terça-feira, 27 de janeiro de 2015

NÃO FOI RUIM, MAS TAMBÉM NÃO
FOI TÃO BOM ASSIM...

Eu sei que não importa para ninguém se o meu fim de semana foi bom ou fui ruim
até porque eu posso mascarar um dia triste dizendo que jamais passei um tão maravilhoso ou negar a beleza da paisagem diante do meu nariz e da brisa atrapalhando os meus poucos cabelos enquanto o que sobrou das ondas que rebentam lá fora em alto mar acabam marolando nas minhas pernas. De qualquer maneira  o meu fim de semana foi ótimo, de verdade, e não careceu de pompas para tal. Foi bom porque estive entre amigos que ao brindar a nossa antiga amizade não reclamaram das contas, das dores e do governo. Falamos somente dos momentos livres que nunca foram suficientes, dos beijos sinceros e respeitosos que jamais nos satisfazem e das mentiras que são o combustível que nos move à enfrentar a dureza do dia a dia. Foi, portanto, um pedaço de sexta-feira, um sábado inteiro e um domingo de flamengo campeão,  repleto de riso e felicidade.
Dois dias e meio para  ninguém botar defeito.
Esta tem sido a forma de como eu tenho vivido a vida. Se o meu joelho doesse a ponto de me  proibir  correr na praia, eu canto uma canção sentado a beira da calçada porque logo vem alguém  batucando  para me acompanhar ou até, quem sabe, me socorrem com acordes de violão. Ninguém precisa saber que a dor futura será o troco da vida passada que se teve. À ninguém é necessário entender que o ócio é a revanche dos tempos em que você se deitava tarde e acordava cedo para ficar mais horas com os amigos fazendo o que só a vocês dava prazer.
Agora é diferente porque é carnaval, e pelo que fiquei sabendo a gente vai se acabar na rua ou dentro de qualquer salão, só não vamos parar com a pintura do quadro que começamos no dia 13, até pelo contrário,  continuaremos a pintá-lo com cores cada vez mais fortes para realçar a paisagem que desponta, já que para isso dedicamos muito amor e muito esmero.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

ARQUITETANDO SONHOS.


Jair deixou o carro um quarteirão antes da casa onde mora com a mulher e um
vira-latas que a noite fica solto no quintal. Saltou o muro que os separa da rua, fez festa no  cachorro que a seu comando não latiu e com jeito, sem respirar, esgueirou-se através da janela invadindo o próprio quarto.  O silêncio era total, só os ponteiros rangendo na subida e descarrilando numeração  abaixo num relógio preso na parede se ouvia. Era quase  madrugada. Sua mulher, que naqueles dias tinha a cama só para ela, dormia um sono de festa ou de pesadelo. Sabendo que não seria visto, Jair colocou éter num lenço e o forçou junto ao nariz da mulher. Com isso criava-se uma incógnita para o futuro do seu casamento. Na escuridão a bela mulher se debateu, lutou, mas na espiral em que estava envolvida sentiu que perdera  uma boa parte da sua consciência, por isso cedeu aos arroubos do seu malfeitor. Não perdeu, no entanto, a certeza de que recebia em seu corpo as carícias que mais mexiam com sua libido; um hálito de uma boca bem cuidada em sua nuca, um par de lábios carnudos escorrendo pelo pescoço até o colo junto aos seios e mil mãos acariciando seus cabelos, suas pernas, as nádegas e seus seios, e por fim segurou como se fosse frágil o seu rosto para, como um colibri, beijar as pétalas orvalhadas dos seus lábios. Alguma coisa mais tenra, quente e que pulsava como um coração se afastou de junto ao corpo dela, talvez contra a vontade dele ou dos dois caso não perdesse  parte da consciência que ele achava que ela tinha perdido.
Sobre o criado mudo restou um lenço branco com resquício de éter e um bom perfume,
 e ao seu lado uma rosa vermelha orvalhada. 
A janela que o permitiu entrar não deteve a saída do algoz que retornou à escuridão da rua, 
ao carro, ao hotel aonde pernoitou para voltar à empresa que o deixou visitar a 
esposa por quem,  há 15 dias, morria de saudades.
(A foto é uma homenagem,  não tem a ver com o fato).

terça-feira, 20 de janeiro de 2015

ATRAVÉS DA JANELA.

