sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

COMO NÃO MATAR UM SONHO...

        Ela era uma menina que enrubescia ao ver o garoto pobre e sorridente que de uns tempos para cá vinha sentar-se junto ao seu portão.  Do quintal onde morava a menina, que não tinha mais de 12 anos, podia ver o garoto se acomodando em um dos degraus que acessavam a entrada de sua casa como a garotada nos fins de tarde. Aquele era o momento mais confuso que a alma de uma criança podia atravessar. Será que ele me conhece ou pelo menos já me viu em algum momento? Será que eu devo arrumar uma desculpa para ir lá fora me mostrar para ele? - Pensava a  jovem sem tirar os olhos do menino.  No futuro, quem sabe aquela criança, cujos hormônios esculpiam o corpo, poderia vir a ser o homem de sua vida?  Mais cedo do que ela esperava os dois se encontraram numa gincana entre escolas.  Naquele momento a menina se viu instigada a falar com ele, mas estancou diante da doce figura.  Ela, que carregava consigo uma gota de esperança, um calor a esquentar-lhe o rosto e um fogo propenso a queimar-lhe o peito não fez outra coisa senão olhá-lo tão de perto que poderia tê-lo tocado se quisesse, mas não o fez.  Angustiava-lhe o desejo de sabê-lo sentindo por ela o mesmo que nela o menino causava.  Na esperança de dar a sua equipe o mesmo potencial o instrutor achou por bem trocar o menino por outro, um pouco mais velho, porém, mais forte e mais ligeiro.  Sua equipe não resistiu e a escola da menina perdeu, não só a partida, mas a chance de continuar na competição.  Mesmo não tendo o seu nome entre os vencedores, lá estava ela para ver o menino, mais uma vez.  Seria  esse garoto o primeiro e único amor de sua vida? - Voltou a se perguntar.    
       Outros encontros, casuais, foram surgindo no decorrer dos anos, porém um a levou às lágrimas; a morte da avó do coleguinha.
  D. Arvelina, que dele cuidou desde o nascimento, por mais que tentasse,  não resistiu a segunda e última investida da morte. Cruzou sobre o peito as mãos bondosas, fechou os olhos e riscou nos lábios seu último sorriso.  Queria ser lembrada pelo neto como uma pessoa feliz até na hora da morte.  O menino acusou o golpe e talvez por isso não se tenha dado conta dos braços miúdos que o envolveram e do beijo na lágrima escorrida em sua face.        Não foi naquela oportunidade que a menina seria vista por ele.  Quis a sorte que os dois se encontrassem num momento de felicidade para uns e de grande tristeza para outros.  Era só o fluminense perder naquela rodada que o vasco seria rebaixado à segunda divisão e como perder não carecia de esforço nenhum, o time cruz maltino foi levado à segundona.  O garoto, agora um jovem rapaz,  que torcia pelo flamengo correu para os braços dos amigos como se o seu time tivesse feito um gol, e de abraço em abraço, acabou entre os braços da menina.  Logo nos dela que nem gostava de futebol. Fingindo estar feliz com o resultado o beijou na face e com ele ficou tempo suficiente para alinhavar seu sonho.   Outros encontros  davam a ambos a certeza de estarem namorando. Aos poucos o par foi se conhecendo e dos dois, ele era o mais acomodado.  Não dava pinta de querer coisa nenhuma e de campeão que foi na gincana da escola o moleque não tinha nada.  Ela, por sua vez, era mais atirada e se não fosse por sua ousadia, os dois nem teriam se conhecido.    Pegada eu não percebi que tivesse, mas, enfim, ele era um bom companheiro, um bom namorado, um ótimo rapaz. - Tentava ela se consolar.    Quantas vezes a menina acordava de madrugada arquitetando maneiras para encontrá-lo e  num lindo cavalo branco galopar para além dos sonhos aonde as fadas, os príncipes e as princesas têm suas histórias contadas. O seu comodismo, o desinteresse pelas coisas e por mim, de certa maneira, deixou balançando o que eu achava que sentia por ele e até me questionava se o homem que mora comigo, dorme comigo, era o mesmo moleque que sentado no degrau do meu portão olhava as pipas no céu da nossa rua. Há dias eu achava que não era, mas agora eu tenho certeza que não.  Meu Deus, por que permitiu que eu matasse o melhor dos meus sonhos? Por que não o fez mudar com seus pais para um outro bairro, para uma uma cidade distante, para outro estado ou um outro país? Se assim tivesse acontecido eu não estaria tão triste com ele deitado ao meu lado, como está, mas sorrindo em me lembrar dele correndo pelas ruas atrás da bola que jogava com os colegas enquanto eu fazia tranças na boneca que a minha madrinha me deu num dos poucos natais que alguém se lembrou de mim. Talvez eu não tivesse resistido se você não fosse meu na hora que foi, mas também você, quem sabe, não teria tido a sorte de conseguir alguém  melhor do que eu?  Pensando assim estou dando a entender que cansei de correr atrás do meu próprio rabo. - Ela se perguntava como se não estivesse vivendo aquilo. Agora que o tempo passou e tudo na gente ficou diferente eu já não o vejo com os mesmo olhos que o via antes o que me leva a perguntar se ele é mesmo aquele moleque por quem fiz loucuras só para que ele me notasse. Eu sei, disse ela aos seus botões, que você está aqui, deitado ao meu lado, mesmo assim eu sinto muito a sua falta. Talvez se você mudasse a sua maneira, se me tratasse com mais interesse, se ouvisse do começo ao fim o que eu tenho falado talvez mudasse alguma coisa. O tempo, no entanto, me mostra o cristal rachado e não fui eu sozinha quem fez esse estrago, você me induziu ao erro quando me obrigou a deixar de ser criança, a pensar e agir como mulher. Talvez por isso nada mais pode ser mudado a não ser para a pior.   Ah, menino da minha infância, que saudade você picha em minhas lembranças!, resmungava ela no momento em que ele puxava o lençol de cima dela para se cobrir.