segunda-feira, 9 de novembro de 2015

A SOGRA E O GENRO MALVADO.

      Alessandra viajou para ver a mãe galgar seu último degrau de vida.   A moça, sem poder se afastar do serviço, deu seu jeito e zarpou para São Paulo. Levava com ela perguntas com as quais viveu a vida inteira se questionando. Infelizmente a velha foi cremada para evitar contágio da doença. Fora de si e blasfemando contra o criador, Alessandra voltou à casa antes do previsto. Atordoada mal percebia que fios de cabelo, não os seus, impediam o escoamento da água no ralo do banheiro. Eram longos fios loiros longe de serem os seus.  Correu ao quarto onde encontrou outros na cabeceira da cama. Com a mesma facilidade com que trocava um vestido a mulher trocou a tristeza pelo ódio do seu marido. Ficou brava, zangada, desesperada, com a traição.  Foi ao quarto da empregada que tinha sido dispensada em função da crise e ali ficou até que ele voltasse.  Chegou com uma garrafa de champanhe e um largo sorriso como quem chega à uma festa.
     Ela desesperada com a perda da mãe e o marido festejando sabe-se lá o quê!
     Se ela não tivesse esquecido a bolsa na sala o cara não teria dado sua presença.  Ao vê-la o cara empalideceu, parecia que ia ter um troço.  Ela, por sua vez, não estava nem aí para o estado do sujeito. Meteu o dedo na cara dele e foi gritando; - qual a piranha que você trouxe pra minha casa e que usou e abusou das minhas coisas e ainda por cima deixou na minha cama seus cabelos nojentos? Quem foi que se lavou no meu banheiro e entupiu o ralo de pentelho louro, hein, seu canalha, fala! - Ninguém, meu amor, respondeu na mesma hora que soava a campainha.  Alessandra empurrou o marido para o lado e correu para ver quem era.  Era o porteiro que não conseguindo falar com o morador, subiu para saber se a loira que procurava por ele podia subir ou não.  - Mas é claro que pode!, gritou Alessandra empertigada.  Só não diga que estou aqui ou ela não sobe - concluiu Alessandra. O marido queria morrer ao ver as duas cara a cara, e quase conseguiu de tanto que chorava ao passo que Alessandra parecia pronta para receber a tal piranha que, por acaso,  não deu as caras. Na certeza de que o porteiro havia contornado a situação, o marido mudando de estratégia partiu para a ignorância. Chamou a mulher de fria, de má companheira e que  não prestava para nada além do emprego que tinha. Nem para visitar sua mãe doente você achava tempo - disse olhando dentro dos olhos daquela que fora de si respondeu com uma certeira bofetada.  O covarde  retrucou com outra e mais outra e outras tantas até que a mulher desfaleceu.
Anos mais tarde Alessandra, que deixou o apartamento e foi morar na casa que sua mãe deixou, leu numa coluna que um rapaz com a mesma idade e nome do seu ex-marido era candidatando a prefeitura da cidade em que antes moraram. O tipo não era estranho, mas o nome e a idade davam a ela a certeza de que o candidato em questão era mesmo o seu antigo marido. As dores que sofreu com os socos, os pontapés e a traição agora doíam na sua alma. Refeita do golpe que recebeu com a notícia trocou de roupa, muniu-se do exame de corpo de delito de quando foi agredida e partiu para o jornal  onde fez seu desabafo. Assim que a sua história e a imagem do seu rosto deformado foram publicadas foi que Alessandra teve a certeza que a ferida que tinha no corpo e na alma finalmente iam cicatrizar.
A propósito; o candidato recebeu os votos necessários para ficar em último lugar.