Da minha sacada eu admirava a cidade que  aos poucos se preparava para dormir. 
Desviando os olhos para a casa em frente, vi, através da janela de um dos quartos duas adolescentes conversando. Nada de mais, pensava eu que há muito vivia nessa cidade onde varandas debruçam sobre salas de jantar ou até sobre os quartos dos prédios vizinhos, como nesse caso, e como eu já estava acostumado não atentei para o que as duas pudessem estar fazendo, por isso continuei olhando as luzinhas das casas se acendendo na mesma proporção que as estrelas piscavam como se pretendessem namorar a lua. A penumbra da minha varanda escondia o meu olhar que se tornou bisbilhoteiro quanto uma das garotas se pôs de pé puxando a saia para acima da cintura de maneira que a outra, afastando a parte da calcinha deixasse livre a virilha e ali, na junção do ventre com as coxas, depositasse um beijo que de tão demorado parecia não ter hora para acabar. 
 Esta cena pôs fim a magia do entardecer que aos poucos ia dando vez a noite quando o pirilampejar das luzes das residências e das estrelas me mostrava a magia que só na serra onde moro, é capaz de acontecer.  As jovens, no entanto, pretendiam desvendar os mistérios do sexo antes da hora e se fosse com homem ou com mulher, parecia não importar muito. Achavam que fazer a hora e não esperar por acontecer seria mais viável, enquanto eu, calejado que sou, esperava no alpendre pelos milagres que as noites estreladas costumavam me proporcionar. O quadro produzido pelas garotas poderia ter sido o grande momento do qual jamais me esqueceria, mas juro que a escolha do elenco que elas fizeram para criar a cena não foi muito feliz o que teria cegado os meus olhos e confundido os meus sentidos.

sábado, 17 de janeiro de 2015

Não se conquista uma pessoa para que fale de suas dores, mas para que nos ouça falar das nossas.

Quando se descobre a felicidade a gente deve escondê-la dos olhares cobiçosos, 
dos despeitados e invejosos, para proteger na integridade essa tal felicidade, enquanto se deita e se rola na quase impossível leveza do ser. Eu me tranquei com os meus segredos e lutei para que as pessoas mais ligadas a mim se resguardassem dos amigos que hoje lhes são fiéis, mas que, por um desentendimento bobo numa hora imprópria pode se tornar um inimigo mordaz. Não que ele nos vá morder ou matar, mas matará os novos e maravilhosos momentos que poderíamos compartilhar. Certa vez uma das minhas amigas, que já algum tempo andava triste, resolveu me contar sua vida. Começou por falar dos seus risos e de suas boas intenções para com os menos favorecidos pela sorte, mas quando deu pinta de querer falar de suas intimidades mais sofridas eu lhe pedi que parasse. Perguntei se havia necessidade de se expor divulgando suas mazelas e engrandecendo aqueles que a esculachavam. Continuei com o meu discurso para concluir dizendo que os amigos sinceros não precisam saber dos seus problemas e dos momentos que passou em sofrimento, já que ninguém nos adota como amigo pra nos ajudar, mas para ter onde chorar suas mágoas ou morrer de tanto rir. Essa minha amiga confessou que já tinha falado sobre esse assunto com uma outra pessoa que eu nem sabia que se conheciam. Diferente de mim sua amiga fez questão de ouvi-la. Foi nesse momento que eu percebi que no diálogo entre elas, somente uma dizia a verdade e por isso chorava suas pitangas, enquanto a outra só se engrandecia. Só falava o que lhe era favorável. É claro que um amigo fala para o outro o que se passa em sua vida, mas ele, no entanto, precisa entender também que só ouvirá em resposta o que o amigo acha que ele merece ficar sabendo e isso não obriga a ninguém dizer a verdade, somente a verdade. Na dúvida, está na cara, o pregador vai dizer aquilo que, numa eventualidade, lhe trará menos problema. 
Se depois de ouvir o que falei você ainda quiser me contar a sua história, ponha-se à vontade.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

POR ELA, AGORA É POR ELA...

