terça-feira, 11 de agosto de 2015

UM PELO OUTRO.

       Quantas vezes eu me senti fraco, medroso e se não fosse a presença dele talvez há muito eu tivesse desistido.  Quantas vezes eu chorei às escondidas enquanto ele, que me conhecia tão bem, quem sabe não chorou comigo? Quantas vezes eu quis caminhar sozinho e por não tê-lo convidado, caminhava sobre as minhas pegadas, sem me perder de vista? Tem perguntas e afirmações que o ser humano não tem como responder ou entender por falta de lógica ou de precisão já que ele, comparado aos que me são iguais, não teria amor próprio ou vergonha.  Quando uma pessoa ofende a outra é difícil a ofendida não dar o troco ou fazer pior. Se você grita com alguém ela, em resposta, o ataca, se encolhe ou se esconde para depois, mesmo que você já tenha se desculpado, jogar na sua cara o maltrato que sofreu. Com ele, no entanto, não funcionava do mesmo jeito, pois se eu o ofendesse chegando a escorraçá-lo de porta para fora ele, pobre e saudoso amigo, certamente se arrastaria na confluência do chão com a parede para sumir das minhas vistas até que eu voltasse às boas, comigo e com o mundo ao meu redor.  Enquanto isso não acontecia ele ficava à espreita de um gesto ou de um olhar qualquer para, curvado  com o peso da humildade, me servir do que eu quisesse sem que precisasse  explicar porquê fui rude e grosseiro com quem me olha de baixo para cima e jamais levantou a voz para me contradizer. É claro que estou falando de Walter, o meu velho e mais fiel amigo que o tempo, idiota como tem me provado que é, o levou para fazer com ele o que eu não teria a coragem de fazer até com quem não gostasse de mim. Hoje, depois de tanto tempo e morrendo de saudades daquele cara eu vejo junto aos meus pés um grosso tapete de pelos brancos e macios que tem boca e não fala, aliás, fala com os olhos, não qualquer palavra, mas as que nos calam e se o controle não for o nosso forte elas nos farão chorar ou, no mínimo, umedecerão nossos olhos.  Eu acredito que todos nós, por mais durões que demonstremos ser, deveríamos ouvir o que Babi tem para dizer ou continuaremos a acreditar naquela velha história de que bicho tem boca e mesmo compartilhando do nosso dia a dia infelizmente não fala, mesmo se soubesse.