sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DESCUIDO OU SACANAGEM?

Chegou arrastando pela mão o filho que chorava a morte de sua mãe enquanto ele 
chorava  a perda da companheira.  Fora ela uma boa filha, mas depois que se casou ficou melhor e ia melhorando a cada dia, não por mera vaidade, mas para se achar digna quando fosse  chamada de mãe. A moça era de uma doçura tão intensa que até nas santas causava inveja. 
Antes do homem chegar com seu filho, um forte tremor no solo jogara por terra a maior parte do que o ser humano havia construído. O fato teria acontecido num passado não muito distante e hoje, infelizmente, o pesadelo voltou a ser sonhado. Algumas cidades do Rio sofreram e ainda sofrem com a interferência da natureza e outras, em outro Estado, perderam parte de suas riquezas e dos seus moradores com o volume de chuva na cabeceira dos rios que fazia tempo vinham secando.  Primeiro foi Santa Catarina com um mar de lama descendo morro abaixo até destruir o que viu pela frente. Depois foi Nova Friburgo, Petrópolis e Teresópolis, e agora, com a ajuda da falta de sorte e do mal gerenciamento, Bento Rodrigues, um sub distrito de Mariana no sul de Minas, vê seu povo chorar a perda de parentes, amigos e vizinhos,  vitimados pelo rompimento das barragens do Fundão e de Santarém que deixaram sem teto e desprotegidos aqueles que sobreviveram. Entre os que nos deixaram estava Dorvê, como gostava de ser chamada.  Ela era uma bela mulher que nasceu para ser mãe e esposa amantíssima, porém partiu do nosso meio sem avisar ao marido a quem tanto amava e ao filho, razão da sua bondade.  Dorvê fez molhar os olhos da família e de quem tomou conhecimento de sua história. Os três não eram a santa trindade, mas também não deixavam de sofrer com a dor alheia e sorrirem quando a alegria era geral.  No momento  estamos nós  curtindo um luto que não era para ser curtido com o sofrimento e a morte prematura dessa gente, haja vista que alguns perderam a casa, outros perderam o trabalho, as referências ou  perderam tudo como se ficou sabendo.  Eu não tenho como deixar minha casa para oferecer ajuda além das preces que tem vez me pego rezando, caso contrário estaria agora em Mariana oferecendo minha mão, como a mim me ofereceram em 2011, na minha cidade.  Naquela oportunidade  eu fui um dos poucos que não precisou, até pelo contrário, eu, a minha mulher e a minha filha, deixamos a nossa cama, a nossa dispensa, a nossa luz e a nossa água a disposição dos mais necessitados e para minha alegria e a de  todos da minha família, a gente foi útil a quem precisou.