sexta-feira, 16 de outubro de 2015

VESTIDA DE BRANCO.

Talvez eu desejasse falar das flores atapetando o campo, do mar refletindo o azul do 
céu e da intenção da cascata em amolecer as pedras que a formam, mas não.  O que eu mais queria, na  verdade, era saber dizer o que eu sinto quando ela me vê chegando em casa. As vezes o cansaço me curva as costas e o suor me desfigura a cara, mas nem isso é suficiente para me prostrar se eu sei que ela entra em convulsão só de me ver na sua frente. Aí eu paro, respiro, boto nas fuças o melhor dos meus sorrisos e entro para abraçá-la.  Só de vê-la me arrepio de cabo a rabo enquanto ela, perdigueira como são as mulheres, se mexe, remexe, torce e contorce num branco de doer os olhos, só para me enfeitiçar.   Tem momento que a sua meiguice me leva a refletir sobre a humanidade. Meus Deus, como alguém pode amar dessa maneira num mundo hostil como esse? Eu não me refiro ao amor que ela demonstra ter a mim,  mas ao que ela dispensa aos que a cercam.  Nesse momento eu vejo como o ser humano é mesquinho com relação aos seus próprios sentimentos.  Ela, no entanto, em momento algum fez jogo para ter de mim algo que não fosse sentimental e quando eu me lembro disso, juro, me dá um vontade tão grande de chorar que só de falar me molham os olhos.  
Eu, como todos os homens, já tive amores relevantes e até um de verdade eu sei que morou no meu peito, mas igual ao que ela demonstra ter por mim, não. Não tive.  Não tive e sei que jamais terei depois desse. Talvez você já tenha sentido doer a boca por conta de um sorriso largo e demorado, mas só quem sorriu a ponto de perder o fôlego sabe do que estou falando. A gente fica com cara e jeito de bobo na frente de qualquer pessoa e nem nos tocamos do mico que a gente paga. Tem vez que eu penso que o amor, esse, cujo tamanho desconheço, ainda vai acabar comigo ou com ela, porque, como diz o ditado; água demais mata a planta.
São 17h e já me preparo para sair como tenho feito por conta dos compromissos, mas antes que eu pense em procurá-la para o beijo de até logo, lá está ela de branco no alto da escada achando que vai comigo. Aí não tem coração que aquenta. Pego algumas sacolas para possíveis eventualidades e entre várias guias escolho a mais bonita para os dois, eu e ela, sairmos ao encontro da mãe que jamais se envergonhou, até pelo contrário, se honra em ter uma poodle branquinha como filha.