Os anos começam e terminam sempre da mesma maneira, mas esse precisava
e felizmente está sendo diferente.  Ele chega como quem não quer nada, mas nota-se que tem outra postura e uma nova cara, não uma cara bonita para chamar a atenção, mas uma que nos tranquiliza com seu par de olhos ternos e uma boca que não blasfema, mesmo que tenha de calar para não pecar, e que, ainda por cima conserva a compostura de um príncipe ou, quem sabe, de uma princesa. Quando ao lado daqueles que me amam e por quem nutro o melhor dos sentimentos estive em Copacabana admirando os fogos,  cheguei a pensar que naquele momento fugia de mim o melhor ano que eu já tinha passado.  Mas eu estava errado, pois, nem 13 dias do novo ano havia amanhecido e a alegria rasgava em nossos lábios o mais puro e brilhante dos sorrisos. Todos sabem ou saberão que participei com nada menos que 80%  para mudar a minha vida, a da minha filha e, é claro, a da minha mulher. Agora a gente vive com os dias cheios e se alguém pensava que não tínhamos tempo para mais nada, se arrependerá de ter feito tal juízo.  Até os três passeios agendados para o início desse ano, fora Juiz de Fora, têm a ver com esse processo. Portanto, o ano começa completamente diferente e mesmo que pensássemos, pelo menos eu, que choraríamos por isso ou por aquilo, acabamos por descobrir na cara da gente o mais escrachado de todos os sorrisos, talvez melhor e mais bonito dos  que pudéssemos almejar. Eu, como disse, fiz muito para que isso pudesse acontecer, mas se não fosse a compreensão da mulher que amo, do amor puro e descomprometido da minha filha e o apoio da Cecília, amiga de Kelly, que traduz livros de outros idiomas para o nosso e vice versa, e ainda leva na bagagem o prêmio por ter escrito o melhor livro de crônicas da atualidade e nada do que eu fiz teria razão.  Sem Cecília e a minha gente, nada teria acontecido.
Agora é esquecer os lenços, tirar do saco a viola e tocar para os amigos supracitados que cantam e dançam enquanto, juntos, desbravaremos nossos novos caminhos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

UM TIRO NO CORAÇÃO

Eu já fui carregado nos braços, nos ombros e no coração, mas nas costas 
ninguém me levou ou eu carreguei ninguém.  Tem vez que tentam fazer de mim um cara mais fraco do que sou e por isso me fazem de gato e sapato e como eu lhes dou as costas me chutam a bunda e riem de mim. Assim é a humanidade, paradoxal. As pessoas escolhem seus alvos para se mostrarem bons atiradores, mas se esses alvos, antes do primeiro disparo caírem em sofrimento com uma doença desconhecida, por incrível que possa parecer esses mesmos atiradores se envolvem na causa e sem medir esforços se doam, se entregam como os americanos se doaram aos vietcongues depois da guerra,  e fazem isso de tal maneira que se tornam em mais um Charles entre muitos que fizeram questão de trocar o próprio nome. Eu não posso deixar de falar na histórica França que nas ruas colocou o que tinha de melhor na presidência e nos seus ministérios e com esse gesto viu formar a corrente humana com presidentes, príncipes e reis de países que se deram os braços em elos reforçando a corrente da indignação. Tal seriedade para a morte de alguns trabalhadores da imprensa calou a boca brasileira que tem seu povo mal tratado pela governança que não se comoveu com meia dúzia de gatos pingados que, em passeata como a de junho passado, sofreu com a infiltração de mascarados, paus mandados. 
Tive muita vontade de ofertar meus braços para fortalecer a corrente daquele milhão e meio de franceses e não franceses que, revoltados com a fé estremada de alguns que, em nome de Alá, não respeitam o deus dos outros. É duro ter que engolir o sapos que nos enfiam goela abaixo sem uma bebida para companhar, é duro ter que aceitar na tua trincheira um amigo que vai esvaziar o teu cantil  para te matar de sede. Dormir na tua cama para te ver mal na manhã seguinte e achar que te faz um favor enorme. Eu não bebo se o meu amigo não saciou a sua sede e só me deito em sua cama se ele se deitou primeiro.
Tem vez que você fica triste e não sabe por que motivo. Eu me sinto assim não faz muito tempo, mas também não sei, ou acho que não sei por que.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

ELOS, O ROMANCE.

