que ela nutria por ele um sentimento, não digo de gratidão, mas de cordialidade. Todos se deitavam, acordavam na mesma hora e praticamente nada precisavam fazer para manter a relação que tem outras famílias. Ela, com as vantagens que a mulher tem e ele, por entender que o homem é o lado forte da relação, assumia as dificuldades que iam surgindo.  Mas voltando ao assunto; ela acordou naquela manhã bem diferente das outras de sua idade. Seus olhos estavam fundos como se chorasse a noite inteira ou fizesse aquilo que mantém o macho subordinado aos caprichos de sua fêmea. Eles dormiram a noite inteira, mesmo assim ela estava um caco. Um, digamos, bagaço, não importando se de laranja ou da cana depois do caldo. Ele, no entanto, estava bem, pelo menos demonstrava estar.  Depois de um banho e ter feito a barba ficou ainda melhor, mas ela não. Continuava macambúzia, oh, palavra desgraçada! Tomaram café, depois ele arrumou a cama e decidiu convidá-la para um passeio.  Talvez  comprasse uma carne e algumas verduras para o almoço, caso encontrasse pelo caminho quem as vendesse. Mas ela, coitada, continuava indiferente. Coitada porque já vinha se comportando dessa maneira fazia tempo enquanto ele, idiota como se dizia ser, nem se dava conta do quão importante era saber o porquê daquele ar de sofrimento num sábado tão bonito.  Talvez eles devessem consultar um especialista para tentar mudar o quadro, pois do jeito que ia, não ia a lugar nenhum. Enfim, saíram.  Talvez pensando que ele a levasse a pé, como quando vai sozinho ao mercado, ela fizesse aquela cara, mas quando desligou o alarme e abriu a porta do carro uma duvidosa alegria banhou o seu semblante. Durante o passeio ele se arriscou falar de sua decisão em levá-la a um profissional para pedir ajuda, mas ela, nem para a cara dele olhou. Parecia que a imagem que via todos os dias através da janela do carro era mais importante que o cuidado que ele demonstrava ter com ela. Em pouco tempo, depois de falar com quem manja do assunto e gastar um bom dinheiro, o cara entendeu que a vida tem dessas coisas e viver sorrindo o dia todo não é possível a quem tem tanta coisa para resolver nesse mundo cão, em que vivemos.