sexta-feira, 3 de julho de 2015

DESCE UMA CERVEJA...

   
           Carlos Ernandes tomava umas Bramas  no bar de um hotel a beira do cais em  Vitória, no Espírito Santo.  Enchia a cara na esperança de esvaziar a alma até que flagrou um sujeito aos berros com a namorada.  Essa talvez fosse a forma encontrada por esse animal para discutir a relação. Letícia também não se calava e de babaca e corno cansou de chamar o namorado que parecia querer esmurrá-la. Carlos Ernandes foi pego olhando a confusão e talvez por vê-lo sozinho, Letícia, que fugia em direção ao toalete, pegou de sobre o balcão as chaves do rapaz como se pretendesse decorar o número do seu apartamento e mais tarde, quem sabe, visitá-lo como vingança à truculência do companheiro. Quando Letícia voltou do lavabo escutou Carlos Ernandes dizer entre os dentes que esperaria por ela no quarto dele.  
   _O que você falou para aquele cara?, perguntou o namorado enfurecido.   –Eu só disse alô, que é  o mínimo que um amigo diz ao outro. Letícia pegou a bolsa e retornou para o seu quarto, mas ao cruzar com seu provável futuro amante ela voltou a cochichar; _pode me esperar.  
Carlos Ernandes já traçava planos para o seu primeiro encontro, por isso decidiu aguardá-la como  veio ao mundo; completamente pelado. Nesse ínterim alguém batia levemente na porta com os nós dos próprios dedos.  Era ela!, pensou enquanto caminhava para recebê-la. Letícia passou por ele e foi à janela de onde vislumbrou a rua e nela o povo e seus mistérios. Perguntou o que tinha para beber, mas antes de ouvir a resposta já tinha aberto uma lata de brahma e enchido o copo que passou ao amigo enquanto ela tomava, de um só gole, o restante da lata. _Você tem camisinha?, perguntou Letícia sem olhar para a cara dele. Não, não tenho, respondeu enfiando a cara entre os seios da moça.  Os dois se beijaram enquanto a mão de um acariciava partes do corpo do outro até que repondo os seios dentro da blusa de onde os tinha tirado o cara sugeriu que se encontrassem no outro dia quando teria as benditas camisinhas. O medo da AIDS os cegava.  
   No café da manhã e no resto do tempo que passou lá Carlos Ernandes não viu a pequena. Naquele momento  o jovem se lembrou que conhecia a moça de algum lugar, só não se lembrava de onde. 
      Dias mais tarde no Rio ao assistir “Vale a pena ver de novo”,   foi que se lembrou de que Letícia era coadjuvante na trama; “Salve Jorge”, da globo. 
   Carlos Ernandes desceu a escadaria do prédio,  onde morava, entrou no primeiro bar que encontrou e pediu uma Brahma.  O sujeito bebeu cerveja até que ele e a globo saíssem do ar.