Eu já vi pessoas se misturando com porcos.
Já vi mulheres vendendo seus corpos.
Já vi homem se curvarem frente à mentira.
Já vi o forte se calar com o berro do fraco e o
pecador reclamar do contrassenso alheio.


Eu vi muita gente tratando dos porcos sim, sujando suas botas sim, mas comer 
farelo com eles, não.
Já vi mulher vender seu corpo em troca de comida pros filhos. De remédio pro pai, mas sem ter prazer com o que fazia, e se chorasse, não era pelo gozo que poderia estar sentindo.
Eu já vi homem se curvar diante da mentira do patrão para manter seu emprego, sua família abastada e seus filhos no colégio, mas concordar com as mentiras que ouvia, acredito que não.
Vi com esses olhos da cor de melado que Deus me deu, verdadeiros gigantes se calarem diante do grito do mais fraco, perpetuando o ditado que diz; quando um não quer dois não brigam.
Já gritei com meu filho por fazer o que eu fazia na sua idade. Já desejei mulheres casadas e a elas prometi o que jamais poderia cumprir.
Assim é o livro ELOS que acaba de ser lançado. É um romance que mostra a saga de uma mulher que nasceu e se criou numa casa onde mulheres ganhavam a vida. Ali ela serviu aos porcos, sem que do farelo sentisse o gosto. 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

RETROSPECTIVA.

Quando se fala em retrospectivas logo nos vem à mente os melhores e até os 
não tão importantes acontecimentos que nos marcaram no ano cuja passagem deu vez ao que ora nos abraça. Lembro-me dos momentos que marcaram como ferro em brasa a minha alma para que deles não me esquecesse. Os ruins também me causaram dor, a mesma dor que sente o gado quando tem no couro gravado o nome do dono. 
Voltando no tempo eu me lembro dos meus primeiros 13 anos. Época em que a gente se reunia no final da tarde para fazer estrepolias. Dos meninos eu me lembro de todos, mas das meninas somente aquelas que marcaram a minha vida. Lembro de Delair, uma pretinha magrela que batia nos meninos, talvez pretendendo imitar a mãe que não tinha medo de homem. Eu, muitas vezes, me espantei com marmanjos varando porta afora da casa de D. Hilda com ela em seu encalço gritando palavras que nem eu que iniciava na puberdade era capaz de proferir. Aqui, sem que ninguém nos ouça eu  faço uma confissão; eu também já corri dos tapas certeiros que Delaí dava nos moleques que não faziam o que ela pedia. 
No morro onde eu cresci vivia uma família, também negra, que morava duas casas acima da nossa. Meu Deus como aquela gente se gostava! Entre eles havia um certo respeito e muito entendimento. Tanto os donos da casa quanto seus filhos davam exemplo de boa vizinhança.
Sinceramente é constrangedor dizer que deles não me lembro de ninguém, e dos seus nomes a minha já enfraquecida memória não se recorda. Entretanto, daquela gordinha que das filhas era a mais nova e beleza nenhuma ela tinha em relação aos irmãos, eu não consegui me esquecer. Seu nome também não me recordo, mas do seu apelido, ah, dele jamais esqueceria. Buluda. A garota era o retrato da alegria. Buluda era boa aluna, boa filha e uma tremenda amiga. Quantas não foram as vezes que eu, choroso pelos tabefes que a minha mãe me dava não era consolado por ela, quantas? Buluda em tempo nenhum falou disso com os outros e zombar do amigo para se fazer melhor ou engraçada ela jamais pensou fazer. 
Feliz ano novo gente e a você, Buluda, que Deus conserve em teu rosto essa alegria que não me deixou esquecer teu nome.