domingo, 14 de junho de 2015

SUANDO FRIO.

       
Deixou o carro na concessionária e retornou de ônibus até ao banco no centro da 
cidade. Com o jogo de cintura próprio das pessoas magras, nada contra as que não são,  esgueirou-se até o meio do coletivo e de pé, frente a um banco onde uma morena se sentava o cara se postou. Ela o olhou de rabo de olho e ao melhor se acomodar no banco encostou o cotovelo um pouco abaixo da cintura do rapaz. No princípio ele pensou que o toque fosse acidental, mas a cada sacolejo o mesmo braço que segurava na proteção do banco da frente também massageava uma virilha, ali, a um palmo do seu ombro. Aí o cara percebeu que o caso era mais sério do que pudesse acreditar a nossa vã filosofia e para evitar qualquer tipo de problema quis se arredar de onde estava, mas como sair se num aperto como aquele nem os pés no chão ele conseguia ter?  Achou que talvez fosse melhor rezar, pedir a Deus para brochar ou que nenhum dos seus desejos, por mais santo que fosse, pudesse despertar do sono que dormia. Mas que nada. O rangido que o bilau fez ao acordar deve ter sido muito parecido ao de uma porta emperrada se abrindo. Abriu-se e ficou escancarada aos afagos de quem sentava a sua frente, aos olhos das curiosas que assim, tão de perto, viam o que estava acontecendo, mas talvez até quisessem trocar de lugar com aquela que o provocava. Nada disso, no entanto nele metia medo, a não ser os homens ali presente que espumavam de inveja, isso sim é que era foda. Por que esse sujeito precisava ir ao caixa eletrônico se o movimento que fazia em sua conta era pelo celular? Por que não aceitou que a concessionária o levasse de volta a casa para evitar esse tipo de coisa?  Não sei o que fazer, aliás, não sei como sair daqui, pensava o cara. O ponto aonde eu precisava saltar a muito ficou pra trás. A cara dos que se apertam ao meu redor eu já não vejo, como o medo do que possa me acontecer eu já não tenho, aliás, eu já não vejo, não sinto, não escuto  e não quero mais nada depois desse momento  quando as minhas pernas se tornaram bambas e não me obedecem, o suor escorre do 
meu rosto até a gola da camisa e algo estranho, mas que eu não desconheço, escorre pela minha perna e empoça na meia,  dentro do meu sapato. 
-Essas foram suas últimas palavras até que de porrada os passageiros revoltados o cobriram...