terça-feira, 20 de outubro de 2015

QUANTO TEMPO VIVE UMA FLOR?

Não é somente a natureza que se prepara à chegada das estações, mas também o 
comércio com seus fregueses renitentes e a indústria para dar suporte.  Em todo o mundo a coisa flui dessa maneira, menos no hemisfério em que vivemos.  Aqui a gente  sua no inverno e perde no outono a plantação.  Tem queimada no norte e no nordeste e no sul inundação.  Aqui também se morre sem ficar doente e ao ingerir o que garantem fazer bem para a saúde. Nas capitais não têm remédio quando adoecemos, mas se têm não há quem possa ministrá-lo.  Nos hospitais não existe leito para novos enfermos e médico para diagnosticar o mal que poderá matá-lo, e quando o sujeito insiste em querer morrer, aí, quem torce o rabo não é mais a porca, mas tu, que ficaste orando por sua melhora. É assim que as coisas têm sido nestas terras brasileiras onde se morre a todo instante; morre-se por falta disso ou por excesso daquilo. Morre-se por falta de água em São Paulo e por enchente em Porto Alegre. Morre-se pela doença contraída, pela indignação quanto a administração do país e também de tristeza ou de vergonha. Em um desses dias, por exemplo, eu movi o mundo sem que a mim fosse dado o direito de usar a hipotética alavanca e o tal ponto fixo no espaço. Mesmo assim não consegui falar com Deus, com os santos ou com qualquer anjo que me quisesse ouvir.  Desesperado arrisquei  fazer um  acordo com o diabo, mas infelizmente o PT não tinha espaço em sua agenda. Como nada mais tinha que eu pudesse fazer, arrebanhei meus amigos e fomos rezar na intenção de uma flor que há muitos e muitos anos teimou desabrochar no cair da noite por achar que agindo dessa maneira não perderia as suas pétalas o viço da bondade e o colorido da generosidade.  É bom que se frise que ela fez isso somente depois de de ter mostrado para quê e por quê veio, como se fosse preciso dizer ao sol que o dia sem ele é descolorido. Talvez esse detalhe tivesse criado naquela flor a essência com a qual perfumou o jardim onde viveu seu quase centenário.  Nossos amigos que ora lamentam a imagem do caule que antes vergava e não quebrava, umedecem seus olhos ao vê-la dobrar de dentro para fora num  jarro de vidro esquecido num canto de mesa, ao passo que pétalas, várias, diversas, milhares, lutam para não secar, não perder a cor o que as impossibilitaria de exalar o perfume que as manterão vivas, bem vivas em nossas lembranças. 
O dia, hoje, amanheceu sem sol. As flores caladas, sem um comentário, nem mesmo sobre a própria beleza como se de luto todas se vestissem.  No alto dos galhos, destoando da verdade, a brisa rege o balé das folhas e de vez em quando me traz o perfume de um botão desabrochando. Aroma esse que me fez lembrar de uma flor que continua linda no vaso das minhas memórias, por mais que o tempo venha a passar...