terça-feira, 27 de outubro de 2015

A ÚLTIMA GARGALHADA.

No fim de cada espetáculo o teatro cerra as cortinas e depois de trocar comentários 
o povo segue seu caminho. Quando o contrato com a companhia chega ao fim, não só as cortinas como as portas se fecham por tempo indefinido até que uma nova proposta as abra à mídia impiedosa e à exigência do público de gosto duvidoso.  Com as mãos nas costa um impetuoso pseudo, mas vibrante,  diretor vasculha com seu olhar o teto e os arredores. O espaço parece bom, diz ele, franzindo o senho. De tudo, só o preço não me agrada - conclui o moço assinando a papelada.  Dias depois serão os ensaios varando a madrugada como vem acontecendo desde os templos romanos.  Mais tarde tudo volta a ser como era antes, como é agora, e como sempre haverá de ser por debaixo da lona de cada arena, por sobre a serragem dos improváveis picadeiros e dos ricos tablados mundo afora. Três espaçadas batidas serão dadas na madeira  e tão logo a terceira se ouça, as cortinas subirão.  Depois virão os abraços e os que buscam tirar uma Self, sem se importarem com os idiotas que vaiam sem saber por quê.
Hoje, do alto da minha ingenuidade me certifico de que jamais nos será dada a oportunidade de sorrir ou de chorar com novas cenas se ensurdecemos para o alvoroço dos ensaios, para os gritos de ordem dos diretores nervosos e à algazarra dos atores no final de cada dia, noite, madrugada. Os pitis dos atores que precocemente atingiram o estrelato e da banda que ao caírem as cortinas toca o seu último acorde, também a isso ensurdecemos.    Nenhum diretor, por mais genial ou maluco que tenha se tornado tentará decifrar os segredos da natureza escancarando as portas do templo para onde foi levado, no bojo do sarcófago dos imortais, alguém, cuja vida eternizou em nossas lembranças. Ela se foi levando consigo o sorriso do medo e da trágica comédia, só não levou os cartazes colados em nossas lembranças. 
M E R D A!
Mesmo que o teatro não mais nos abra as portas para o riso, por simples que seja.